domingo, 14 de dezembro de 2008

O EXAME MAIS IMPORTANTE EM REUMATOLOGIA

 

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

 Contém capítulos especiais sobre exames em Reumatologia:

ASLO, ÁCIDO ÚRICO, FAN, FATOR REUMATÓIDE 




Quando alguém que sente dor nas articulações, nos ossos, nos músculos ou na coluna procura atendimento médico, é comum ouvir alguma afirmação do tipo "vou solicitar alguns exames para ver se é reumatismo". Digo isso porque muitas pessoas vêm consultar comigo pedindo para "fazer exames para reumatismo". Se elas dizem isso, já ouviram essa conversa em algum lugar. Não foi comigo, pois não solicito "exames para ver se é reumatismo" simplesmente porque reumatismo não é uma doença e portanto não existem exames que mostrem que "é reumatismo".
Mas a picaretagem corriqueira praticada com "exames para reumatismo", "diagnóstico de reumatismo" e "tratamento para reumatismo" é endêmica em nosso país. Por isso, vou abordar a questão do exame mais importante para o diagnóstico de qualquer doença que cause dor nas articulações, nos ossos, nos músculos ou na coluna, para tentar desmitificar os tais "exames para ver se é reumatismo".
De tanto ouvirem falar em "exames para reumatismo" as pessoas leigas continuam na ignorância a respeito do que é a reumatologia e do que faz o reumatologista. Muitos pensam que reumatologia se resume em "pedir exames para ver se é reumatismo" e passar o "tratamento para reumatismo" se algum resultado estiver alterado.
Os exames usados pelos que dizem que "é reumatismo" são: VHS (velocidade de hemossedimentação), Proteína C reativa, ASLO (anti-estrptolisina O), fator reumatóide e FAN (fator antinuclear). Mas cientificamente nenhum desses exames, quando positivo ou aumentado, significa que alguém "tem reumatismo".
Em reumatologia, o exame mais importante para o diagnóstico é o exame... físico.
Exame físico é o exame que o reumatologista faz das articulações, dos ossos, dos músculos, da coluna e dos locais doloridos para identificar a parte do corpo afetada pela doença e as características físicas que estejam presentes no local doente.
Por exemplo, quando alguém sente dor no joelho, isso pode parecer algo bem simples, mas para o reumatologista "dor no joelho" tem muitos significados.
Em primeiro lugar, a dor "no joelho" pode ser na frente, atrás, do lado de dentro (o que fica ao lado do outro joelho - o termo técnico é medial) ou do lado de fora do joelho (o termo técnico é lateral). Então, já podemos concluir que "dor no joelho" tem pelo menos 4 significados diferentes. A dor em cada um desses locais pode representar uma doença diferente, que pode se originar na articulação do joelho mas também pode não ter nada a ver com o joelho em si, e ter origem em outro local.
Em segundo lugar, se o local dolorido está inchado ou não, temos dois novos significados para "dor no joelho". Se o inchaço é quente ou não são mais dois; se o local fica vermelho ou não, são mais dois; se o inchaço é duro ou mole, são mais dois. E assim por diante, pois há muitas características que só o exame físico pode revelar.
Cada uma das combinações possíveis de achados físicos sugere uma doença diferente. A maioria das doenças podem ser diagnosticadas ao exame físico, mas algumas precisam de exames de sangue e de imagem (raios-X, ultrassonografia, tomografia, ressonância magnética) para o diagnóstico.
Quem diz que alguém que sente dor no joelho e tem VHS aumentado ou proteína C reativa positiva "tem reumatismo" está atestando a própria ignorância e marcando a pessoa doente com um estigma desnecessário.
Quem diz que alguém que sente dor no joelho e tem ASLO aumentada "tem reumatismo" está atestando a própria ignorância e marcando a pessoa doente com um estigma desnecessário.
Quem diz que alguém que sente dor no joelho e tem fator reumatóide positivo "tem reumatismo" está atestando a própria ignorância e marcando a pessoa doente com um estigma desnecessário.
Quem diz que alguém que sente dor no joelho e tem FAN positivo "tem reumatismo" está atestando a própria ignorância e marcando a pessoa doente com um estigma desnecessário.
A mesma afirmação é válida para a dor sentida nas mãos, nos braços, nos ombros, no pescoço, nas costas, no quadril, na coxa, na perna, no pé, no peito, no abdome, no rosto, na cabeça, em qualquer lugar do corpo, isolada ou em conjunto com outras dores, ocorrendo somente como dor musculo-esquelética ou acompanhada de sintomas produzidos pelos órgãos internos, como o coração, o fígado, o cérebro, os rins, os pulmões, o intestino, etc.
Em qualquer situação, o diagnóstico nunca "é reumatismo" e nunca será dado por VHS, proteína C reativa, ASLO, FAN ou fator reumatóide.
O principal exame para diagnóstico é o exame físico e antes do resultado do exame físico, os resultados de VHS, proteína C reativa, fator reumatóide, ASLO e FAN não têm importância nenhuma e, dependendo dos resultados do exame físico, podem ou não ser solicitados porque podem ou não ser úteis para o diagnóstico.
Para fazer o diagnóstico, o reumatologista combina os dados da história que a pessoa doente conta sobre o que sente com os dados que estão presentes ao exame físico. Em 90% das vezes, o diagnóstico estará feito ao término do exame físico. Depois disso, o reumatologista pode ou não solicitar exames para confirmação do diagnóstico ou para esclarecimento de alguma dúvida que ainda possa ter.
Se exames forem solicitados, a pessoa culta e consciente deveria evitar de perguntar ao especialista se "foram solicitados exames para ver se é reumatismo", simplesmente porque não existem exames cujos resultados alterados, positivos ou aumentados signifiquem reumatismo.
Os que usam a expressão "exames para reumatismo" para se comunicar com as pessoas doentes estão apenas tentando preservar a todo custo a crença no mito reumatismo, que como todo mito, serve apenas de substituto para a ignorância.



