sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O MITO REUMATISMO - PARTE II

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

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http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Até o século I DC, quando alguém adoecia, a explicação provável que recebia do médico sobre a origem da doença era: "Isso é causado por desequilíbrio nas reumas do corpo".
Provavelmente então a pessoa perguntava curiosa: "O que é isso?"
E o médico explicava: "É o desequilíbrio entre as representações corporais do fogo, da terra, da água e do ar".
Quando Dioscórides criou a palavra "reumatismo", no século I, a explicação ficou mais simples. Sem precisar referir-se a desequilíbrio nas reumas, o médico podia dizer simplesmente: "Isso é reumatismo".
Esse jogo de palavras e encenação seria ridículo nos dias de hoje, mas na era pré-científica, discussões como essa, baseada apenas em palavras que não descrevem fatos (reumas e depois reumatismo) e crenças (primeiro que o desequilíbrio deixava as pessoas doentes e depois que o desequilíbrio era o próprio reumatismo), eram aceitas pelo povo porque estavam fundamentadas na autoridade absoluta que o médico tinha nas questões de saúde e doença.
Nos dias de hoje o papel do médico mudou; a autoridade e o reconhecimento de que desfruta também, mas é impressionante como a explicação "isso é reumatismo" sobrevive.
Na época pré-científica, não havia necessidade de comprovação laboratorial ou experimental para o estabelecimento de fatos. Bastava alguma autoridade formular uma idéia e isso obter a aceitação popular para que uma verdade fosse criada.
Depois de criada uma verdade desse tipo, os séculos de aceitação da idéia formulada pela imaginação da autoridade, reforçada todas as vezes em que a palavra que a representava era usada, influenciaram a percepção da realidade pela mente humana.
Guiado pelo pensamento mitológico, o entendimento popular transformou a palavra (reumatismo) gradativamente no fato (doença) que a idéia original (desequilíbrio em reumas) pretendia explicar. A falta de conhecimento científico fez com que os médicos da época aceitassem e difundissem a mesma explicação.
A partir daí, a idéia original do desequilíbrio em reumas, dissipada pelo tempo, podia simplesmente desaparecer ou subsistir como curiosidade histórica. O mito reumatismo, consolidado e alimentado pela ignorância, persistiria no pensamento popular.
É curioso como, com o passar do tempo, idéias abstratas sempre ganham novos entendimentos e são modificadas de acordo com a evolução do pensamento. A idéia original de fogo, terra, água e ar representados diretamente por quatro reumas (sangue, catarro, bile amarela e bile escura) foi refinada para incluir quatro estados corporais (frio, quente, seco e úmido) que se combinariam para caracterizar os líquidos corporais ou humores (a mesma coisa que reumas). Segundo essa noção, o sangue por exemplo seria quente e úmido. Dessa forma, a concepção original de desequilíbrio foi levemente modificada de maneira a permitir intervenções destinadas ao tratamento de doenças.
Por exemplo, pela lógica, o excesso de calor corporal deveria ser combatido com o frio; o frio com o calor, o seco com o úmido e assim por diante. Outra maneira de tratar seria remover o excessso da reuma que estivesse causando a alteração corporal, o que se conseguiria através de sangrias, eméticos, lavagens e drenagens, ou, no caso de falta de alguma reuma, através da reposição. Tais intervenções, destinadas a modificar os estados corporais, baseadas na crença de restabelecer o suposto equilíbrio entre as reumas, foram desenvolvidas a partir da lógica pura aplicada a noções criadas mitologicamente. E, por incrível que pareça, em alguns casos até funcionaram.
A sangria, por exemplo, que foi desenvolvida com a idéia mitológica de diminuir o excesso da reuma sangue, mostrou-se uma forma eficaz de diminuir o "volume circulante" (conceito científico para o volume contido na circulação em determinado momento), intervenção útil no tratamento de situações gravíssimas como o edema agudo de pulmão. Modernamente descobriu-se que para diminuir o volume circulante não é preciso retirar o sangue, basta diminuir a água corporal, pois 60% do sangue é apenas água. Assim, a sangria mitológica foi substituída pelo uso científico de diuréticos, medicamentos capazes de eliminar rapidamente a água do corpo.
Os defensores do pensamento mitológico podem alegar que a sangria foi um exemplo de acerto da idéia de diminuir a quantidade de reumas como forma de tratamento, pois deu resultado mesmo com a ignorância de conceitos básicos como circulação, composição do sangue e volume circulante. Argumentos desse tipo revelam apenas tolerância para com os mitos que a mim parece suspeita. O fato de sangria diminuir o volume circulante não significa que diminua uma quantidade de reuma em desequilíbrio, exceto para os apegados aos mitos.
Quando uma ação (sangria, por exemplo) baseada em uma formulação teórica (desequilíbrio em reumas) funciona, o pensamento mitológico leva a pessoa a acreditar que a noção teórica está correta. Isso cria uma crença.
Mas o pensamento científico não é esse. O pensamento científico ensina que se uma ação baseada em uma formulação teórica não funciona, a teoria está errada. O que se deve utilizar para julgar a concepção de excesso de reumas não são os sucessos da sangria, mas os fracassos.
A diferença pode parecer pequena, mas enquanto no primeiro caso reforçam-se as crenças, no segundo elas são destruídas. Destruindo crenças, aproximamo-nos da realidade - ou da verdade, como queira, pois segundo a filosofia da ciência, não poderemos jamais conhecer totalmente a realidade. (Essa é outra questão, mas pertence às discussões filosóficas, portanto não será aprofundada).
