sábado, 8 de agosto de 2009

O QUE É FIBROMIALGIA?
ou
FIBROMIALGIA NÃO É "REUMATISMO"
e
FIBROMIALGIA NÃO É "UM TIPO DE REUMATISMO"





Fibromialgia é difícil de entender, até mesmo para os médicos.
Desde crianças, todos nós fomos ensinados a pensar na dor musculo-esquelética (a dor das articulações, dos músculos, dos ossos e da coluna) como a consequência imediata de machucados e ferimentos, ou seja, o resultado inevitável de qualquer lesão. Essa noção que adquirimos, uma noção cultural, aprendida desde a infância, reforça o conhecimento instintivo que temos da dor como um sinal de alerta contra o que pode nos fazer mal.
A principal dificuldade para alguém entender fibromialgia é justamente a noção geral de que a dor musculo-esquelética é sempre causada por lesão. Não é. Embora a noção seja senso comum, ela não é verdadeira.
Para entender a dor da fibromialgia é preciso separar o evento que causa a lesão da dor que avisa o organismo que a lesão ocorreu. São acontecimentos independentes, separados por uma fração de segundo, o tempo necessário para que o evento que causa a lesão no corpo seja percebido pelos nervos e a mensagem que eles enviam ao cérebro seja reconhecida e interpretada como dor.
Imagine uma queimadura na ponta do polegar direito, por exemplo.
O toque na superfície quente é o evento que causa a lesão; a dor percebida pelo cérebro é outro fenômeno que, embora seja provocado pela queimadura, não é a lesão causada pela queimadura, é apenas o processo que o organismo usa para reconhecer que alguma lesão ocorreu.
Sabemos que não há nenhuma lesão em fibromialgia, mas apesar disso as pessoas com fibromialgia dizem sentir dor em todas as partes do corpo, o que em princípio é difícil de entender.
Por isso, a dor sentida pelas pessoas com fibromialgia desafia todas as noções de senso comum que temos a respeito da dor musculo-esquelética, principalmente a idéia mitológica de que dor musculo-esquelética é "reumatismo".
Os médicos ignorantes sempre disseram às pessoas que dor sem causa aparente "é reumatismo".
Na fibromialgia, a causa da dor não aparece, por isso os ignorantes e os oportunistas sempre disseram para as pessoas com fibromialgia que elas tinham "reumatismo".
Os primeiros dizem isso sem saber o que a pessoa tem, significando algo como "eu não sei o que você tem, mas vou dizer que é reumatismo porque sei que você vai acreditar nisso". Os segundos também não sabem o que a pessoa tem, mas agem de má-fé, querendo vender algo, e nesse caso o significado é algo como "eu não sei o que você tem, mas vou dizer que é reumatismo porque sei que você vai acreditar nisso e comprar a minha fórmula para reumatismo".
A dor sentida pelas pessoas com fibromialgia não é "reumatismo", é apenas dor. E fibromialgia não é "um tipo de reumatismo", é apenas... fibromialgia.

Com nomes e conceitos diferentes, o que hoje chamamos de fibromialgia é conhecido pela medicina desde o século XVIII.
O conhecimento atual da fibromialgia baseia-se em um estudo feito por reumatologistas do American College of Rheumatology, em 1990.
Conscientes da confusão causada pela dor da fibromialgia no diagnóstico de outras doenças, os reumatologistas resolveram descobrir uma maneira eficaz de diferenciar a dor da fibromialgia da dor que é sentida pelas pessoas com doenças que causam lesões nas articulações.
Para isso, formaram dois grupos de pacientes: o primeiro, composto por pessoas com fibromialgia, conforme o entendimento que havia até então; o segundo, composto por pessoas com artrite reumatóide, lupus eritematoso sistêmico, artrose e outras doenças em que sabidamente há lesão causando dor.
Em seguida, estudando as características das dores que as pessoas sentiam e os demais sintomas que acompanhavam as dores, os reumatologistas fizeram a comparação entre os achados dos dois grupos para descobrir o que havia de diferente entre eles.

