sábado, 1 de agosto de 2009

DEPOIMENTO E DÚVIDAS DE ITAIR SOBRE A FEBRE REUMÁTICA

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

Contém capítulo especial sobre

O DIAGNÓSTICO E O TRATAMENTO DA FEBRE REUMÁTICA

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Na semana passada, recebi por e-mail o depoimento de Itair, que transcrevo a seguir:

Fiquei impressionado com o seu blog. Não sou médico ou reumatologista, sou apenas portador de uma dessas doenças que o senhor citou. Creio que seja a tal Febre Reumática (“reumatismo” não é doença e “reumatismo no sangue” muito menos). Tive alguns sintomas na adolescência, como Coreia, muita Febre, dores nas articulações, enfim acho que depois de quatro médicos o quinto acertou no diagnostico (também se não acertasse talvez eu já estivesse morto). Digo isso, não pelo fato de não acharem que fosse o “reumatismo”, mas por nem colocar no “Mesmo Saco”, uma doença causada por várias incidências de infecções de Garganta. Simplesmente para a Coreia, procuraram saber se eu não estava ficando louco (fizeram só exame de cabeça!), para as dores no joelho e tornozelo deduziram que fosse lesão de esportes, que eu gosto de praticar. Não os culpo, não era a área deles mesmo. E quando digo que poderia estar morto, digo pq demoramos tanto achar as causas desses sintomas, que hoje tenho uma Insuficiência aórtica e uma estenose mitral. Aplico benzetacil desde os 13 anos (tenho 33 anos).

Na verdade não estou escrevendo para lhe pedir diagnóstico ou penalizar ninguém. Escrevo parabenizando pelos textos do seu blog. Durante anos alguns profissionais diziam que eu tinha “reumatismo no sangue” e eu repetia como se estivesse falando com sabedoria. Então procurando entender o meu exame de sangue, pela internet, encontrei o seu blog. Li vários temas e para não lhe tomar muito tempo, farei algumas conclusões e se estiverem equivocadas, apenas indique qual tema procurar, que leio novamente.


1-No texto, “por causa desse erro, as defesas do corpo, após curarem a infecção inicial, passam a atacar células e órgãos do próprio corpo, causando outras doenças.” Então o que causa a lesão, por exemplo, nas válvulas cardíacas, é a própria defesa do corpo, ou seja, a existência em um exame de sangue, desta defesa é perigosa mesmo que esteja estabilizada? Uma coisa é as defesas existirem para combaterem as bactérias (que atacam o organismo) e ao eliminarem estas bactérias, elas (as defesas) simplesmente se mantêm no sangue sem causar ataques. Mas se quem ataca, por exemplo, as válvulas cardíacas, é a própria defesa do corpo, a existência dela (a defesa) no sangue é algo ruim. Estou certo, ou as defesas só reagem quando as bactérias agem? E especificamente no caso da Febre Reumática, quem atacou as válvulas cardíacas foi a própria defesa do corpo ou foi a bactéria da infecção?

2-Como, resumidamente, poderíamos especificar o Médico Reumatologista? Profissional de Saúde especialista nas doenças de (a) (0)...
3-Como só sabemos que houve um contato com estreptococo, pelo fato de aparecer no exame de sangue a defesa, se o corpo tiver alguma falha na produção da defesa, o indivíduo pode ter sérios problemas (além do já existente)? Ou ainda não houve caso que o organismo não tenha produzido a defesa contra o estreptococo?

Agradeço sua atenção e autorizo que coloque o texto em seu blog.

Itair Tomé Júnior.


Itair:

Agradeço pelos comentários instrutivos a respeito das dificuldades de diagnóstico que você viveu e, dada a importância do seu depoimento, estou publicando-o na página principal do blog. Responderei às questões com a mesma numeração que você usou:

