domingo, 5 de julho de 2009

PROVAS DE ATIVIDADE "REUMÁTICA"?





Cientificamente não existem exames que avaliem "atividade reumática", pois não existe nenhum processo biológico que seja "reumático", exceto para os defensores do mito "reumatismo", que consideram os conceitos científicos representados pelos adjetivos dolorosa, inflamatória, autoimune, degenerativa, hereditária, metabólica, neoplásica, traumática e psicológica como exemplos de processos biológicos que podem mostrar "atividade reumática". Eles dizem que uma doença inflamatória é uma doença reumática, que uma doença autoimune é uma doença reumática, que uma doença dolorosa é uma doença reumática, etc. Mas não penso assim.
Para mim, se uma doença é inflamatória, ela é inflamatória, não é reumática; se uma doença é autoimune, ela é autoimune, não é reumática; se uma doença é dolorosa, ela é dolorosa, não é reumática, etc. Penso assim porque decidi combater o mito "reumatismo" e considero que qualquer referência verbal a esse mito, diretamente ou através das palavras dele derivadas, como "reumática, reumatóide, reumatologia e reumatologista", remete o pensamento popular de volta ao mito e mantém o ciclo da ignorância popular a respeito da dor musculo-esquelética e das doenças que a causam.
Mas no século passado ninguém pensava dessa maneira.
Nas décadas de 40, 50 e 60, estava na moda o conceito de "atividade reumática", que foi inicialmente desenvolvido para avaliar a atividade da doença chamada febre reumática.
O significado científico original de "atividade reumática" era, na verdade, "atividade da febre reumática", mas já disse que a mente humana é preguiçosa e tende a encurtar as expressões verbais para economizar energia. Por isso, "atividade da febre reumática" foi reduzido para "atividade reumática".
Febre reumática é uma doença que evolui em surtos. Um surto de febre reumática é uma reação inflamatória de origem autoimune, desencadeada por uma infecção prévia por estreptococo, que se manifesta com febre, dores nas articulações, artrites, anemia, manchas na pele e, às vezes, cardite (inflamação no coração), que é a manifestação mais grave da doença.
Durante o surto, dizemos que a doença está em atividade e dizemos que, fora do surto, está sem atividade, ou seja, fora do surto, a pessoa ainda tem a doença, mas como não tem dores, febre, artrites, anemia e manchas no corpo, dizemos que a doença está sem atividade.
Durante a atividade, os exames VHS, mucuproteínas e proteína C reativa aumentam, e voltam ao normal após o tratamento e o controle da atividade, com exceção do VHS, que pode permanecer aumentado por meses, mesmo na ausência de atividade da doença.
No coração, onde surgem as lesões mais graves da febre reumática, há duas formas da doença: a cardite aguda, em que o processo inflamatório está ativo e ainda não formou cicatriz, e a cardite crônica, que é o resultado da cicatrização das lesões agudas; a cicatrização se faz através de fibrose (formação do tecido fibroso ou cicatriz) e a cicatriz deforma as válvulas do coração, resultando nas lesões que caracterizam a doença.
No século passado, o conceito de "atividade reumática" foi desenvolvido para estudar a relação entre alterações em exames laboratoriais em pacientes com manifestações clínicas de febre reumática (febre, dores, artrites, anemia, manchas de pele) e a presença ou não de envolvimento do coração (cardite), ou seja, para saber se haveriam alterações no coração sempre que houvessem alterações laboratoriais.
Clinicamente é fundamental saber se um surto de atividade da doença irá causar lesão no coração e a maneira de prever isso é identificar se há atividade da doença no coração, o que nem sempre acontece.
Para isso, os resultados dos exames hemograma, VHS, proteína C reativa, mucoproteínas e ASLO (antiestreptolisina O) foram comparados com amostras das válvulas obtidas dos pacientes com a doença que haviam sido operados do coração, para saber se as alterações nos exames de laboratório corresponderiam a alterações de atividade inflamatória recente no coração.
As operações do coração em pacientes com febre reumática só são feitas naqueles que apresentam cardite crônica, ou seja, lesões cicatriciais nas válvulas. Por isso, para fins de tratamento, é importante diferenciar as situações em que o coração tem fibrose (cicatriz de processos inflamatórios antigos) das situações em que há inflamação aguda nas válvulas.
No coração, a "atividade da cardite reumática" se manifesta apenas pela inflamação aguda. Na febre reumática, a "atividade da febre reumática" equivale ao surto da doença, com febre, dores nas articulações, artrites, anemia, manchas de pele. É que quando há um surto, pode haver ou não atividade da doença no coração, e essa diferenciação é importante.
A expressão "provas de atividade reumática", que foi originalmente usada com o sentido de "provas de atividade da febre reumática", foi criada para representar o conjunto de exames laboratoriais usados para, em pacientes com febre reumática, avaliar a atividade inflamatória da doença. Nessas condições, o médico primeiro diagnosticava a febre reumática - através da história do doente e do exame físico - e, em seguida, solicitava os exames de laboratório para avaliar a atividade.
Mas o pensamento mitológico rapidamente encarregou-se de deturpar essa tentativa de expressar um conceito científico através de nomenclatura mitológica e, por isso, o que era para ser usado apenas para a avaliação de febre reumática, em pessoas com a doença, passou a ser usado como rotina de laboratório em pessoas sem doenças, apenas para "ver" se elas tinham alguma "atividade reumática", como se isso fosse possível. As consequências dessa prática irracional, baseada exclusivamente no pensamento mitológico, foram ilustradas essa semana pelo depoimento da leitora Vanieli no artigo PARA QUE SERVE O EXAME ASLO.
A explicação para o que aconteceu com Vanieli é um exemplo da inutilidade de querer expressar conceitos científicos com a nomenclatura mitológica derivada da palavra "reumatismo".
Na mesma época em que o conceito de "atividade reumática" era desenvolvido, houve uma tentativa de mudar o nome da febre reumática para "doença reumática".
Os gênios da comunicação que postularam essa mudança consideravam a febre reumática como a verdadeira "doença reumática" - "a" doença reumática (o que é a mesma coisa que "o" reumatismo) - enquanto qualquer outra das doenças constantes da classificação do American College of Rheumatology seria, para eles, "uma" doença reumática (o que é a mesma coisa que "um" reumatismo).
A confusão resultante dessa tentativa contribuiu para a disseminação do mito "reumatismo" nesse país e levou-me a criar o epigrama abaixo, o qual, ligeiramente modificado, serviu para inaugurar este blog:

