domingo, 21 de junho de 2009

MEDICINA BASEADA EM "REUMATISMO"

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM





Em 1997, 6 meses apenas após haver terminado a especialização em reumatologia, eu já descobrira a existência do sistema de exploração da ignorância popular sustentado nesse país há décadas pela crença em "reumatismo".
Não é difícil perceber isso. Qualquer um que se disponha a comparar a realidade que encontra no exercício da profissão com o que é apregoado pela sociedade de especialistas através da teoria antiquada segundo a qual "reumatismos são mais de cem doenças" rapidamente percebe que a prática é bem diferente do discurso vazio. Mas mesmo sendo fácil perceber a existência do problema, é difícil tomar a decisão de combater esse estado de coisas. É mais fácil deixar tudo como está.
Mas em 1999, depois de muito refletir e sofrer com o assunto, tomei a decisão de enfrentar a situação.
Em primeiro lugar, escrevi o artigo "Reumatismos não existem". que foi publicado na edição de dezembro de 1999 da Revista Brasileira de Reumatologia.
Em seguida, também em dezembro, escrevi o artigo Rheumatism-based medicine um comentário rápido feito ao artigo, Seven alternatives to evidence based medicine, publicado no British Medical Journal, que criticou a prática médica de maneira sutil, irônica e divertida.
Naquele momento vi uma oportunidade para denunciar ao mundo a existência dessa prática inadmissível que conheci através das pessoas que, esperando continuar recebendo o mesmo tratamento a que estavam acostumadas, chegavam todos os dias nos locais onde eu atendia como reumatologista recém-formado.
Como muitos leitores não dominam a língua inglesa e como já citei o artigo Rheumatism-based medicine em alguns textos postados no blog, resolvi publicar a tradução para que todos possam ter acesso ao artigo.

O modelo de prática médica defendido atualmente é chamado de medicina baseada em evidências.
Segundo esse modelo, todo ato médico - seja obter a história do doente, fazer o exame físico, solicitar e interpretar exames laboratoriais, prescrever tratamentos medicamentosos ou intervenções cirúrgicas - deve ser escolhido baseado nas evidências científicas disponíveis.
As melhores evidências científicas sobre a prática médica são produzidas através de estudos clínicos controlados e os resultados publicados estão disponíveis nos livros, nas revistas científicas e na Internet.
O artigo Seven alternatives to evidence based medicine explorou com humor as possibilidades para o médico praticar a medicina quando não há evidências disponíveis, pois há assuntos que ainda não foram estudados e, nesses casos, não há evidência científica mostrando o que é melhor. Aproveitando a onda de comentários descontraídos e divertidos gerados pelo artigo, procurei criar um texto cômico e ao mesmo tempo trágico para expor a questão que me angustiava.

Tendo sido treinado no modelo científico de atendimento reumatológico, o contato com as crenças populares a respeito de "reumatismo no sangue", "exames para ver se é reumatismo" e "tratamentos para reumatismo", difundidas por médicos que me antecederam no ambiente em que me encontrava na época, foi, desde o princípio, revoltante para mim. Sem apoio da especialidade, precisei descobrir sozinho a maneira mais adequada às minhas convicções e exigências de caráter para lidar com o problema. Por isso decidi denunciar o mito "reumatismo" e a prática que explora a crença popular nesse mito.
A linguagem escolhida para apresentar o problema foi a sátira irônica, apesar de saber que essa linguagem é sempre perigosa, pois se o leitor não perceber a ironia, poderá entender erradamente que está sendo defendido o que na verdade é para ser combatido.
Mesmo assim, acredito que os leitores do blog não terão dificuldades para entender que "medicina baseada em reumatismo" é uma forma de picaretagem praticada por profissionais de formação universitária que deve ser combatida e evitada.


MEDICINA BASEADA EM "REUMATISMO"

