domingo, 4 de outubro de 2009

POR QUE VOCÊ INSISTE EM DIZER QUE TEM "REUMATISMO"?

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Há 5 anos atendo uma cliente que anteriormente havia sido "diagnosticada" por outros profissinais com "reumatismo", depois com "reumatismo no sangue", depois com artrite reumatóide e depois com lupus. Ela fora tratada com injeções de penicilina, todo tipo de analgésicos e anti-inflamatórios e também com corticóide e alguns medicamentos imunossupressores sem ter melhorado.
Ela era uma mulher obesa, sedentária e tinha dor generalizada, mas não apresentava nenhum sinal de artrite ao exame físico, nem qualquer sinal de doença autoimune. Ao examiná-la, o único diagnóstico que fiz foi fibromialgia.
É difícil tratar pessoas com fibromialgia que foram iatrogenizadas com "diagnósticos" falsos como "reumatismo" e "reumatismo no sangue" ou com diagnósticos errados como artrite reumatóide ou lupus. As pessoas que passam por esse processo acreditam em coisas como "inflamação no sangue", "o sangue vai virar pus", "a doença gasta as articulações", etc. Essas crenças impedem-nas de aceitar a explicação real a respeito de fibromialgia: não há lesão em fibromialgia. A dor aparece espontaneamente em locais onde não há lesão e não se sabe porque isso acontece.
Mas mesmo sendo difícil desfazer a iatrogenia a que essas pessoas foram submetidas, isso geralmente é possível, embora requeira tempo e trabalho. Quando a pessoa adere às orientações do tratamento e responde aos medicamentos e ao programa de exercícios, há grande chance de que o estrago anterior feito pelas crenças infundadas em "reumatismo" possa ser reparado.
Entretanto, o que me chama a atenção nessa paciente em particular é que, mesmo após eu ter explicado várias vezes que ela não tem "reumatismo" nem "reumatismo no sangue", que o que ela tem é fibromialgia, ela insiste em dizer que tem "reumatismo" e constantemente volta à consulta afirmando ter tido uma crise de "reumatismo".
Refletindo sobre o que a leva a agir dessa maneira, juntei alguns fatos e tirei algumas conclusões.
Em primeiro lugar, após ter recebido o diagnóstico de fibromialgia, ela melhorou com o tratamento. Por causa da obesidade, orientei-a a fazer a operação do estômago para perda de peso e ela emagreceu 30 kg depois do procedimento, o que também ajudou na melhora clínica. Todas as vezes em que vem consultar, ela faz questão de declarar o quanto melhorou após ter iniciado o tratamento e eventualmente fala que o diagnóstico de fibromialgia ajudou-a a entender muita coisa que acontecia com ela. Então, o problema dela não é insatisfação com o diagnóstico nem com o tratamento.
Em segundo lugar, ela só fala em "reumatismo" quando as dores pioram. Bem, esperar que alguém com fibromialgia não tenha crises de piora não é ser realista. Já expliquei isso a ela várias vezes, mas sempre que as dores pioram ela esquece a fibromialgia e vem dizer que o que piorou foi o "reumatismo".
O que está por trás desse comportamento é a força da crença em "reumatismo".
Quando acredita em uma explicação para alguma doença, a pessoa doente cria uma imagem mental para o que acredita ser a doença. A composição da imagem mental, a clareza com que ela é entendida, depende do nível cultural da pessoa mas, qualquer que seja o nível de discernimento, acredito que a imagem que a pessoa faz da doença é parte de um mecanismo de tranquilização gerado pela mente. Conhecer a imagem da doença é mais fácil do que conhecer a doença, pois conhecer a doença requer conhecimentos técnicos muitas vezes inacessíveis, mas conhecer a "imagem" da doença é algo que se resolve a nível individual - cada um acredita no que quer.
Entretanto, nos dois últimos séculos a humanidade testemunhou o desenvolvimento de um processo de identificação dos fatos naturais e da separação entre o que é fato e o que é ficção. A esse processo foi dado o nome de CIÊNCIA. Desenvolvendo intrumentos de verificação e mensuração dos fatos, a ciência procura separar claramente o que está em seus domínios do que é inventado pela mente humana.