A diferença entre
a doença reumática
e
uma doença reumática
é
a indefinição
do artigo ou da razão?

Como ninguém além dos gênios entendia a diferença entre "a" doença reumática e "uma" doença reumática, os praticantes da medicina baseada em reumatismo rapidamente perceberam que poderiam usar a expressão "provas de atividade reumática" para dizer que iriam pesquisar qualquer uma das doenças reumáticas, pois a confusão da linguagem permitia isso e a população poderia ser facilmente enganada com essa nomenclatura. Por isso, os exames iniciais foram acrescidos de FAN, fator reumatóide, ácido úrico e eletroforese de proteínas, e todos passaram a compor o "kit" das "provas de atividade reumática", expressão que foi incorporada em alguns formulários de laboratórios de análises clínicas por bioquímicos desejosos de simplificar o trabalho dos médicos, mas ignorantes a respeito do significado real do que estavam fazendo.
Daí a passarem à solicitação indiscriminada de "provas de atividade reumática" foi um pulo e, nesse processo, muita gente sofreu os efeitos da crença no mito "reumatismo" e dos exames que supostamente poderiam mostrar a sua existência.
Não existem "provas de atividade reumática" e os exames que alguns chamam dessa maneira não devem ser solicitados para pessoas sem sintomas.
Para pessoas com dor musculo-esquelética, alguns desses exames podem ser úteis, mas raramente há motivos para solicitar todos ao mesmo tempo. O raciocínio científico do reumatologista geralmente seleciona qual deles pode ser importante para uma determinada pessoa e solicita apenas os que possam ajudar a esclarecer o quadro clínico em questão.
Mas os praticantes da medicina baseada em reumatismo solicitam todos juntos e, se algum está alterado, dizem que a pessoa tem "reumatismo" ou "reumatismo no sangue", o que é declaração de ignorância e, às vezes, de picaretagem.
Se você está sofrendo os efeitos iatrogênicos da solicitação desnecessária desses exames, infelizmente o prognóstico dessa situação é ruim. Uma vez que se depare com o exame positivo, o efeito disso costuma ser devastador, pois a pessoa passa a acreditar que está doente - quando não está. Em pessoas sem sintomas, nenhum desses exames significa doença.
Mas a crença no papel dos exames de laboratório como exames para diagnóstico de doenças, reforçada pela crença no mito "reumatismo", faz com que alguém, como a leitora Vanieli, mesmo já tendo sido tranquilizada por um reumatologista, continue em dúvida sobre haver ou não risco para a saúde no resultado dos exames alterados.
A pessoa que acredita que um exame de laboratório alterado significa alguma doença, se for orientada de que cientificamente não significa, tende a ficar em dúvida por causa da crença que tem no exame. A dúvida gera preocupação, que gera novos exames, que geram mais preocupação, etc. É uma espiral em direção às doenças causadas pelo estresse.
Por isso não se deixe enganar pelo discurso aparentemente lógico de "exames para ver se tem reumatismo" ou qualquer outra bobagem do gênero. O que está por trás dessa nomenclatura é apenas o mito "reumatismo" mascarado na linguagem pseudo-científica das "doenças reumáticas" e das "provas de atividade reumática".



