domingo, 12 de julho de 2009

É BOM PARA "REUMATISMO"?

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

E vejo a mão que levanta a colher,
enquanto a outra sustenta a cabeça...


(Do poema Menino chorando na noite
de Carlos Drumond de Andrade)


Uma maneira comum de explorar comercialmente o mito "reumatismo" é anunciar algum produto natural ou industrial com a alegação de que "é bom para "reumatismo" ou de que "serve para "reumatismo".
Anúncios desse tipo são enganosos pois, como "reumatismo" não é uma doença, o significado dessas expressões é apenas "isso é bom para a sua crença".
Mas, como fruto da ignorância, a crença popular em "reumatismo" é inocente.
Ninguém sabe o que é "reumatismo", mas as pessoas acreditam que "é bom para reumatismo" ou "serve para reumatismo" é algum tipo de ação mágica capaz de impedir o aparecimento, melhorar os sintomas ou curar o que alguém acredite ser "reumatismo".

No poema "Menino chorando na noite", Carlos Drumond de Andrade descreve com precisão admirável o ato maternal de dar um medicamento ao filho que chora.
Esse é um exemplo de ato que "é bom" para qualquer doença, que "serve" para qualquer doença. Não importa o que a criança tenha, o ato do amor materno tem o poder de aliviar dores, medo e sofrimento. Após esse ato, seja qual for o medicamento administrado, a criança geralmente se sente melhor.
Mas a ciência não é poética e um cientista imediatamente pergunta: - "Melhor por quanto tempo?"
Para a ciência, sentir-se melhor não é a mesma coisa que melhorar a doença.

Quando tratamos de pessoas, em primeiro lugar queremos que as doenças que elas apresentem melhorem definitivamente; em segundo lugar, quando não é possível a melhora definitiva, que as doenças melhorem por longo tempo; em terceiro lugar, que pelo menos melhorem por curto tempo.
Para a maioria das doenças, não existe o que possa causar a melhora definitiva, mas para a maioria das doenças existem tratamentos médicos capazes de causar a melhora por longo tempo.
A melhora por "curto tempo" pode ser obtida por praticamente qualquer coisa fornecida na forma de medicamento ou por qualquer ato que simbolize o cuidado de alguém, como o descrito por Carlos Drumond de Andrade.

"Placebo" é o nome que se dá a algo usado na forma de medicamento mas que não tem nenhuma ação "farmacológica" conhecida.
O adjetivo "farmacológica" descreve a ação dos "fármacos".
"Fármaco" é o nome técnico que se dá ao "princípio ativo" de um medicamento.
"Princípio ativo" é o composto químico que tem "efeito terapêutico", ou seja, que trata a doença. Um princípio ativo modifica, de alguma maneira, o processo biológico que leva ao aparecimento da doença.
Um medicamento na forma de xarope, por exemplo, é uma mistura química de várias substâncias.
Todo xarope é composto por um "veículo", que é o líquido onde se dissolve o "fármaco".
Além do veículo, contém outras substâncias com finalidades variadas como adoçar, colorir, dar gosto, tirar a acidez, etc.
No meio de tudo isso, está o "fármaco" propriamente dito, que é a verdadeira substância que vai produzir o "efeito farmacológico" e tratar a doença.
Também é assim com comprimidos, cápsulas, injeções, etc.
Em outras palavras, um remédio - ou um medicamento - é sempre uma mistura de substâncias químicas em que apenas uma delas é um princípio ativo. Existem também os medicamentos compostos, em que vários princípios ativos são misturados com as outras substâncias.

"Placebo" é um medicamento que não contém nenhum "princípio ativo", portanto não pode produzir nenhum "efeito farmacológico". Mas, apesar disso, tem "efeito terapêutico"...
Ah! os mistérios da vida... "Há mais mistérios entre o céu e a terra, Horácio, do que pode sonhar a sua vã filosofia." (Hamlet - Willian Shakespeare)

A doença é um processo biológico em que fenômenos físicos e químicos ocorrem em um organismo vivo podendo modificá-lo de maneira prejudicial.
O processo biológico da doença é o objeto de estudo da Medicina e, quando conhecemos as características do processo da doença, podemos procurar substâncias naturais, ou desenvolver substâncias artificiais, capazes de modificá-lo favoravelmente.
Quando queremos cientificamente "melhorar" uma doença, precisamos modificar favoravelmente o processo da doença, seja para abreviar a sua duração ou para fazê-la desaparecer, quando possível.
Quando dizemos que uma doença melhorou em resposta ao tratamento, dizemos que o processo da doença foi controlado ou minimizado e, como consequência, a pessoa doente se sente melhor.

Um placebo, por não possuir um princípio ativo capaz de modificar o processo da doença, não pode melhorar a doença em si, mas pode fazer com que a pessoa se sinta melhor mesmo assim.
Quando a pessoa doente se sente melhor, ela inevitavelmente pensa que a doença melhorou, mas isso não é necessariamente verdade. Mesmo quando o processo da doença se mantém inalterado ou até piora, a pessoa doente pode se sentir melhor pelo efeito de um ato de amor e atenção, como o da mãe que dá um medicamento ao filho, ou de um medicamento sem nenhum efeito sobre a doença, como o placebo.

Por isso, alguns autores consideram o placebo e o efeito que ele produz, o efeito placebo, benéficos para o tratamento bem intencionado.
Entretanto, nas propagandas de "é bom para reumatismo" ou "serve para reumatismo" o que se vê é a exploração do efeito placebo apenas como instrumento para enganar e obter lucro.
Se quisessem fazer propaganda honesta, os anunciantes de produtos "bons para reumatismo" ou que "servem para reumatismo" deveriam referir-se a ações sobre processos biológicos verdadeiros e, para isso, teriam que anunciar seus produtos como, por exemplo, "bons para a dor" ou que "servem para a dor", o que atribuiria aos produtos anunciados apenas alguma ação analgésica, pois é essa ação farmacológica que é "boa para a dor" ou que "serve para a dor". Mas, como possuidores de ação analgésica, esses produtos não seriam diferentes dos outros produtos analgésicos disponíveis no mercado, o que diminuiria muito o apelo popular ao seu consumo.
Da mesma forma, poderiam anunciar os produtos como "bons para a inflamação" ou que "servem para a inflamação, o que atribuiria aos produtos apenas alguma ação anti-inflamatória, pois é essa ação farmacológica que é "boa para a inflamação" ou que "serve para a inflamação". Mas, como possuidores de ação anti-inflamatória, esses produtos não seriam diferentes dos outros produtos anti-inflamatórios disponíveis no mercado, o que também diminuiria muito o apelo popular ao seu consumo.

Quando os produtos comercializados são anunciados apenas pelas verdadeiras ações farmacológicas que possuem, qualquer sugestão de ação mágica por parte desses produtos desaparece e, com o desaparecimento da linguagem mitológica que engana a população, o estímulo ao consumo voluntário de medicamentos também desaparece.
Por isso, por usar linguagem mitológica para enganar a população e incentivar a auto-medicação, a prática mal intencionada de anunciar e vender produtos "bons para reumatismo" ou que "servem para reumatismo" é condenável e, como propaganda enganosa, deveria ser proibida. Além disso, ao fazer propaganda do mito "reumatismo", contribui para disseminar e perpetuar a ignorância popular a respeito da dor musculo-esquelética e das doenças que a causam.

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