Cientificamente, admite-se que observações favoráveis a uma teoria não podem confirmá-la, o que significa dizer que, para a ciência, uma teoria nunca pode ser confirmada. Ela é apenas aceita, sem crenças, enquanto as observações continuarem a ocorrer segundo o que a teoria prevê. Cientificamente, uma teoria só pode ser refutada, se ocorrem observações contrárias ao que seria previsto por ela. E no caso da sangria, na maioria das vezes em que era aplicada, os doentes morriam.
Mitos e teorias são explicações verbais para a realidade. Mas enquanto os mitos são considerados infalíveis e exatos, as teorias científicas são formulações imprecisas, que devem ser submetidas a experiências que tentem refutá-las. O mito é arrogante e se imagina sempre como verdade infalível; a ciência é humilde, pois sabe que desconhece mas procura conhecer. Os cientistas, entretanto, por serem humanos, podem ser arrogantes e julgarem-se infalíveis. Eles também sofrem os efeitos do pensamento mitológico.
O pensamento mitológico é inerente ao ser humano, pois serve como tentativa de controle da realidade. A incerteza sobre os acontecimentos naturais causa angústia e sofrimento, mas ter certeza sobre algo é tranquilizador. Diante de um acontecimento natural jamais observado antes, entre a explicação científica "ninguém sabe porque isso acontece" e a mitológica "isso é causado pelo fantasma do gostoche", a segunda rapidamente ganharia milhões de adeptos. Baseada somente na imaginação, a explicação mitológica imediatamente estabelece o agente causal, eliminando a incerteza, que passa a ser substituída pela crença, e sugere caminhos para intervir no acontecimento. A humanidade não poderia esperar mais das palavras.
Por outro lado, o pensamento científico começaria lentamente o trabalho de coletar evidências físicas sobre o acontecimento, formular experiências para refutar as explicações possíveis, reformular as explicações de acordo com as provas obtidas e gradativamente aproximar-se da explicação mais provável para o fenômeno. Um trabalho lento e metódico, de anos.
Enquanto isso, o pensamento mitológico já teria desenhado o fantasma do gostoche, dando-lhe uma forma visível que estaria sendo comercializada, orações variadas já teriam sido criadas para acalmar ou devolver o fantasma ao lugar de onde nunca deveria ter saído, poções contra ele já estariam sendo vendidas e muita gente estaria ganhando dinheiro com o mito.
Enquanto o pensamento mitológico sempre existiu e sempre produziu imediatamente os seus efeitos sobre as pessoas, a noção científica para explicar os acontecimentos naturais começou a ser desenvolvida somente no século XVI, na época do Renascimento, e só muito lentamente estabeleceu suas verdades.
Galileu, por volta de 1590, formulou a que é considerada a primeira lei científica sobre a matéria: "no vácuo, todos os corpos caem com igual velocidade", que introduziu as primeiras idéias científicas sobre a atração gravitacional e a resistência oferecida pelo ar à queda dos corpos. Se considerarmos que até então vigorava a máxima aristotélica que dizia apenas que "os corpos mais pesados caem mais rápido", uma observação de senso comum e sem valor científico, podemos avaliar o alcance da observação feita por Galileu.
Na medicina, Vesálio, que publicou De humana corporis em 1543, divulgou a base para o aprendizado científico essencial para a prática da medicina: o estudo da anatomia. Foi perseguido pelos discípulos de Galeno, que não admitiam contestação das idéias mitológicas que vigoravam desde a Idade Média, e teve que se retirar da universidade onde ensinava, passando a exercer a medicina sob a proteção de um monarca.
Foi Harvey, em 1616, quem descreveu o primeiro conhecimento realmente científico da medicina - "a circulação do sangue é contínua e se faz sempre na mesma direção" - destruindo o mito de Galeno, que já durava mil anos, que atribuía a passagem do sangue do lado direito para o esquerdo do coração à existência de poros invisíveis entre os dois lados.
Embora sobrevivessem milênios às custas da ignorância e da autoridade, os mitos sempre tiveram que enfrentar descrédito e crítica. O avanço da ciência destrói mitos com menos alarde, mas a crítica tem um papel diferente, pois ao tentar combater as crenças, gera reações violentas.
O sucesso relativo das intervenções da medicina humoral, como sangrias, catárticos, laxantes e enemas serviu de base para o desenvolvimento da medicina intervencionista, em que atos médicos são destinados a corrigir estados corporais a partir de concepções teóricas. Mas as consequências negativas da idéia de desequilíbrio em reumas e de reumatismo foram maiores e perduraram por séculos.
No século XVII, o teatrólogo francês Molière usou em suas peças o tema da medicina humoral e os grotescos procedimentos curativos de então para ridiculizar como charlatães, ignorantes, idiotas e incompetentes as pessoas que a praticavam. Nos dias de hoje, precisamos de outro Molière para desmascarar os diagnosticadores de "reumatismo no sangue", os prescritores de injeções de penicilina para o tratamento da dor, os comercializadores de fórmulas para "reumatismo", e os que indiretamente dão apoio a tudo isso, ao defender a base dessa picaretagem - o mito reumatismo.
Na próxima parte - O mito reumatismo - Parte III - mostrarei como o mito sobreviveu aos avanços da medicina científica, chegando mesmo revigorado aos dias de hoje, a ponto de ser alardeado na campanha de divulgação "Reumatismo é coisa séria", da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