10 comentários:

suelen disse...

OI DR. TUDO BEM? DR. EM JULHO COMECEI A SENTIR DORES NAS ARTICULAÇÕES DAS MÃOS, PRINCIPALMENTE AO ACORDAR, MUITAS VEZES ESTAVAM INCHADAS... POIS BEM, COMO ESTAVA MUITO ANSIOSA DEVIDO A UM RESULTADO DE CONCURSO, ASSOCIEI AO ESTRESSE E TAL. DEIXEI PASSAR, NO DA 31 DE AGOSTO, QUANDO AS DORES NÃO SUMIRAM E EVOLUÍRAM PARA MEU OMBRO QUE CREPITAVA, PROCUREI UMA ORTOPEDISTA DO SUS... ONDE FUI MUITO HUMILHADA, CHEGUEI E EXPLIQUEI OS MEUS SINAIS E SINTOMAS, A MESMA RIU E FALOU QUE NUNCA PODERIA SER ARTRITE REUMATÓIDE, POIS EU ERA MUITO NOVA , TENHO 24 ANOS.. ISSO SEM ME EXAMINAR, DEPOIS DE EU EXPRESSAR MEUS POUCOS CONHECIMENTOS SOBRE, ELA ENTÃO SOLICITOU VÁRIOS EXAMES E ME PRESCREVEU UMA INJEÇÃO DUO DECADRON... COMO ESTAVA ME INCOMODANDO MUITO, RESOLVI APLICAR, NO OUTRO DIA NÃO SENTI MAIS NADA... FIQUEI 2 MESES SEM NADA APRESENTAR. MAS SEMANA PASSADA AS DORES VOLTARAM NAS MÃOS, FIZ UMA OUTRA PROVA (CONCURSO) AGORA, TERÇA-FEIRA (09/11/2010), E ONTEM, NÃO CONSEGUIA FECHAR MINHAS MÃOS, HOJE PIOROU PELA MANHÃ, DOÍA MUITO,AO LONGO DO DIA HÁ UMA MELHORA SIGNIFICATIVA. TOMEI NIMESULIDA POR CONTA PRÓPRIA, PARA DESINFLAMAR, ATÉ A CONSULTA COM O REUMATOLOGISTA E PEGAR O RESULTADO DOS EXAMES. DORES ARTICULARES PODEM ESTAR ASSOCIADAS A ESTRESSE? E QUERIA PARABENIZÁ-LO, POIS SE TODOS OS PROFISSIONAIS DA ÁREA DA SAÚDE FOSSE IGUAIS AO SR. DISPONINILIZANDO TODA ESSA ATENÇÃO A MEDICINA ESTARIA MUITO MELHOR.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Suelen:
A dor musculo-esquelética de qualquer localização, articular ou extra-articular, pode ser causada pelo estresse,
mas antes de admitir essa conclusão, é preciso excluir as causas que não são. Por isso, o especialista indicado para avaliar a queixa de dor nas articulações, que surgem na ausência de traumatismo no local, é o reumatologista.

giovana disse...

Dr. Há mais de dois anos eu sinto uma dor forte nas juntas, aparece umas manchas avermelhadas no local e fica inxado.
Já fiz vários exames e com médicos diferentes nenhum deles conseguem descobrir o que é, pois os exames não tem alteração nenhuma!
pensaram que fosse processo alergico, fiz exames não deu nada.
mas eu sinto dor e somente em juntas, como poderia doer?

Estou desistindo de procurar outros médicos.Estou cansada de fazer exames e não descobrirem nada!
Giovanna

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Giovana:
Lamento que você esteja desistindo de procurar outros médicos, mas não acredito que haja outra opção para o diagnóstico e o tratamento de doenças que causam dor, inchaço e manchas vermelhas nas articulações.
Casos assim devem ser avaliados por um médico-reumatologista quando as manchas e os inchaços estiverem presentes porque o diagnóstico depende da visualização desse fenômeno. Em geral, exames de laboratório pouco ajudam no diagnóstico de situações como a sua.
Sugiro que consulte um reumatologista; ou mais de um, se for necessário.