A primeira característica identificada para diferenciar fibromialgia das demais doenças foi definida como dor generalizada, expressão que descreve a dor sentida em várias partes do corpo, mais precisamente acima e abaixo da linha da cintura, dos lados direito e esquerdo do corpo e também ao longo da coluna vertebral. Além disso, na fibromialgia a dor generalizada é crônica, ou seja, dura mais de três meses.
A segunda característica identificada foi a presença de áreas foras das articulações que, quando pressionadas, produzem uma reação dolorosa típica. Essas áreas foram chamadas de tender points, expressão que pode ser traduzida para o português como "pontos dolorosos".
A combinação desses dois aspectos, a queixa pelo doente de dor que é generalizada e crônica e a presença dos pontos dolorosos ao exame físico é o que define fibromialgia atualmente e, sem necessidade de exames laboratoriais, permite separar o que é chamado de fibromialgia da dor que aparece em outras doenças que causam lesões musculo-esqueléticas.

Identificados os aspectos necessários para reconhecer cientificamente fibromialgia, os reumatologistas rapidamente puderam estudar as demais características do problema e logo criaram uma teoria para explicar o que era observado.
A teoria mais aceita sobre o que é fibromialgia afirma que é o resultado do aumento da sensibilidade corporal à dor.
Segundo a teoria, os mecanismos cerebrais responsáveis pela percepção da dor estão alterados a ponto de perceber dor espontaneamente, onde não há motivo para tal, ou seja, a dor surge mesmo na ausência de lesões que estimulem o sistema de percepção da dor.
Como na fibromialgia a dor é sentida pelo corpo todo e como não há lesão nos locais doloridos, a explicação provável para a origem do problema está no local onde a dor é interpretada, ou seja, no cérebro.
Essa teoria surgiu como consequência da aplicação do raciocínio lógico ao que é relatado pelas pessoas com fibromialgia.
Há evidências laboratoriais que corroboram a teoria da sensibilidade aumentada à dor, mas há controvérsias na interpretação dos dados gerados pelas experiências que produziram essas evidências, de maneira que o mecanismo exato ainda é desconhecido. Apesar disso, há evidências suficientes para mostrar que a dor da fibromialgia não é causada por inflamação, degeneração, câncer, infecção ou qualquer outro processo conhecido de produção de dor através de lesões. E talvez essa seja a maior conquista obtida com a adoção do conceito de fibromialgia: ao reconhecer a fibromialgia, sabemos que a dor que a pessoa sente não é causada por lesão nos locais que estão doloridos.
Por outro lado, se a dor da fibromialgia é mesmo causada pelo aumento da sensibilidade à dor, ainda não se sabe porque essas pessoas se tornam mais sensíveis à dor, ou seja, a verdadeira causa da fibromialgia ainda é desconhecida.

Fibromialgia, como é entendida atualmente, foi descrita pelos reumatologistas, mas os reumatologistas não são especialistas em fibromialgia, embora sejam os que mais estudem esse problema. Na verdade não há especialista em fibromialgia.
No Brasil, especialista é o médico habilitado para o exercício de uma especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. Reumatologia é uma especialidade médica, fibromialgia não é. Fibromialgia é um conceito teórico que explica determinadas características da dor musculo-esquelética. Para alguns é uma síndrome, termo médico que representa um conjunto de sintomas. Para outros não é uma doença, no sentido técnico da palavra, mas para quem sofre com as dores, fibromialgia é a doença que as causa.
Para as pessoas doentes, o grande problema da fibromialgia é justamente a dificuldade que enfrentam para receber o diagnóstico correto.
Na fibromialgia, o papel do reumatologista é fazer o diagnóstico, instituir o tratamento inicial e instruir os outros médicos sobre o que é fibromialgia.
Deve ser o reumatologista quem faz o diagnóstico de fibromialgia porque a maioria dos médicos de outras especialidades tem dificuldades para entender a dor musculo-esquelética e os mecanismos que a causam na ausência de lesão.
Quando clínicos gerais, ortopedistas, neurologistas, psiquiatras ou outros médicos diagnosticam fibromialgia e o reumatologista avalia essas pessoas depois do diagnóstico, geralmente encontra outras explicações para a dor e faz outros diagnósticos que não apenas fibromialgia.
Quando clínicos gerais, ortopedistas, neurologistas, psiquiatras ou outros médicos, baseados em resultados de fator reumatóide, ASLO, FAN ou outros exames laboratoriais, diagnosticam outras doenças e o reumatologista avalia essas pessoas depois do diagnóstico, geralmente diagnostica apenas fibromialgia.
O problema com essas situações é que fibromialgia pode coexistir com outras doenças, o que é relativamente comum. Por isso, sem entender os mecanismos da dor na fibromialgia, o médico tanto pode pensar que é a fibromialgia que causa a dor, quando as características da dor são diferentes das características da dor que é causada pela fibromialgia, quanto pensar que a dor é causada por outra doença, quando as características da dor são iguas às características da dor causada pela fibromialgia.
Um bom exemplo disso costumamos ver em pessoas com osteoporose.
As pessoas com osteoporose que estão sentindo dor no corpo e procuram atendimento com outros médicos, geralmente são diagnosticadas com osteoporose e são levadas a acreditar que a dor que sentem é causada pela osteoporose, recebem tratamento para osteoporose, mas não melhoram da dor.
Bem, o fato é que osteoporose não causa dor, portanto osteoporose não é uma explicação para dores nos braços e nas pernas.
Mas a maioria dos médicos age como se ignorasse isso e, quando o reumatologista avalia essas pessoas, percebe que a dor que sentem em geral é devida à fibromialgia. Ou seja, a pessoa tem osteoporose, mas o que causa a dor no corpo não é a osteoporose, é a fibromialgia. Se essa situação não for reconhecida, o tratamento será inadequado.
Essa questão ilustra bem o conflito que pode haver entre o diagnóstico médico e o problema de saúde que uma pessoa está enfrentando. No caso das pessoas com osteoporose e dor no corpo, o diagnóstico médico de osteoporose não era o problema de saúde que as estava incomodando. O que as incomodava era a dor no corpo e, ao não se reconhecer a fibromialgia, a dor foi atribuída erradamente à osteoporose.
De maneira semelhante, pessoas com fibromialgia podem apresentar exames alterados, seja fator reumatóide, FAN, ASLO ou outros, pois esses exames podem aparecer alterados em pessoas normais ou com outras doenças, mas se uma pessoa tem fibromialgia, sabemos que a positividade desses exames não tem nada a ver com a dor que a pessoa sente. O reumatologista reconhece facilmente as situações em que a positividade dos exames não tem importância para o diagnóstico de fibromialgia, mas outros médicos têm dificuldade para lidar com esse conhecimento. Por isso, muitas pessoas com fibromialgia são tratadas por outros médicos com injeções de penicilina, corticóides, e imunossupressores - tratando ASLO, fator reumatóide ou FAN. Mas esses medicamentos não têm ação nenhuma sobre a dor da fibromialgia e deveriam ser evitados nesse caso.

A formulação do conceito científico de fibromialgia, em 1990, como uma síndrome de dor generalizada crônica causada por aumento na sensibilidade à dor levou ao questionamento de todas as noções de senso comum a respeito da dor musculo-esquelética, principalmente a noção mitológica que considera a dor musculo-esquelética de aparecimento espontâneo como sendo "reumatismo".
Por isso, quando uma pessoa diagnosticada com fibromialgia pergunta ao médico:
- É "reumatismo", doutor?
A única resposta que deve ser dada é:
- Não. É fibromialgia.
Os que respondem "sim, é um tipo de reumatismo" estão defendendo a ignorância, protegendo os oportunistas e lutando para preservar a todo custo o mito "reumatismo".



10 comentários:

Elaine Gotardo disse...