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3 comentários:

lol disse...

O mito reumatismo - Parte III
onde?

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

lol:
Ainda não chegou o momento de publicar a terceira parte.
Provavelmente será o último post publicado no blog, encerrando a campanha de esclarecimento a respeito do mito "reumatismo".

Mônica Araújo disse...

Caro Dr. Claudio, bom dia.

Conheci o senhor através de um grupo que participo no FB e aí através do seu blog resolvi tomar a liberdade de contar a minha história.
Sou mãe de um adolescente portador de EIJ, ele tem esse HBL 27 negativo e não temos em nossa família nenhum histórico desse tipo de doença.

Meu filho desde muito pequeno apresentava febres altíssimas e sempre eram consideradas como algum vírus, aos 10 anos ele apresentou dores na perna.
Levamos ao ortopedista que não detectou nada e nos mandou a um neurologista que fez vários exames e me falou que meu filho tinha uma doença degenerativa muscular e que era progressiva e aos poucos enfraquecia os músculos do coração e diafragma e que não passaria da adolescência.

Conheci um caso de pessoa com esse tipo de problema e, infelizmente, surtei e neguei tudo que o médico havia falado.

Sempre observava meu filho que crescia, mas apresentava de vez em quando algumas dores que vinham e iam embora.

Um dia, depois de anos, como um milagre, Deus me sacudiu e clareou minha mente e resolvi retomar a pesquisa. Encontrei alguém que me indicou a Rede Sarah e fui lá e o médico de cara suspeitou de EA, falando que era uma doença congênita que muitas vezes era Hereditária e também me falou que poderia ser adquirida na primeira infância.

Infelizmente, para mim e para meu filho, quando ele tinha aproximadamente 2 anos apareceu umas berebinhas em torno de suas narinas e eu usei nele o dermatop. E que vivam a voltar e que depois uma amiga me falou que era estafilococos e que cuidava de outra maneira. Eu subestimei o inimigo....

Hoje, meu filho tem 15 anos e sacroileíte bilateral. Faz tratamento a 1 ano e 8 meses.

Ele se trata no Instituto da Criança do HC de SP e toma 150 mg de indocid diariamente e 8 cp de mtx por semana. E vinha muito bem no tratamento. Em fev/11 fez uma RM que deu normal. Ficamos muito felizes. E a partir daí meu filho começou a jogar futebol todo final de semana.

No final do ano (dez/11) fizemos nova RM que deu novamente sacroileite agudizada do lado direito, foi uma ducha de água fria. Agora anda sentindo alguns incomodos nas costelas e também no pescoço, apesar de não ter tido nem febre, nem inchaço.

Bom, contei nossa estória pois me pareceu que o senhor é um estudioso do assunto. Concordo plenamente quando o senhor diz que precisa desmistificar o reumatismo e que o público em geral saiba verdadeiramente do que um Reumatologista cuida. Outra problema grave são esses remédios que são de uso curriqueiro e são verdadeiras bombas de ação retardada. Eu, infelizmente, aprendi a duras penas o efeito delas.


Um abraço sincero,
Uma mãe.