Para quem sabe ter fibromialgia, como a minha cliente, acreditar que a causa da piora das dores é "o reumatismo" é uma forma de negação do conhecimento científico e uma celebração das ideias mitológicas que, mesmo enganando a mente, transmitem alguma segurança. Pode ser mais fácil se tranquilizar com a linguagem simples e popular do mito do que com os complicados conceitos científicos, que sempre requerem o conhecimento prévio de outras matérias, como anatomia, fisiologia e bioquímica, para serem entendidos completamente.
Mas a dificuldade para entender conceitos que traduzem a realidade dos fatos não deve servir de desculpa para alguém escolher a fantasia para explicar tais fatos. Essa forma de alienação deixa a pessoa vulnerável às manipulações da fantasia, que os espertalhões usam para conseguir o que querem.
Que uma doença inflamatória causa inflamação em algum lugar do corpo é uma verdade científica que não admite a explicação oposta - uma doença inflamatória que não causa inflamação -, mas o mito "reumatismo" pode causar inflamação ou não, dependendo da vontade de quem o explora. A diferença é que os fatos que sustentam a explicação científica podem ser verificados por qualquer um e não podem ser modificados, enquanto o significado do mito pode ser modificado conforme a vontade de quem o explora.
O mito é um fenômeno cultural e linguístico que transita livremente em todas as áreas do conhecimento humano, pois o conhecimento é sempre expresso pela linguagem. O mito sobre doenças é uma palavra - reumatismo - à qual se atribui vários significados que não podem ser verificados experimentalmente, por isso situando-se fora do domínio da ciência. Quando é usado para explicar doenças, serve apenas para confundir e enganar quem nele acredita.
A manutenção do mito em pessoas esclarecidas pelos fatos científicos, como acontece com a minha cliente, denuncia a necessidade de estudos sobre a linguagem médica e os efeitos que produz na pessoa doente, para conhecer as maneiras de evitar a iatrogenia.
A maneira como uma doença se expressa é resultado de uma interação complexa entre fenômenos químicos, físicos e biológicos que se exteriorizam no universo finito representado pelo corpo humano doente, mas o significado da exteriorização desse fenômeno é modificado pelas influências culturais e sociais da pessoa doente. As informações que o médico transmite sobre a doença tanto educam quanto "deseducam" o doente, influenciando a expressão da doença ao modificar o cenário psico-social de quem a apresenta. Por isso, tanto as explicações que educam quanto as que enganam sobrevivem entre a população, que quando não é esclarecida sobre os fatos, tem a difícil tarefa de escolher qual irá seguir baseando-se apenas em simpatia, modismo e tradição.
Os que escolhem acreditar na explicação mitológica, escolhem trilhar caminhos obscuros. O mito é mutável, varia de pessoa para pessoa em conteúdo e significado, por isso quando a pessoa diz que "o reumatismo piorou" pode acreditar que sabe o que está dizendo, mas a mensagem que transmite é totalmente desprovida de significado. Quem a ouve e pensa entender o significado, está interpretando como quer uma mensagem que é desprovida de significado. O resultado é uma conversa de loucos em que um fala de algo que não entende e o outro finge que entende o que está sendo dito.
A única maneira de escapar de tal situação é conhecer o mito. O conhecimento ilumina a obscuridade onde os mitos se escondem e é uma informação compartilhável, com significado fixo, que só pode ser alterado de má fé, mas nesse caso o autor está sujeito a ser desmascarado facilmente.
Por isso, cada vez que ela insiste em dizer que tem "reumatismo", eu respondo simplesmente:
- Não é "reumatismo". É fibromialgia.

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