domingo, 13 de setembro de 2009

TEM CURA, DOUTOR?





Cura:
sf (lat cura) 1 Ação ou efeito de curar. 2 Tratamento da saúde. 3 Restabelecimento da saúde. 4 Emenda, melhora, regeneração... Michaelis - Moderno Dicionário da Língua Portuguesa

s.f. Ação ou efeito de curar. / Recobramento da saúde. / Tratamento, remédio... Dicionário do Aurélio Online



Quando escolhi o título do blog como UM PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO, quis chamar atenção para a irracionalidade existente em diálogos que envolvem a pergunta de um leigo sobre uma doença "ser reumatismo" e a afirmação de um profissional com formação técnica respondendo que "sim, é reumatismo" ou "sim, é um tipo de reumatismo".
Há um conflito cultural latente nesse diálogo, representado de um lado pela crença mitológica da população em "reumatismo" como doença e do outro pela classificação não científica de doenças promulgada por uma sociedade internacional de especialistas que pretende ensinar "reumatismo" como mais de cem doenças "reumáticas", determinando autoritariamente que "reumatismo" e "doenças reumáticas" são a mesma coisa, simplesmente ignorando a crença popular sobre o assunto (para mais detalhes leia REUMATISMO NO BRASIL - UM PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO).
Acredito que as pessoas dotadas de senso crítico e de discernimento percebem facilmente que, entre dizer que uma doença é "tal doença" (dizendo o nome da doença) e dizer que a mesma doença "é reumatismo" ou "é um tipo de reumatismo", existe uma diferença importante que mostra, no primeiro caso, a explicação científica de um fenômeno biológico e, no outro, uma explicação mitológica que muitas vezes apenas esconde a ignorância do profissional que a declara.
É esse conflito latente existente na linguagem usada entre leigos e especialistas quando se referem ao mito "reumatismo" que caracteriza o PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO existente nesse assunto.

Mas há outro problema de comunicação igualmente importante, que diz respeito a todas as doenças, que também precisa ser conhecido. Esse problema de comunicação aparece na pergunta corriqueira - tem cura, doutor? - feita pelas pessoas que descobrem ter alguma doença.
Essa pergunta simples tem um significado mitológico e outro científico e essa diferença de significados também causa muita confusão e sofrimento desnecessários.

O significado mitológico de "cura" é o desaparecimento da doença. Nesse sentido, ter cura significa "algo que faça a doença desaparecer rapidamente e para sempre", com um componente místico, mágico e maravilhoso levemente oculto no significado.
Bem, a má notícia sobre o significado mitológico de cura é que nenhuma doença "tem cura". Na verdade, a cura mitológica só aparece nos relatos bíblicos e religiosos, nunca nos relatos médicos. Portanto, no sentido mitológico, "cura" não diz respeito ao médico, mas ao que é divino.

O significado científico de "cura" é o tratamento de uma doença feito por médicos através do uso de medicamentos e/ou intervenções cirúrgicas.
A boa notícia sobre o significado científico de cura é que todas as doenças "têm cura", pois cientificamente "ter cura" significa apenas "ter tratamento", sem nenhum signicado místico, mágico ou maravilhoso oculto. Ou seja, o resultado do tratamento não importa.
Quando uma doença começa, a pessoa doente pode morrer pela doença, pode permanecer com a doença por algum tempo e depois se recuperar ou pode permanecer com a doença a vida toda e morrer de outra causa. O papel do médico é assistir o doente durante a doença, qualquer que seja a evolução. Cientificamente, não cabe ao médico garantir que a doença irá desaparecer ou continuar.

O significado mitológico de "não ter cura" - ou "incurável" - é a morte. Nesse sentido, as pessoas que ouvem a afirmação "não tem cura" e a interpretam mitologicamente entendem que têm uma doença que levará à morte e sofrem por isso, mesmo quando na verdade não irão morrer por causa dessa doença.

Não existe um significado científico para "não ter cura", pois todas as doenças têm tratamento, ou seja, têm cura. O médico que usa a expressão "não tem cura", geralmente quer dizer que não existe um tratamento médico capaz de deixar a pessoa sem a doença e, nesse sentido, o profissional está garantindo um resultado do tratamento, ou seja, está garantindo que a doença não irá desaparecer.
Mas assim como não cabe ao médico garantir que a doença irá desaparecer, também não cabe a ele garantir que não irá.
Médicos que assumem o papel de dizer que determinada doença "não tem cura", muitas vezes apenas tiram a esperança do doente, condenando-o a um sofrimento desnecessário.
Enfrentar uma doença com esperança é muito melhor para o doente do que, sem esperança, não enfrentar a doença.
Médicos que dizem que determinada doença "não tem cura" mostram arrogância e querem demonstrar também onisciência e clarividência que não possuem.
Os dados científicos mostram que todas as doenças podem desaparecer. Há relatos de desaparecimento de doenças graves em todas as especialidades médicas. Por isso, mesmo quando morre a maioria das pessoas com determinada doença, ao tratar dessa doença o médico deve focar a atenção nos casos que se recuperam. Se em cada cem pessoas com a doença uma se recupera, é esse caso que deve servir de exemplo e são os fatores que levaram à recuperação que devem ser aprendidos. Dessa maneira, o caso que se recupera dá esperança aos demais. Quem diz que determinada doença "não tem cura" está usando os 99 casos que não se recuperam para tirar a esperança do que irá se recuperar.

