domingo, 29 de março de 2009

REUMATOLOGISTAS E REUMATISMO - UM ERRO DE IDENTIFICAÇÃO

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Nesta semana, um leitor do blog postou um comentário dizendo ter ficado surpreso quando o reumatologista com quem se trata disse que era "reumatismo no sangue" a doença que ele tinha. Respondi dizendo que isso não me surpreendia.
De fato, podemos dizer que atualmente há pelo menos três comportamentos diferentes dos reumatologistas em relação a "reumatismo":

1. A maioria dos reumatologistas, que representam a opinião oficial da especialidade sobre o assunto, defende e usa a palavra "reumatismo". Eles consideram que "um reumatismo" é sinônimo de "uma doença reumática", repetindo o que é ensinado através da classificação de doenças reumáticas criada pelo American College of Rheumatology (Colégio Americano de Reumatologia). No Brasil, a Sociedade Brasileira de Reumatologia defende a mesma classificação e repete as mesmas ideias. Já disse anteriormente neste blog que a população brasileira, que nem sabe que existe um Colégio Americano de Reumatologia e uma classificação de doenças reumáticas, usa a expressão "reumatismo" no sentido mitológico. Essa diferença entre o pensamento da sociedade oficial dos reumatologistas e o pensamento popular é a causa dos problemas de comunicação decorrentes da crença em "reumatismo". Sem reconhecer o problema de comunicação, as sociedades oficiais de reumatologistas de todos os países repetem, há mais de 50 anos, campanhas de esclarecimento em que tentam convencer a sociedade leiga de que "reumatismos são mais de cem doenças", de que "há mais de cem doenças que são chamadas de reumatismo", etc. (Leia Reumatismo no Brasil – Um problema de comunicação, o post inicial deste blog, para mais detalhes sobre esse raciocínio).

2. Outros reumatologistas, cientes de que a palavra "reumatismo" é inadequada para representar as "doenças reumáticas", pretendem usar esta expressão – doenças reumáticas – no lugar de "reumatismo", mas assumem uma posição ambígua, querendo que a população entenda que o correto é dizer "doença reumática" e não "reumatismo". Como ninguém exceto eles consegue entender a diferença, isso gera outro problema de comunicação causado pela crença - e, nesse caso, também pela descrença - em "reumatismo".

3. Poucos reumatologistas, como eu, acreditam que o único significado de "reumatismo" que deve ser reconhecido é o que a população lhe atribui e, nesse sentido, "reumatismo" não é somente uma expressão antiquada e incorreta, não é uma nem mais de cem doenças, é apenas um mito popular sobre as doenças que causam dor nas articulações, nos ossos, nos músculos e na coluna.


Ao reconhecer "reumatismo" como um mito popular, fica evidente que deve ser eliminado da linguagem científica.

Um mito é apenas uma palavra que representa ideias variadas, que não podem ser comprovadas cientificamente. É a palavra o que sustenta o mito e cada vez que ela é usada, renova e consolida mais ainda a posição do mito. Por isso o mito "reumatismo" tem mais de 2000 anos: porque as pessoas usam a palavra que o representa e acreditam no que ela possa significar, mesmo que cada um atribua-lhe um significado diferente.
Na linguagem científica, ao contrário, as palavras são escolhidas pela precisão - cada uma deve ter um significado específico, que seja igual para todos os que a usam.
Para eliminar o mito da linguagem científica será preciso eliminar também todas as palavras a ele relacionadas, como reumático, reumatóide, reumatologia e reumatologista. Estas palavras remetem o pensamento popular ao mito "reumatismo" e, em vez de esclarecer, confundem ainda mais o raciocínio, reforçando a posição do mito.

Evidentemente que uma proposição nesse sentido encontra resistência nos meios oficiais, pois desmascara vícios seculares de linguagem e de pensamento que as sociedades oficiais se recusam a admitir que estão cometendo.
Entretanto, a confusão atual está comprovada nas páginas deste blog, através dos relatos das pessoas que são enganadas com a palavra "reumatismo" e a expressão a ela relacionada "reumatismo no sangue". Ao recusar-se a enfrentar a verdadeira causa desse problema de comunicação – a crença no mito "reumatismo" – as sociedades da especialidade estão contribuindo para a manutenção da confusão.