No Brasil, muitos médicos descobriram uma maneira especialmente segura e fácil de praticar a medicina que podemos chamar de "medicina baseada em reumatismo'.
Nessa prática, o diagnóstico é muito simples: Uma pessoa com dor nas articulações sempre tem "reumatismo". Não há como errar. Na "medicina baseada em reumatismo", um paciente com dor nas articulações sempre tem e sempre terá "reumatismo".
Se fazer o diagnóstico é tão simples, assim também é o passo seguinte, ou seja, solicitar os exames hemograma, VHS, anticorpos antinucleares (FAN), fator reumatóide, células LE, antiestreptolisina O (ASLO), ácido úrico, eletroforese de proteínas, mucoproteínas e proteína C reativa. O objetivo é saber qual é o "tipo do reumatismo" e, para isso, não é preciso pensar.
Se o "diagnóstico" é sempre "reumatismo", os exames são sempre os mesmos. É tudo muito simples.
Se qualquer um dos exames for anormal, o tipo do "reumatismo" é "reumatismo no sangue".
Se o FAN é positivo, o "reumatismo no sangue" é chamado de lupus; se o fator reumatóide é positivo, é chamado de artrite reumatóide; se o ASLO está elevado, eles chamam o "reumatismo no sangue" de febre reumática.
Por outro lado, se os exames são normais, então o "tipo de reumatismo" não é "reumatismo no sangue". Talvez seja "reumatismo nos nervos", "reumatismo no osso" ou qualquer outra bobagem como essas, mas esses "tipos" são muito raros e por isso novos exames serão necessários.
Assim que o trabalho para identificar o "tipo de reumatismo" estiver completado, a próxima etapa será instituir o tratamento.
O "tipo de reumatismo" mais frequente é o "reumatismo no sangue" e, nesse caso, sempre se usa penicilina benzatina - mensal, semanal ou diária - com ou sem corticóides e anti-inflamatórios. Se o ácido úrico estiver aumentado, acrescenta-se alopurinol.
O prognóstico é muito ruim porque não há cura para o "reumatismo" e o paciente, que tem de tomar os remédios para sempre, precisa voltar ao médico todos os meses para repetir os mesmos exames.
O objetivo de repetir os exames mensalmente é ver se o "tratamento" normaliza os resultados.
Enquanto isso, o médico, que nunca é culpado pelos fracassos do tratamento - esses sempre são consequência do "reumatismo ruim" - sempre recebe as glórias pelos eventuais sucessos - que parecem ser o resultado do efeito placebo.
O povo brasileiro acredita nessa prática e enquanto alguns reumatologistas lutam isoladamente contra essa charlatanice, muitos "reumatismologistas" unidos se aproveitam dessa mina de ouro, explorando a ignorância da sociedade.

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5 comentários:

chicletano disse...

Bom dia Doutor.
Muito interessante, me faz lembrar de um médico norte americano, William Davis, cardiologista,alérgico ao trigo que escreveu o livro "Barriga de Trigo".
Por exemplo no meu caso,após ler o livro "Blue Sugar" parei de comer açucar, e meu nariz parou de pedir descongestionante para desobistruilo.
Outro exemplo um amigo meu tinha enchaqueca, mas quando parou de tomar cevada a dor não se manifestou, quando voltou a usar a cevada, a enchaqueca se manifestou novamente. É a tal da industria da doença, um remédio acalma ou elimina a dor, mas se se fazer uso de uma dieta diferenciada também se elimina a dor. Grato.

Histórias ... disse...

Bom dia Doutor.
Pelo que entendi sobre a explicação que o Doutor expôs aqui é que o alto índice reumatoide é o que causa a artrite.Entende-se que se abaixar este índice reumatoide, a artrite pode ser eliminada. O meu índice reumatoide é altíssimo e por isso tenho artrite reumatoide. Tomo remédio para abaixar este índice e vitamina D.Um dia este índice pode zerar?

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Histórias:
Você entendeu errado.
"Índice reumatóide" não existe.
Se por "indice reumatóide" você quer dizer fator reumatóide (fator reumatóide é um exame, não é a mesma coisa que "indice reumatóide") e se por "indice reumatóide altíssimo" você quer dizer que o seu fator reumatóide é altíssimo, então você está completamente enganada porque não é por isso que você tem artrite reumatóide (há pessoas que têm artrite reumatóide sem ter fator reumatóide altíssimo).
Fator reumatóide não é a causa da artrite reumatóide e "tomar remédio para baixar o fator reumatóide" não faz sentido.
O raciocínio correto é, se você tem artrite reumatóide, você pode ter o fator reumatóide alto, ou seja, a doença é que causa a alteração no exame e não o contrário (não é o exame que causa a doença) - há outras doenças que fazem a mesma coisa, ou seja, aumentam o fator reumatóide. Artrite reumatóide é apenas uma das doenças que aumentam o resultado do exame fator reumatóide.
Sugiro que mude de médico e procure ouvir a verdade sobre fator reumatóide e artrite reumatóide.

aparecida maria disse...

Olá Doutor resumidamente falando, o senhor disse vários sintomas e exames por qual passei e passo. E pelo que entendi não tem cura, e pelo que tenho de experiência ao longo de mais de uns 29 anos, os profissionais não evoluíram nadinha. E já que o senhor se mostra bastante habilitado, com muito estudo e experiência, nos diga por favor: O QUE DEVEMOS FAZER?? Dietas? Ingestão de corticoides? Enfim, Dê uma luz por favor! Pois o sofrimento é terrível!

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Aparecida:

Seu comentário foi respondido através do artigo O QUE DEVEMOS FAZER? (Veja o link na página POSTS SOBRE O MITO "REUMATISMO").