Seu artigo é muito esclarecedor. Eu tenho 34 anos e trato de Fibromialgia à um ano. Minhas dores amenizaram e minha disposição para a vida é outra. Estou bem melhor.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Obrigado pelo depoimento, Elaine.
Os relatos de quem viveu ou vive determinado problema de saúde são sempre importantes para ajudar pessoas que estão passando por situação parecida. Em fibromialgia, relatos positivos como o seu mostram às pessoas que é possível superar e viver bem com esse problema.

Cristina E Agnaldo disse...

ola Dr td bem, tenho sofrido dores nas articilaçoes de todo corpo, começaram nas mãos depois nos cotovelos depois os ombros agora meus joelhos estão muito doloridos,fiz varios exames e nada foi diagnosticado por ultimo fiz uma cintilografia e mostrou pequeno desgaste nos dois joelhos, mas e o resto das articulaçoes porque doem.email agnaldo-batista@ibest.com.br me ajude?

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Cristina e Agnaldo:

A identificação da causa das dores só pode ser feita com o exame físico.
Exames normais não excluem todas as causas de dor.
Sugiro que consulte um reumatologista.

maria disse...

DR. LUIZ CLAUDIO EM CADA CANTINHO DE NOSSO PAIS DEVERIA EXISTIR PELO MENOS UMA DUZIA DE MEDICOS COMO VC.
TRATAR SEUS PACIENTES COM MAIS DIGUINIDADE E HUMANIDADE.
ADOREI SUA MATERIA ESCLARECENDO SOBRE REUMATISMO, CRESCI EM MINHA FAMILIA OUVINDO ESTA PALAVRA, SUA VÓ TEM SEU TIO TEM E ATÉ OCACHORRINHO TBM,RSRSRSRS.
TENHO FIBROMIALGIA A 22 ANOS E AINDA NÃO ENCONTREI TRATAMENTO ADEQUADO.
FIBROMIALGIA É UM PROCESSO INFLAMATÓRIO? FIZ EXAMES LABORATORIAIS F.REUMATÓIDE 20 UI.
PCR ULTRA SENSIVEL 0;819MG/DL.
QUAL MEDICO DEVO PROCURAR? REUMATOLOGISTA OU CARDIOLOGISTA OU OS DOIS? PODES ME INDICAR ALGUM MEDICO EM BRASÍLIA? OBRIGADA PELA SUA ATENÇÃO.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Maria:
Fibromialgia não é um processo inflamatório.
Toda pessoa diagnosticada com fibromialgia deve se submeter a uma avaliação com um reumatologista para excluir a existência de doenças que podem produzir um quadro clínico semelhante à fibromialgia.
Quando o reumatologista avalia uma pessoa que foi diagnosticada com fibromialgia por outros especialistas muitas vezes encontra evidências de outras doenças, algumas inflamatórias e outras não, que não foram identificadas pelo profissional que fez o diagnóstico de
fibromialgia. Por isso sempre deve-se consultar um reumatologista ao receber o diagnóstico de fibromialgia.
Infelizmente não tenho conhecidos em Brasília para indicar.
Boa sorte.

mulherdefibra disse...

Olá Dr. Luiz Claudio, tudo bem? Muito bom seu blog! Informação é tudo.
Gostaria de pedir sua autorização para postar em meu blog http://mulherdefibra.wordpress.com/ seus posts sobre fibromialgia. Obrigada

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Mulherdefibra:

Autorização concedida.

Bernadeth Stein disse...

sou diagnosticada fibromialgica a dez anos. Já usei de um tudo. Até remedio a base de morfina. sem resultado. em termos de medicação, o que tem de mais moderno e que tem surtido resultados positivos

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Bernadeth:
Fibromialgia é difícil de tratar e os melhores resultados são obtidos pela combinação de intervenções das quais os medicamentos são apenas uma parte.
Os medicamentos a serem usados em um caso particular assim como o momento de escolher uma clínica de dor para dar continuidade ao tratamento de casos refratários (que não respondem a nenhum medicamento), devem ser discutidos com o reumatologista responsável.