De minha parte, resolvi enfrentar o mito denunciando-o e divulgando conhecimento científico para a população. Sempre recomendo às pessoas que apresentam dúvidas no blog que consultem um reumatologista registrado no Conselho Regional de Medicina do estado onde vivem, mesmo sabendo que eventualmente isso as levará a ouvir afirmações a respeito de "reumatismo" e até mesmo de "reumatismo no sangue" por parte de alguns desses especialistas. Esses deslizes que alguns cometem, ao se deixarem levar pelos vícios da linguagem e do pensamento, recorrerendo ao uso de "reumatismo" e de "reumatismo no sangue" como explicação para doenças, espero que sejam corrigidos pela atuação da população consciente, que não aceite mais esse tipo de linguagem mitológica como explicação.

Apesar dos problemas de comunicação que possam ocorrer entre as pessoas doentes e alguns reumatologistas, o reumatologista é o especialista que diagnostica as doenças que causam dor musculo-esquelética - e em geral faz isso solicitando menos exames do que outros especialistas, o que representa economia para as pessoas doentes.
Também é o reumatologista que faz o tratamento medicamentoso das doenças que causam dor musculo-esquelética, e em geral faz isso usando medicamentos da maneira mais racional, científica e econômica possível, o que se traduz, ao longo do tempo, por melhores resultados e menor custo de tratamento. Por isso, as divergências de posições entre os reumatologistas a respeito de como lidar com o mito "reumatismo" não devem ser o motivo de maior preocupação da população.

Para a população, a maior preocupação deve ser com os médicos que não são reumatologistas e os picaretas que não são médicos, aqueles que usam o mito "reumatismo" sem conhecimento técnico das doenças que infelizmente as sociedades de reumatologistas querem explicar através do mito. Esses oportunistas apenas exploram economicamente a crença e a boa-fé da população leiga.

Em 1999, tive um artigo publicado na Revista Brasileira de Reumatologia, em que apresentei as primeiras ideias a respeito de "reumatismo" como mito e tentei convencer os especialistas da inadequação do caminho de divulgação que a especialidade vinha escolhendo desde a década de 50. Fui sumariamente ignorado e acusado de querer apenas mudar o nome da especialidade, quando queria apenas combater o mito "reumatismo". Reconheço que, naquele momento, falhei no propósito de desmascarar o mito, mas pelo menos fiquei conhecendo com clareza a posição da maioria da classe em relação ao problema. Por isso não me surpreende que alguns especialistas ainda usem explicações baseadas em "reumatismo" e até mesmo "reumatismo no sangue". Mas quem procura esclarecimento, não tem compromisso com tradições ou posições oficiais; quem procura conhecimento está apenas à procura da verdade.

No passado, muitos pensadores e médicos ja tentaram desmascarar o mito "reumatismo" para eliminá-lo da ciência, mas o mito tem prevalecido. Já que sempre há mais gente falando no mito do que nas correções de pensamento que são propostas, isso tem favorecido o mito. Nos dias atuais, entretanto, a Internet pode mudar essa situação, pois propicia um canal de comunicação inigualável e uma oportunidade sem precedentes para destruir o mito (é estranho falar em destruir o que não é material e é tão abstrato como uma ideia indefinida).

Para destruir mitos, é preciso revelá-los e expô-los ao reconhecimento de todos. Expostos, não podem mais se esconder na ignorância que os suporta.

Sabendo disso, os defensores do mito já o espalharam pela rede, oferecendo explicações sem base científica para "reumatismo", "reumatismo no sangue" e outras bobagens relacionadas, tentando consolidá-lo também nesse meio de comunicação.

Em junho de 2008, comecei neste blog o trabalho de divulgação que confronta as mentiras relacionadas ao mito "reumatismo" na Internet.
Contando com o discernimento e a boa vontade dos leitores simpatizantes para disseminar a informação, tenho esperança de que o entendimento científico da dor musculo-esquelética pode se tornar mais simples e mais fácil.

Vale a pena lutar por isso? Acredito que sim. Desmascarar o mito "reumatismo" é a atitude definitiva para facilitar o entendimento das doenças que causam dor musculo-esquelética. Essas doenças nunca são "reumatismo".

Só o tempo dirá se o mito e a ignorância irão prevalecer também nesse confronto.

-->

Nenhum comentário: