domingo, 12 de abril de 2009

TRATANDO ASLO - PARTE 2





Nesta semana, uma leitora do blog enviou-me por e-mail uma dúvida a respeito de um tratamento que recebeu para queda de cabelo.
Disse ela que, ao consultar um dermatologista por apresentar queda acentuada de cabelos, foi-lhe solicitado que fizesse alguns exames de sangue, entre eles a dosagem de ASLO (antiestreptolisina O).
Os resultados de todos os exames foram normais, exceto o ASLO, que estava em 330 (no laboratório em questão o valor normal era até 200, portanto o resultado do exame estava aumentado).
Ao ver o resultado, o profissional que a atendeu prontamente "diagnosticou reumatismo" (leia Reumatismo não é um diagnóstico) e receitou injeções de penicilina para serem tomadas a cada 21 dias, dizendo que em 3 meses ela veria melhora na queda de cabelos, e orientou-a a repetir o exame após 6 meses.

Para entender porque esse "diagnóstico" e o respectivo tratamento que foi prescrito não são científicos, leia também o artigo Tratando ASLO.

Quando chamo essa forma de picaretagem de TRATANDO ASLO, estou sendo irônico e expressando minha insatisfação com coisas desse tipo.
Entretanto, ser irônico tem algumas desvantagens na comunicação. Se a pessoa que recebe a mensagem não entender a ironia, poderá acreditar que "tratar ASLO" é uma forma válida de tratamento médico.
Não é. "Tratar ASLO" é fazer algo por fazer, sem conhecimento técnico do que está sendo feito.
Quem trata ASLO não sabe interpretar o resultado do exame e não sabe para que serve o tratamento periódico com injeções de penicilina (1).
Mas quem "trata ASLO" sabe que a figura do médico tem autoridade natural sobre as pessoas (embora hoje menos do que antigamente), sabe que as pessoas não irão questionar o tratamento proposto, sabe que as pessoas depositam esperança em tudo o que o médico recomenda, e aposta que, com o tempo, a maioria dos pequenos problemas de saúde se resolverão espontaneamente.

Pois bem, a leitora continua explicando que, ao se dirigir a uma unidade de saúde para receber a injeção, o médico que a atendeu perguntou o motivo do tratamento e, ao ouvir a explicação sobre o exame alterado, transmitiu-lhe a orientação correta a respeito do significado do ASLO aumentado, esclarecendo que o exame não significava que ela tinha "reumatismo".
Segundo suas próprias palavras no e-mail, a leitora achou isso "intrigante", disse que, naquele momento, ficou com dúvidas sobre o tratamento e pensou se deveria procurar outro médico mas, apesar disso, tomou a primeira injeção.
Após ter apresentado algumas das reações desagradáveis comuns a esse tipo de injeção, ficou receosa de continuar com o "tratamento" e resolveu procurar informações sobre o assunto.

Quero voltar ao momento em que a leitora ouviu a informação correta a respeito do significado do ASLO aumentado - ASLO aumentado não significa "reumatismo" - e mesmo assim decidiu usar a injeção que o outro profissional havia recomendado.
Essa situação expõe o tipo de conflito causado pelo choque entre informações diferentes.

Enquanto um profissional recomenda um tratamento qualquer (todo tratamento, mesmo sem base científica, sempre vem acompanhado da sugestão de cura e cria a esperança de que isso aconteça) o outro recomenda nada fazer (o que à primeira vista significa apenas deixar as coisas como estão).
Entre as duas opções, fazer algo que promete a cura e nada fazer, é fácil entender porque as pessoas escolhem a primeira.
Mas escolher um tratamento apenas por esperança nada tem a ver com medicina e ciência. Tem a ver com os medos e aspirações mais simples do ser humano e revela que somos prisioneiros das nossas emoções mais primitivas.

Entretanto, a recomendação para não "tratar ASLO" não significa apenas "deixar as coisas como estão".
Quando uma pessoa é enredada nas teias da picaretagem do tratamento para ASLO, ela deixa de ser racional e passa a ser guiada pela esperança que deposita no "tratamento". Porém, o "tratamento" a que ela se submete não tem prova científica para o que está sendo proposto e por isso não deveria ser seguido.
Por outro lado, a informação correta está dizendo apenas que a justificativa usada para o "tratamento" era falsa; portanto, outra explicação deveria ser procurada para o problema em questão.
Nesse caso, tudo começou com a queda de cabelo e acabou com a iatrogenia (ver glossário abaixo) sobre "reumatismo", um resultado claro da ignorância médica.
A orientação correta para não "tratar ASLO" não significa "não faça nada", significa apenas "procure ouvir outra opinião a respeito da queda de cabelo".
Se a razão prevalecer sobre a ignorância, qualquer um verá que esse é o único caminho a ser seguido.


1. As pessoas que utilizam o tratamento periódico com injeções de penicilina a cada 21 dias para prevenção das doenças autoimunes causadas por estreptococo não devem pensar que o exposto acima se aplica a elas. Para a prevenção das doenças autoimunes causadas por estreptococo, o tratamento periódico com injeções de penicilina é científico e eficaz e deve ser mantido pelo tempo necessário. Isso não é "tratar ASLO". "Tratar ASLO" é uma forma de picaretagem em que, sem saber interpretar o resultado do exame, o profissional recomenda o uso periódico de injeções de penicilina, sem saber para que isso serve.


GLOSSÁRIO:

"Iatrogenia"
refere-se a um estado de doença, efeitos adversos ou complicações causadas por ou resultantes do tratamento médico. Contudo, o termo deriva do grego iatros (médico, curandeiro) e genia (origem, causa), pelo que pode aplicar-se tanto a efeitos bons ou maus. Em farmacologia, o termo iatrogenia refere-se a doenças ou alterações patológicas criadas por efeitos colaterais dos medicamentos. Do ponto de vista sociológico, a iatrogenia pode ser clínica, social ou cultural. Embora seja usada geralmente para se referir às consequências de ações danosas dos médicos, pode igualmente ser resultado das ações de outros profissionais, tais como psicólogos, terapeutas, enfermeiros, dentistas, etc. Além disso, doença ou morte iatrogênica não se restringe à medicina Ocidental: medicinas alternativas também podem ser uma fonte de iatrogenia, de acordo com a origem do termo. (Wikipedia - Iatrogenia)

O tratamento médico não se restringe à utilização de medicamentos ou à realização de intervenções cirúrgicas. As informações que o médico transmite à pessoa doente também são parte do tratamento. Portanto, os efeitos indesejáveis produzidos por essas informações também são uma forma de iatrogenia, que tem sido negligenciada nas discussões a respeito do assunto. (Nota do autor)



5 comentários:

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Esta é uma cópia do e-mail que motivou o artigo. Agradeço a Juliana por autorizar a sua publicação:

Boa tarde Dr. Luis Claudio,
Meu nome é Juliana, gostaria de receber uma orientação a respeito de um tratamento médico.
Eu procurei um Dermatologista pelo fato de eu estar tendo uma queda de cabelo fora do normal, o médico sem pedir exames, me passou um tratamento com uma loção, uma injeção e vitaminas.Passado o tempo em que eu teria resultados, voltei ao médico pois o tratamento não havia surtido efeito algum.Sendo assim, ele me pediu uma série de exames, entre eles exames específicos da tireóide, o Aslo, trocou a fórmula da loção capilar para manipulação e pediu pra que eu continuasse com as vitaminas.
Quando meus exames ficaram prontos, ele disse que não deu absolutamente nada nos outros exames, mas deu que eu estava com reumatismo! Eu assustei porque eu não tinha sintoma algum, e disse isso a ele.
O Aslo deu 330 e oo normal é 200, segundo o médico.Eu fiquei super preocupada e ele receitou 6 injeções de benzetacil a cada 21 dias e depois de 6 meses era pra eu repetir apenas o exame de Aslo.Eu questionei o que teria em comum o problema da minha queda de cabelo com esse resultado de exame e ele não me explicou, disse pra mim que em 3 meses eu teria resultado qto a minha queda de cabelo.
Só que o mais intrigante é que quando fui ao pronto socorro tomar a injeção, um médico me atendeu e perguntou o por quê tomar a benzetacil , então disse que o exame deu alterado do Aslo, mas ele disse que esse exame não prova que eu estou com reumatismo e prova apenas que eu tive uma forte infecção de garganta a uns dias anteriores e o mais engraçado é que quando fui fazer esse exame eu estava com infecção de garganta e estava fazendo tratamento com antibiótico e antinflamatório! e o médico disse pra mim o seguinte que qualquer pessoa que tivesse uma infecção como a minha se fizesse o exame , o resultado iria dar alterado! Depois disso eu fiquei com dúvidas com relação ao tratamento, se seria melhor eu procurar outro médico....
Eu raramente tenho infecções de garganta ou gripe, depois que comecei tomar a vacina contra gripe não tive mais .
E também tive outro problema, tomei a primeira injeção do tratamento e ela foi uma bomba, tive queda de pressão e passei muito mal, fora que fiquei com um nódulo roxo misturado com sangue e dor forte durante 2 semanas, fiz compressa de água quente, passei pomadas e massagem pra tentar dissolver.Após a injeção notei que venho tendo grande retenção de líquido, inchaço no corpo todo.Hoje eu teria que tomar a próxima injeção, mas antes vou buscar mais informação.Soube, de um outro remédio chamado Pen Ve oral, e queria saber se a benzetacil pode ser substituída por ele, caso eu tenha que continuar mesmo com esse tratamento!!
Obrigada.

prisci sweet disse...

Oi DR. estou c uma inflamaçao na garganta q sempre vem e volta e li o texto da mulher q o cabelo tava caindo o meu tb tá.. e fiz o exame do Aslo deu 400. O que pode ser ? Tem a ver mesmo a queda de cabelo? Grata .

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Prisci:
Nada a ver.
Infecção de garganta por estreptococo aumenta o ASLO, mas não causa queda de cabelo. São dois problemas diferentes.
Avaliação de queda de cabelos deve ser feita com um dermatologista.

naimartins disse...

Oi dr. fiz um exame essa semana e não entendo direito q queria q me explicasse é que no nucléolo deu reagente e o titulo deu 320 e em baixo tem padrão nucleolar homogêneo o que pode ser isso me explique tou apavorada ja nem como e nem durmo direito.. sera q pode ser lupos? mostrei um clinico geral e ele mandou fazer novos exames, mas disse q eu não tenho nada q isso não é lupos, e tbm não tenho nenhum sintomas de ''LUPOS'' POR FAVOR ME EXPLIQUE ALGUMA COISA SOBRE ISSO..

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Naimartins:
Leia COMO ENTENDER O RESULTADO POSITIVO DO FAN e também SOBRE OS PADRÕES DO FAN e NÃO É LUPUS ou PARA QUE SERVE O EXAME FAN.
Depois, consulte um reumatologista para saber se o exame que você fez tem alguma importância no seu caso.