domingo, 31 de agosto de 2008

O MITO REUMATISMO - PARTE I

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Nos dias atuais, quando alguém se queixa de dor nas articulações para um médico, isso sempre deveria desencadear um processo de raciocínio científico baseado no conhecimento da anatomia da articulação e das estruturas em volta dela - ossos, músculos, ligamentos, bursas -, no aporte de sangue, que leva nutrientes e células de defesa para o local afetado; nas reações químicas que estão ocorrendo e nas interações entre as células de defesa e as células do órgão doente; na presença ou não de substâncias ou de organismos estranhos no local acometido; na existência de manifestações de doença em outros locais do corpo e não só no local dolorido; nas informações transmitidas pelos nervos, que captam a sensibilidade do local dolorido, e até mesmo na constituição psíquica do indivíduo doente, que influi na interpretação das informações dolorosas que estão sendo transmitidas; e finalmente nas características sociais da pessoa doente, que influem na maneira como expressa os sintomas causados pela doença. A finalidade do raciocínio científico é formular o diagnóstico, ou seja, identificar a causa real da dor. A compreensão científica da queixa de dor nas articulações tem evoluído muito nos últimos anos, e embora aumente a cada dia, ainda é incompleta.
Entretanto, existe uma maneira vulgar de praticar medicina em que a queixa de dor nas articulações sempre significa o diagnóstico de reumatismo e o diagnóstico de reumatismo sempre leva à solicitação de exames para ver qual é o tipo de reumatismo, sem a necessidade de raciocínios científicos complicados. Essa prática, que já defini como "medicina baseada em reumatismo" (vide Reumathism based medicine, publicado no British Medical Journal), é uma forma comum de charlatanismo, muito difundida entre os crédulos incultos, e ilustra bem como o pensamento mitológico pode enganar, sem precisar de conhecimento científico.
As sociedades científicas e as fontes oficiais de referência, como dicionários e enciclopédias, que divulgam a palavra reumatismo com o significado pseudocientífico habitual de mais de cem doenças, estão indiretamente patrocinando o charlatanismo praticado com reumatismo, que sobrevive apenas porque a população acredita na doença reumatismo. E, nos dias de hoje, a crença popular sobre o assunto é o resultado de milênios de pensamentos míticos derivados do medo e da ignorância, preservados pela imaginação dos sábios e pelos erros dos cientistas.
Há mais de dois mil anos, quando não havia conhecimento científico, a compreensão dos fenômenos naturais pelo homem ignorante só era possível através da invenção de entidades mitológicas que comandassem as forças da natureza. Assim, sem conhecer as características do clima, das chuvas e dos ventos, a seca era explicada pela vontade de algum deus vingativo, que não mandava a chuva porque as pessoas haviam feito algo que merecia ser punido daquela forma. Essa maneira de pensar, atribuindo acontecimentos naturais à vontade e intervenção de seres sobrenaturais, é que caracteriza o pensamento mitológico: Uma entidade fictícia, criada pela imaginação humana, seria a responsável pelos acontecimentos da natureza.
Na ausência de conhecimento científico, só é possível explicar fenômenos naturais através do pensamento mitológico. E foi através do pensamento mitológico que os filósofos gregos, cerca de 500 anos AC, criaram a primeira explicação para as doenças.
Na Grécia antiga, os filósofos eram a elite intelectual e embora não pudessem pensar cientificamente, eram mestres no pensamento lógico, e por isso preocupavam-se com as explicações dadas aos fenômenos naturais através da intervenção de deuses inexistentes, que não resistiam aos argumentos lógicos mais simples. As explicações divinas satisfaziam os crédulos, mas os filósofos eram questionadores e procuravam explicações concretas, baseadas em causas naturais. Entretanto, a falta de conhecimento científico não permite que o pensamento sobre causas naturais seja outro que não o pensamento mitológico.
Assim, pensando mitologicamente, os filósofos gregos conceberam a noção dos quatro elementos fundamentais - o fogo, a terra, a água e o ar - para explicar tudo o que havia na natureza. Segundo eles, o mundo material era o resultado da interação entre esses quatro elementos fundamentais, combinados entre si de maneira variada. Segundo essa crença, determinadas proporções de fogo, terra, água e ar misturados, produziriam o mármore enquanto outra combinação, em proporcões diferentes produziria o ouro, e assim por diante. Até mesmo os seres vivos seriam produzidos dessa maneira, ou seja, tanto a matéria quanto a vida surgiriam da interação entre os quatro elementos fundamentais.
Não havia dificuldades em explicar a presença de água e ar, mas explicar de que maneira fogo e terra seriam encontrados nos seres vivos era mais complicado. Mas o pensamento mitológico é criativo e não tem limites. Por isso, não sendo possível colocar todos os elementos fundamentais nos seres vivos, conceberam a idéia de que, nesse caso, os quatro elementos não seriam encontrados na forma pura, mas estariam representados por humores (ou líquidos corporais) que receberam o nome coletivo de reumas.
As quatro reumas seriam o sangue, o catarro, a bile amarela e a bile escura, cada uma representando um dos elementos fundamentais da natureza.
Talvez o leitor esteja se perguntando que diabos seria a tal bile escura. Bem, essa informação provavelmente está perdida para sempre e já não vem ao caso. Devia ser algum líquido intestinal ou alguma outra secreção anormal, como as que se vêm em feridas infectadas. Pouco importa. Para fins de entendimento basta saber que era algo líquido que podia ser encontrado nos seres vivos e que o desenvolvimento da crença em elementos fundamentais e reumas que os representassem nos seres vivos foi baseado apenas na imaginação dos que conceberam essas explicações.
Entretanto, ao contrário das divindades abstratas, os elementos fundamentais e as reumas eram produtos naturais, substâncias do mundo material, e podiam ser usados para criar uma concepção materialista da vida, da saúde e da doença, sem precisar invocar as benesses ou vinganças de deuses ou demônios.
Assim, para explicar a saúde, conceberam a noção do equilíbrio entre as reumas, enquanto a doença seria simplesmente o resultado do desequilíbrio. Simples e lógico, mas ainda assim mitológico.
Embora a busca por causas naturais revele o desejo de entender os fenômenos cientificamente, a maneira como o significado do sangue, catarro e biles foi interpretado pelos filósofos da antiguidade mostra apenas que, na ausência de conhecimento científico, o que se expressa é sempre pensamento mitológico. O sangue é um produto natural do organismo, mas entender o sangue como reuma que representa um dos quatro elementos fundamentais é uma criação mitológica.
A idéia de desequilíbrio entre reumas tornou-se popular no mundo antigo e a crença em algo abstrato se torna mais verídica quando o que é abstrato passa a ser representado por um nome. Nos quinhentos anos de crença em desequilíbrio entre reumas, outras palavras devem ter sido usadas, mas como não caíram no gosto popular, não se tornaram conhecidas. O que se sabe é que, somente no século I, o sábio romano Dioscórides, médico e estudioso das plantas, criou a palavra reumatismo para dar nome ao que seria o desequilíbrio entre as reumas, e foi essa a palavra que entrou para a história.
Como desequilíbrio entre reumas era o que, segundo aquela crença, deixava as pessoas doentes e como desequilíbrio entre reumas ganhou o nome de reumatismo, o pensamento mitológico encarregou-se de transformar a palavra reumatismo na própria doença. Assim, naquele momento da evolução do pensamento humano, reumatismo passou a significar o mesmo que doença, qualquer doença, de qualquer órgão e de qualquer origem. Dessa maneira, para quem não havia sido ferido, só havia duas possibilidades: ou a pessoa tinha saúde ou tinha reumatismo.
Nesse momento, pode parecer difícil conceber como o significado da palavra "reumatismo" mudou ao longo dos séculos para chegar ao que é divulgado hoje através dos dicionários e enciclopédias, e das sociedades científicas de reumatologia. Mas é o que os mitos fazem, resistindo a ser destruídos. Adaptam-se, escondem-se nas sutilezas da linguagem e continuam aterrorizando o homem ignorante.
No próximo artigo, "O mito reumatismo - parte II", mostrarei como o que era para ser desequilíbrio entre reumas transformou-se nas doenças que isso causaria e, insinuando-se na linguagem da ciência, persistiu ao longo dos séculos, mesmo após inúmeras tentativas de esclarecimento.

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