quinta-feira, 31 de julho de 2008

DOR "REUMÁTICA"

 LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

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Quer saber porque a expressão "dor reumática" é pomposa, antiquada, mitológica, imprecisa e não científica? Acompanhe o raciocínio linguístico a seguir e tire suas próprias conclusões.

Nas revistas científicas de todas as especialidades médicas existe uma preocupação permanente com o tipo de linguagem usada para relatar estudos e opiniões. Em geral, a linguagem científica requer precisão e deve ser baseada principalmente na descrição de fatos, ao mesmo tempo em que minimiza as opiniões pessoais a respeito dos fatos descritos. Para descrever fatos, substantivos e verbos são em geral suficientes. "A dor melhorou" é um exemplo de precisão científica na descrição de um fato. Por outro lado, "a dor horrível melhorou" não tem rigor científico porque o adjetivo "horrível" acrescenta apenas uma interpretação pessoal do que está sendo descrito. Por esse motivo, o adjetivo "horrível" é inútil para descrever cientificamente a dor.

Como um fenômeno natural, a dor apresenta características que podem ser comprovadas e precisam ser descritas para esclarecer a importância médica do sintoma. Por exemplo, a localização é útil para definir a parte do corpo a ser investigada: dor de cabeça, dor no pescoço, dor na mão, dor no joelho, dor no pé, etc. Especificar o local da dor é essencial para o diagnóstico correto, e o tratamento correto só pode ser feito conscientemente quando o diagnóstico está correto.

A duração de minutos, horas, dias ou semanas, por convenção, caracteriza a dor como aguda, enquanto a duração maior do que três meses define a dor crônica. Aguda e crônica são adjetivos que esclarecem significados clínicos importantes da dor, tanto para o diagnóstico como para o tratamento, ajudando o médico a entender melhor a queixa dolorosa.

No nível de complexidade atual, é impossível a comunicação sem o uso de adjetivos. Entretanto, já se sabe que há adjetivos que descrevem qualidades que podem ser verificadas experimentalmente, como a cor, e outros que descrevem opiniões individuais, que podem variar de pessoa para pessoa (feio e bonito, por exemplo). Do ponto de vista científico, apenas os primeiros, que chamo de adjetivos empíricos, podem ser comprovados experimentalmente. Assim, na expressão "dor abdominal", o adjetivo abdominal descreve a dor sentida no abdome; em "dor articular", o adjetivo articular descreve a dor sentida numa articulação; em "dor aguda", o adjetivo aguda descreve a dor sentida por minutos, horas ou dias; em "dor crônica", o adjetivo crônica descreve a dor sentida por mais de três meses; em "dor inflamatória", o adjetivo inflamatória descreve a dor causada por inflamação. Esses adjetivos são precisos e úteis, pois descrevem características verificáveis da dor e estão de acordo com o domínio da ciência, ou seja, estudar o que pode ser demonstrado experimentalmente. Além disso, eles se referem a uma característica única, específica e exclusiva. Ou seja, o que está localizado no tórax, cientificamente não pode ser descrito como abdominal, o que é agudo não pode ser descrito como crônico e o que não é inflamatório não pode ser descrito como inflamatório.

Há outras características clínicas importantes da dor, além da duração e localização, mas não vou aprofundar as observações sobre elas, pois a finalidade dessa descrição foi apenas introduzir o leitor no que é útil ou não para caracterizar cientificamente a dor. Quero dizer apenas que o adjetivo "reumática" é inútil para caracterizar a dor que alguém sente porque nada acrescenta em termos científicos à descrição da dor. Ao relacionar a dor com reumatismo, cria um vínculo mitológico com o que se pretendia diagnosticar. O significado verdadeiro de dor reumática é apenas "dor causada por reumatismo" e como já vimos que reumatismo não é uma doença, cientificamente não pode causar dor.