1. As defesas do corpo - os anticorpos - só agem quando são estimuladas pelo estreptococo. Os anticorpos não são "ruins", apenas são enganados por uma semelhança estrutural entre partes da bactéria e as válvulas do coração ou partes de outros órgãos que são atacados.
Os anticorpos antiestreptolisina O, que são medidos pelo exame ASLO, como todos os anticorpos, fazem uma reação do tipo tudo ou nada, ou seja, se encontrarem estreptolisina O, que é parte do estreptococo, ligam-se a ela.
Como circulam pelo sangue, os anticorpos alcançam todos os órgãos do corpo e, onde encontrarem estreptococos ou estruturas semelhantes a eles irão reagir.
O que estimula a produção do anticorpo é chamado de antígeno. No estreptococo, o antígeno é a estreptolisina O. Há outros antígenos, mas vamos manter o foco no que faz aumentar o exame ASLO, que é o mais usado para o diagnóstico.
No coração, no cérebro, na pele ou nas articulações não há estreptolisina O, mas há proteínas do próprio corpo que contêm uma sequência de aminoácidos (pequenas moléculas que são ligadas em cadeia para formar a base química das proteínas) semelhante a uma sequência de aminoácidos de alguma parte da estreptolisina O.
Em uma proteína como a estreptolisina O há milhares de aminoácidos ligados em cadeia, mas apenas uma parte dessa sequência, com apenas alguns aminoácidos, é suficiente para funcionar como antígeno. É com essa parte, essa pequena sequência de aminoácidos dentro da estrutura da proteína, que as proteínas do corpo têm semelhança.
A semelhança entre elas faz com que os anticorpos erradamente reconheçam as proteínas do corpo como se fossem o antígeno estreptolisina O e liguem-se a elas. O antígeno que desencadeia tudo só está no estreptococo; nas válvulas do coração e nos outros locais que podem ser afetados há apenas estrutras quimicamente semelhantes ao antígeno.
A reação do anticorpo com o antígeno ou com o que se parece com o antígeno desencadeia a inflamação que, na garganta, cura a infecção, mas nos outros órgãos pode causar as lesões que determinam o aparecimento de coreia, artrite ou lesão das válvulas cardíacas.
Mas as estruturas do corpo que se parecem com a estreptolisina O não estimulam a formação dos anticorpos antiestreptolisina O na pessoa sadia. Somente a presença do estreptococo pode estimular a formação dos anticorpos. Por isso, para controlar a febre reumática é essencial evitar novas infecções pelo estreptococo e essa é a finalidade de fazer as injeções de penicilina. Se não houver nova infecção, não haverá novos ataques de febre reumática.
Na febre reumática, a lesão das válvulas cardíacas é causada pela reação dos anticorpos contra as válvulas e não pela bactéria.
Resumindo, as defesas não são perigosas, elas apenas cumprem o papel de curar a infecção. O perigo está em haver semelhança de estruturas do corpo com a bactéria, o que dá características imunológicas especiais às pessoas capazes de desenvolver febre reumática. Se soubéssemos como identificar as pessoas que apresentam essas características, poderíamos evitar que adquirissem a doença. Mas atualmente só podemos identificar a doença após a primeira manifestação e às vezes essa primeira manifestação é suficiente para causar lesões permanentes, infelizmente.

2. A definição que uso é a que está no meu perfil: Reumatologista é o especialista no diagnóstico e tratamento clínico da dor e das doenças das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna.
Se dissermos que reumatologista é o especialista em febre reumática, por exemplo, ou em qualquer outra doença, as pessoas só procurarão o reumatologista quando souberem que têm febre reumática, ou alguma outra doença que for usada para definir a especialidade, o que significa que primeiro procurarão outro médico para saber que têm febre reumática, ou outra doença, e só depois procurarão o reumatologista.
O intervalo entre a primeira manifestação da doença e a consulta com o reumatologista é crítico para a evolução da maioria das doenças de que o reumatologista trata. Por isso as pessoas devem pensar em reumatologista quando apresentarem os sintomas dessas doenças, antes mesmo de receberem o diagnóstico. O ideal é que seja o reumatologista quem faça o diagnóstico e inicie o tratamento.
O principal sintoma de todas as doenças da especialidade é a dor musculo-esquelética, ou seja, a dor nas articulações, nos ossos, nos músculos e na coluna.
Por isso, quando alguém sente dor musculo-esquelética que aparece sem ter havido traumatismo no local, o primeiro médico a ser consultado é o reumatologista.
O reumatologista faz a abordagem do diagnóstico das causas da dor musculo-esquelética de maneira diferente dos outros médicos, especialistas ou não, gerando menos despesas para o paciente, pois utiliza os exames complementares - laboratoriais e de imagem - de maneira racional e obtém melhores resultados quando faz o tratamento precoce, o que garante melhor evolução e controle das doenças que são diagnosticadas.
Mas isso se aplica somente aos verdadeiros reumatologistas.
Há oportunistas e falsos especialistas que confundem a população praticando a medicina baseada em "reumatismo" que devem ser evitados.