Os praticantes da medicina baseada em reumatismo abusam da onisciência e da clarividência - que não possuem - ao afirmar que "reumatismo não tem cura", afirmação tão absurda quanto o diagnóstico de "reumatismo" ou de "reumatismo no sangue" que eles fazem. Quem ouve semelhante absurdo não precisa se desesperar, pois "reumatismo" não é um diagnóstico, não é uma doença, portanto ter cura ou não ter cura não faz sentido.
Quem ouve absurdos desse tipo deve deixar de lado os praticantes da medicina baseada em reumatismo e procurar um profissinal capaz de fazer o diagnóstico científico da doença. Com o diagnóstico científico é possível saber qual a chance de alguém se recuperar de determinada doença.

Por isso, cientificamente, artrite reumatóide tem cura, lupus eritematoso sistêmico tem cura, fibromialgia tem cura, artrose tem cura, todas as doenças têm cura, mas a cura científica, aquela que é resultado do trabalho permanente do médico e do doente, procurando juntos vencer a doença a cada dia, até que desapareça.
Os que estão procurando a cura mitológica e estão na frente do médico, estão procurando no lugar errado. Estariam melhor procurando em uma igreja ou templo.
Ao procurar tratamento médico, a única cura que se pode esperar é a científica, mesmo quando no fundo todos torcemos para que aconteça algo místico, mágico e maravilhoso.



2 comentários:

Victor disse...

Bom dia, doutor.

Sou estudante de medicina do sexto ano, em breve graduado, e, embora pretenda cursar uma residência não diretamente ligada à assistência ambulatorial (anestesiologia), considero excelentes os posts que li neste blog; sem dúvida, retratam as dificuldades de comunicação e os diagnósticos populares que encontramos em todas as esferas do atendimento. São os nosso velhos conhecidos: o "reumatismo no sangue", a "impinge", a "sinusite" que produz cefaléia com foto, fono e osmofobia há 15 anos, o "problema de rins", o "fígado atacado", e assim por diante. Estou até pensando em compartilhar os textos tanto para colegas de turma quanto para conhecidos em geral.

No entanto, tenho um certo questionamento com relação à terminologia utilizada aqui. Pode ser uma diferença de escolas, mas ao menos pelo que aprendi, o termo "cura" deve ser reservado, de fato, para doenças em que a terapia é capaz de promover a remissão completa da doença após término da mesma, estando o paciente, ao menos aparentemente, livre desta. Vêm imediatamente à mente a maior parte das doenças infecciosas e algumas neoplasias tratadas em estadio precoce (e dependendo da sorte do doente).

Concordo absolutamente em jamais subtrair de qualquer paciente a esperança, desde que não esteja na iminência da morte (ex: adenocarcinoma gástrico com metástase cerebral resistente a quimioterapia paliativa e em franca insuficiência respiratória). Mas permita-me explicar o motivo de se evitar a palavra "cura", pelo menos pelo que aprendi, e pelos motivos os quais concordo:

A palavra cura subentende para o paciente a ausência da doença com a terapia, certo? Como explicar para um paciente portador mesmo de uma doença cotidiana como hipertensão arterial sistêmica ou diabetes mellitus tipo 2 que a doença dele será "curada" pela terapia, apenas para que ele se veja evoluindo com DRC estágio V dialítica em 10-15 anos? Para doenças crônicas, especialmente no caso das que podem apresentar características de surto-remissão como o próprio LES, imagine como deve ser frustrante para o paciente que a pulsoterapia e os imununossupressores que utilizou há alguns meses não "curaram" seu lúpus. Fui ensinado a explicar aos pacientes que a maioria das doenças da medicina têm controle, e não cura, e imediatamente explico o significado de cada um. Sempre gosto de citar o exemplo do câncer ao explicar a um hipertenso a diferença entre os termos: um conjunto de doenças que podem se apresentar tanto potencialmente letais e refratárias ao tratamento quanto potencialmente curáveis, dependendo de diversos fatores. Explico que o controle da hipertensão dele dependerá de mudanças de estilo de vida, de boa adesão aos medicamentos, e de que a maior probabilidade é de que necessitará de manter a terapia pelo resto de sua vida, e não apenas tomar o captopril quando tem cefaléia e seguir com uma circunferência abdominal de 120 cm. Por isso digo: "pressão alta não tem cura; tem tratamento e tem controle".

Cabe também o mérito científico do termo; aprendi que, não apenas por uma questão de comunicação devemos evitar o termo cura, como também o uso de cura no sentido de mero controle de doença é equivocado. Talvez explicar o tempo de sobrevida livre de doença seria uma forma mais apurada para se falar tanto na possibilidade de cura quanto de controle; no entanto, ainda defendo que "cura" me parece uma expressão forte para se usar no controle de doenças crônicas, ressaltando sempre que a não utilização do termo não visa subtrair a esperança dos pacientes, mas sim evitar os próprios erros de comunicação aqui discutidos.

Obrigado pelas leituras,
Victor

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Victor:
Agradeço pelo seu interesse no blog e pelo comentário.
Diante da extensão dos seus argumentos, preferi responder através do artigo TEM CURA, DOUTOR? - PARTE 2, que você poderá ler na página principal do blog.
Se desejar continuar o debate, peço que envie seus comentários por e-mail, para não fazermos do blog um local para debate técnico.
Não irei publicar novos comentários sobre o tema pois a principal finalidade do blog não é servir de local para debate médico mas sim esclarecer a população a respeito do mito "reumatismo".
Obrigado.