Ocasionalmente, alguma autoridade vem a público para expressar o pensamento oficial e esclarecer o significado da expressão "dor reumática". Isso é necessário porque as explicações dadas comumente são incapazes de expressar uma idéia clara a respeito do assunto e precisam ser repetidas com frequência, pois a população não consegue assimilar o significado transmitido.

Idéias como "a maioria das dores sentidas sem motivo aparente é considerada reumática", "dores reumáticas são causadas por mais de 100 doenças" e "dor reumática piora com o frio" são expressas como pérolas de sabedoria para explicar tudo e, na realidade, não explicam nada. Apenas incorporam ao adjetivo reumática os mesmos mitos associados ao substantivo reumatismo. (Leia também o artigo "Dor, frio e o mito 'reumatismo piora com o frio'" para esclarecimento de dor que piora com o frio.)

É curioso que nos cursos e congressos médicos ninguém perca tempo com essas explicações, pois é senso comum que todos sabem o que o adjetivo reumática significa. No entanto, as explicações dadas por profissionais diferentes variam, simplesmente porque não existe o fenômeno natural que sirva para descrever a dor como sendo reumática. Cada opinião é emitida baseada na crença de cada um a respeito do assunto, não em conhecimento científico. A expressão "dor reumática" é apenas uma criação escolástica, introduzida pela autoridade para preservar a criação correspondente - uma doença reumática - que nada mais é do que o mito reumatismo maquiado de pseudociência. Assim, é reumática a dor que a autoridade diz que é e explica como quiser, pois o adjetivo engloba dores em qualquer localização, de qualquer duração e de qualquer origem, tanto inflamatórias como não-inflamatórias, tanto auto-imunes quanto sem natureza auto-imune, tanto traumáticas quanto sem origem traumática. "Reumática" não é uma característica que seja útil para o diagnóstico e o tratamento de qualquer dor porque o adjetivo é abstrato e não tem especificidade para qualquer fenômeno natural.

Alguns dicionários que tentam definir a palavra reumatismo consideram-na apenas um sinônimo de dor. Os autores dessas obras devem achar que as pessoas que procuram atendimento por alguma dor musculo-esquelética e perguntam ao médico se é reumatismo o que elas têm são idiotas. Se reumatismo é sinônimo de dor, seria idiotice alguém que tem dor perguntar se tem reumatismo. Mas as pessoas perguntam não porque pensam que dor é reumatismo, mas porque pensam que a dor é causada pelo reumatismo. Isso não é a mesma coisa. As pessoas pensam no mito "reumatismo" como uma doença, o que não é verdadeiro. Mas a ciência oficial, contrariando todos os princípios do pensamento científico, insiste em querer convencer o leigo a pensar em reumatismo, usando nomenclatura relacionada ao mito, quando deveria ensiná-lo a libertar-se das abstrações e a pensar em sintomas e doenças de maneira científica.

Pensar de maneira científica é basear as conclusões sobre qualquer assunto em fatos que possam ser comprovados. A sociedade moderna é científica. As ciências do Direito, Economia e Política invadem nossa privacidade todos os dias, com linguagem técnica, para explicar processos, crises e decisões. As ciências da Física, Química e Biologia apresentam ao público, com linguagem técnica, suas conquistas no entendimento da origem do universo e da vida, e do potencial moderno de melhorá-la com o conhecimento obtido pela manipulação de células-tronco. Quando percebo a ciência nos relatos populares transmitidos por essas diversas áreas do conhecimento, sinto vergonha ao ouvir as explicações mitológicas transmitidas a respeito da dor musculo-esquelética.

A verdade é que, para o tratamento da dor e das doenças musculo-esqueléticas, não interessa se a dor é ou não é reumática. O esforço para preservar o uso do adjetivo reumática nas explicações dadas a leigos serve apenas para preservar o mito reumatismo e a ignorância popular sobre o significado científico da dor musculo-esquelética: a dor das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna.

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