3. Antes de ser reconhecido pelos exames laboratoriais, o contato com estreptococo pode ser reconhecido pelas infecções que a bactéria causa. Essas infecções são, principalmente da pele e da garganta. As duas elevam ASLO, mas só a infecção da garganta pode causar febre reumática nas pessoas suscetíveis. A infecção da garganta é, na verdade, infecção das amígdalas, ou amigdalite estreptocócica. À visão direta, olhando pela boca aberta, a amigdalite estreptocócica tem um aspecto característico, que facilita o reconhecimento.
A dosagem de ASLO é útil para reconhecer o contato com estreptococo quando a infecção aconteceu há algum tempo e já foi curada ou esquecida. Outras vezes a infecção não causa sintomas e a pessoa nem sabe que teve, mas o exame aumentado mostra que teve.
Depois de estimuladas, as defesas do corpo levam alguns meses para voltar ao normal e o exame permanecerá alterado enquanto as defesas (os anticorpos) estiverem aumentadas.
O problema com a febre reumática é que ela surge de 2 a 3 semanas depois da infecção das amígdalas. Nesse momento, a pessoa às vezes nem lembra que teve infecção na garganta, mas se a pessoa tem febre reumática e ASLO elevada, concluímos teoricamente que 2 a 3 semanas antes do início da doença ela teve contato com estreptococo, mesmo que não se lembre disso.
A produção de defesas contra o estreptococo depende tanto da ação das células de defesa, os leucócitos, quanto da formação dos anticorpos.
Pessoas deficientes de leucócitos e anticorpos têm maior risco de adquirir infecções em geral, mas antes das infecções estreptocócicas, que dependem de contato com uma bactéria do meio exterior, podem morrer por efeito de bactérias e vírus que já estão no próprio corpo e aproveitam a ausência de defesas para atacar o organismo. Essas infecções são chamadas de oportunistas e são o maior risco de vida para pessoas imunodeficientes (que não produzem anticorpos).
Teoricamente, uma pessoa que por qualquer razão não pode produzir anticorpos contra estreptococos não pode desenvolver febre reumática - a presença do anticorpo é essencial para o desenvolvimento da doença autoimune. Mas a pessoa que não produzir os anticorpos pode morrer por causa da infecção da garganta. Entretanto, a infecção pode ser curada mesmo na ausência de defesas do próprio organismo. É para isso que servem os antibióticos, para matar as bactérias, mesmo quando o organismo não pode se defender delas.

Tendo respondido às suas questões, gostaria de fazer alguns comentários a respeito do seu diagnóstico.

Coreia (a pronúncia é coréia, palavra que não é mais acentuada) é o nome dado a uma doença do cérebro que causa movimentos involuntários. A pessoa faz caretas, pisca, põe a língua para fora, joga braços e pernas com violência e de maneira incontrolável produzindo um quadro dramático e impressionante. Nas formas mais graves, é uma doença incapacitante, pois a pessoa acometida não consegue fazer absolutamente nada. Mas é tratável.
Embora possa ter outras causas, a ocorrência de coreia na infância ou adolescência deve ser considerada manifestação de febre reumática até prova em contrário.
O problema para o diagnóstico é que a coreia costuma ser uma manifestação tardia da febre reumática, ou seja, ela aparece cerca de 6 meses após a infecção inicial pelo estreptococo, momento em que o nível dos anticorpos já voltou ao normal e é impossível estabelecer laboratorialmente a ocorrência da infecção anterior. Portanto, se o diagnóstico de febre reumática não foi feito no início, porque não houve artrite ou cardite, que são as manifestações que chamam mais a atenção quando estão presentes, a doença pode passar despercebida. Mas o aparecimento da coreia mais tarde mostra que houve febre reumática, mesmo se o exame ASLO for negativo.

Nas válvulas do coração, a combinação das lesões de estenose, que dificulta a passagem do sangue pela válvula, com a de insuficiência, que permite a volta do sangue que já passou pela válvula, são típicas da febre reumática. Teoricamente, a existência de estenose mitral e insuficência aórtica na mesma pessoa só é causada pela febre reumática.

O que chama a atenção no caso de Itair é que, mesmo tendo apresentado duas das manifestações mais características da febre reumática e de estar fazendo a profilaxia com injeções de penicilina há 20 anos, aos 33 anos ele ainda mostra dúvidas sobre qual é a doença que tem, ao afirmar sem muita convicção "creio que seja a tal febre reumática".
Esse é um exemplo do problema de comunicação que surge quando as expressões mitológicas "reumatismo" e "reumatismo no sangue" são usadas por médicos para explicar doenças.
Para a população que acredita, essas expressões são legítimas. O conhecimento que muitas pessoas têm de suas doenças é apenas esse: uns dizem "eu tenho reumatismo"; outros dizem "eu tenho reumatismo no sangue" e claramente nenhuma dessas pessoas sabe qual é a doença que tem.
Médicos que usam a linguagem do "reumatismo", do "reumatismo no sangue" e dos "tipos de reumatismo" - e os que defendem o uso dessa linguagem - negam informação às pessoas, privam-nas do conhecimento das doenças e contribuem para mantê-las na ignorância da informação básica: Qual é a doença?
"Reumatismo", "reumatismo no sangue" e "tipos de reumatismo" não são respostas para essa pergunta pois não são doenças, são apenas mitos.




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