203 comentários:

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Danielle Milene disse...

Dr. Luis Cláudio, boa noite! Li alguns dos seus artigos e gostei muito das informações, do seu profissionalismo e modo de avaliar o paciente; por isso resolvi lhe perguntar, uma vez que todos os médicos que procurei até hoje não puderam resolver ou me ajudar a entender meu problema. Aos 17 anos comecei a sentir dores nos dois joelhos. Não caí, não sofri nenhum tipo de lesão, não foi diagnosticado nada em exames que fiz, desde raio-X à RNM. Desde então, especialmente em dias mais frios sinto essa mesma dor. Tenho a temperatura corporal mais elevada e sempre achei isso estranho... é só o que sinto além da dor (sinto isso por mim mesma e porque todas as pessoas sempre comentam isso... até mesmo num abraço as pessoas pensam que estou sempre ''com febre'' entende...). Hoje estou com 34 anos e até eventualmente sinto as dores e como nenhum médico soube diagnosticar meu problema acabei me acomodando e aceitando conviver com a dor. Quando a sinto, não tomo nenhuma medicação, apenas vou deitar sentindo e ao amanhecer percebo que as dores passaram... alguns dias depois, a mesma rotina... Com seus artigos me interessei novamente pelo problema e indagar se existe alguma patologia possível relacionada a estes sintomas. Pratico esportes normalmente, não corro, mas faço musculação sob orientação médica além de bicicleta; fiz reeducação alimentar e me considero saudável, fora este problema. Se morasse próximo faria questão de uma consulta com o senhor, mas moro na região norte. Por favor me ajude a entender o que acontece. Sei que apenas via internet é muito difícil diagnosticar algo, mas o que o senhor puder me ajudar a entender o que se passa, agradeceria imensamente, pois desde os 17 já fui em 8 médicos e ninguém soube me ajudar. Aguardo e agradeço!

Danielle Milene.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Ana:
Você não precisa consultar um reumatologista por "problemas com garganta inflamada na infância" - todas as crianças têm isso e, no adulto que sente dor nas pernas, a informação é inútil.
Mas dor nas pernas é uma queixa que deve ser avaliada por reumatologistas. As pessoas com dor nas pernas pensam logo em vascular, e ortopedia, mas não associam dor nas pernas com reumatologia.
Com reumatologia, a única associação que fazem é com reumatismo ou problema reumatológico ou problema reumático... expressōes que significam a mesma coisa: nada!
A associação que deve ser feita para a primeira consulta com um reumatologista é dor nas articulaçōes, nos ossos, nos músculos e na coluna. Isso inclui das nas pernas, nas costas, nos quadris, nos braços, no pescoço, etc. Sabendo disso, fica claro que não é preciso consultar um reumatologista por "ter em mente algum problema reumatológico" - isso não existe, mas dor nas pernas sim, é um motivo para consultar um reumatologista.
Sobre um "problema reumatológico", leia o artigo UMA DOENÇA "REUMATOLÓGICA"?

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Danielle:
Não posso lhe dar um diagnóstico, apenas orientações gerais que podem ajudar a entender o caso.
Se tem dores desde os 17 anos, a duração permite classificar a dor como crônica, independentemente da causa. Dor crônica não é um diagnóstico, mas permite entender muitos dos sintomas que a acompanham, como a piora com a variação clímática (o frio principalmente, mas também o calor, em algumas pessoas). Além disso, dor crônica causa fadiga e distúrbios do sono, podendo levar ao desenvolvimento de depressão e fibromialgia, que podem ser tratadas adequadamente.
Pelo que entendi, você vem lidando bem com o problema, praticando exercícios regularmente, que é uma medida essencial para o controle da dor crônica ("controle" não significa ˜desaparecimento").
Sugiro que consulte um reumatologista para avaliar o seu caso e faça acompanhamento regular com o profissional que escolher.

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