Simone Faleiro disse...

dr cláudio ,bom dia,venho sentindo dores no corpo todo e os ossos estralando mas nunca me preocupei pq ja tinha um diagnostico de osteoartrose e aprendi a conviver com essas dores,ha uns 20 dias atras venho sentindo um mal estar sempre na altura do estomago q piorou significadamente e tambem percebo uma vermelhidão nas palmas das mãos e ponta dos dedos;apos uma serie de exames a unica alteração foi a prova de atividade reumatica que deu 10,vi em algum lugar q pode-se associar este exame ao infarto ;gostaria de saber,alem da esteira e do ecg quais outros exames deveria fazer

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Simone:
Esse exame que você está chamando de "prova de atividade reumática" não existe. Existem vários exames que, em conjunto, algum idiota um dia chamou de "provas de atividade reumática", como se existisse algo chmado "atividade reumática" que pudesse ser medido através de exames de laboratório. Mas "atividade reumática" não existe, é apenas uma maneira pomposa de falar para defender o mito "reumatismo" e toda a nomenclatura ridícula associada com a crença em "reumatismo".
Você não está olhando direito para o resultado do seu exame. Embora alguns laboratórios ainda utilizem a expressão "provas de atividade reumática" para um conjunto de exames, quando dão os resultados, dão o resultado de cada um dos exames que consideram ser parte dessas provas - mas quais exames são usados variam de um laboratório para outro, justamente porque esse tipo de linguagem não se refere a nenhum conhecimento científico, apenas faz parte do mitológico associado com a palavra "reumatismo".
Se você ler com atenção, verá que o nome do exame que deu o resultado de 10 é outro, não é "prova de atividade reumática". Se você me disser o nome do exame, poderei lhe dar alguma orientação mas, por enquanto não sei do que você está falando.
Se quer orientações a respeito do risco de infarto, sugiro que consulte um cardiologista.

FereGil Oliveira disse...

Dr, sou Fernanda, tenho 30 anos, no ano de 2012, parei com minhas atividades fisicas e fiquei mais caseira e entao comecaram as dores tanto articular, muscular e ossea, durante o dia tenho calafrio como se estivesse com febre e depois meu rosto queima e meu corpo pesa como de presao alta, mas verifiquei uma vez e estava normal.As vezes meus joelhos vacilam e senti dores no quadril do lado direito, como sinto dores nas costas por ter 4 cesareas achava que isso tinha a ver ou com meu sedentarismo, mas estao aumentando e passei com uma dra que suspeitou de algum tipo de reumatismo, e tireoide. Me solicitou exames, retirei o resultado ontem e ainda nao marquei retorno, gostaria que me aliviasse o peso da preocupacao, sempre gostei de fazer exercicios e dos meus conhecidos nao tinha ninguem com a articulacao melhor que eu nas atividades. E agora fico muito triste e nao me conformo com isso!

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Fernanda:
O que posso dizer com certeza é que "um tipo de reumatismo" você não tem porque "reumatismo" não é uma doença, é apenas um mito popular e "tipos de reumatismo" não existem.
Sugiro que consulte um reumatologista para avaliar as dores mas, como regra geral, em todas as doenças que causam dor musculo-esquelética, a prática regular de atividade física é parte do tratamento. Dificilmente um reumatologista irá impedir alguém de fazer atividade física por causa de dores como as que você descreveu, mas a avaliação é necessária para saber qual atividade física é mais indicada para o seu caso.

biagama disse...

olá Dr. tudo bem,sou Glaucimária,no dia 12.08.13,desta mesma semana,levei ao médico o resultado de uns exames que fiz do meu filho que tem apenas 9 anos de idade,e nesta solicitaçaõ de exames tinha sido pedido a prova de atividade Reumática,e ele me disse que o resultado deu muito alterado, porque o normal é 200 e o do meu filho deu 500,saí do consultório quase louca de preocupação,ele pediu que eu repetisse novamente o exame e de preferencia em outro laborátorio para que possa fazer uma comparação,e o que o Senhor me diz disso,alguns dias antes de realizar os exames,ele deu uma febre muito alta devido um problema de amidálas que ele tem e inflama a garganta com muita facilidade sera´que essa febre contribuiu,para que alterasse o resultado dos exames,o que o Senhor tem ame dizer sobre isso.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Glaucimaria:
Você está sendo enganada pela expressão "atividade reumática", acreditando que existe um exame, que você chama de "a prova de atividade reumática", cujo normal seria 200 e o do seu filho deu 500.
"A prova de atividade reumática" não existe, por isso não sei de que exame você está falando. Existem vários exames que, em conjunto, alguns laboratórios e médicos ainda chamam erradamente de "provas de atividade reumática" mas cada um dos exames tem um nome e deve ser interpretado separadamente, como está explicado no artigo PROVAS DE ATIVIDADE "REUMÁTICA"?
As aspas na palavra "reumática" são para mostrar que a ideia transmitida pela palavra não existe e o ponto de interrogação no título do artigo é para mostrar que a expressão "provas de atividade reumática" não significa nada e por isso não deveria ser usada.
Sugiro que revise suas informações e veja de qual exame você está falando porque "a prova de atividade reumática" não existe.