domingo, 29 de novembro de 2009

COMO O REUMATOLOGISTA ANALISA A DOR MUSCULO-ESQUELÉTICA
PARTE 1 - TEM ARTRITE OU NÃO TEM ARTRITE?

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM




Dor musculo-esquelética (a dor sentida nas articulações, nos ossos, nos músculos e na coluna) é o motivo mais comum para alguém consultar um reumatologista.
Ao atender alguém que se queixa de dor nas articulações, nos ossos, nos músculos ou na coluna, o principal objetivo do reumatologista é descobrir se a pessoa tem ou não tem artrite.
Para saber se uma pessoa que sente dor musculo-esquelética tem artrite, o reumatologista precisa obrigatoriamente examinar as articulações.
Artrite significa apenas inflamação em uma articulação; não significa uma doença incurável, não significa uma doença que é para sempre.
Qualquer articulação inchada, quente, vermelha, dolorida e com dificuldade de movimento é uma artrite, ou seja, é uma articulação inflamada.
Identificar uma articulação com artrite é um diagnóstico anatômico (identifica apenas qual articulação está inflamada) mas não significa identificar a doença que está causando a inflamação.
As doenças que causam artrite são muitas, podendo ser doenças autoimunes, infecciosas, metabólicas, inflamatórias, neoplásicas, etc. Até mesmo traumatismos podem causar artrite.

Algumas características da artrite são úteis para identificar a doença que está causando a inflamação e a característica mais importante talvez seja o número de articulações afetadas.
Monoartrite é o nome que se dá à artrite de uma articulação.
Poliartrite é o nome que se dá à artrite de várias articulações ou, melhor dizendo, "às artrites de várias articulações" pois cada articulação inflamada é uma artrite.
A experiência obtida no diagnóstico e tratamento de artrite ensinou aos reumatologistas que é importante separar as poliartrites em oligoartrites (quando há 2, 3 ou 4 articulações com artrite), reservando o nome poliartrite para as situações em que há 5 ou mais articulações afetadas.
Algumas doenças se apresentam como monoartrite, outras como oligoartrite e outras mais como poliartrite. Algumas dessas doenças são restritas às articulações afetadas, mas muitas são doenças sistêmicas que também afetam outros órgãos além das articulações.

A nomenclatura das doenças sistêmicas que causam artrite é responsável pela confusão que as pessoas fazem quando recebem um diagnóstico anatômico de artrite (uma articulação inflamada), porque muitas das doenças que causam artrite têm no nome a palavra artrite seguida por outra palavra que procura especificar a doença: artrite reumatóide, artrite reativa, artrite psoriática, etc.

Para entender o problema é preciso saber que o diagnóstico anatômico de artrite identifica apenas a presença de inflamação em uma articulação – como na expressão artrite do joelho, por exemplo – mas não diagnostica a doença que a está causando.

Outra característica importante da artrite que deve ser conhecida é a duração: artrites agudas têm menos de 12 semanas de duração e artrites crônicas mais do que isso. O limite de 12 semanas é arbitrário e foi obtido a partir de estudos populacionais, mas se mostrou útil para o diagnóstico de pacientes individuais.

Para quem está doente, quando a artrite está começando, o que importa mesmo é saber quanto tempo ela vai durar e se vai ou não desaparecer, mas o conhecimento científico atual é insuficiente para responder a essas perguntas com certeza.
Na verdade, quando reconhece que alguém tem artrite, nem sempre o reumatologista reconhece imediatamente que a pessoa tem alguma das doenças que levam o nome de artrite. Muitas vezes ele precisa de exames laboratoriais ou de imagem para identificar a doença que está causando a artrite (ou as artrites, se for um caso de oligoartrite ou de poliartrite). Mas reconhecer alguma artrite ao exame físico é fundamental para saber qual caminho lógico seguir para a identificação da doença.

Uma situação própria da reumatologia é que, algumas vezes o único diagnóstico que se pode fazer é o de artrite, ou seja, após completar a investigação que o caso requer, não se identifica nenhuma doença que esteja causando a artrite. Para representar essa situação criou-se a expressão “artrite indiferenciada”, que significa apenas a presença de uma ou várias artrites cuja causa ainda não foi descoberta.
Sabemos que a artrite indiferenciada pode 1) permanecer indiferenciada, 2) pode evoluir para permitir o reconhecimento de alguma das doenças que causam artrite ou 3) pode desaparecer.

Quando uma artrite indiferenciada desaparece, aprendemos que uma doença pode desaparecer mesmo sem que a causa seja descoberta.
Quando uma artrite indiferenciada evolui para uma das doenças que causam artrite, aprendemos que o conhecimento científico é limitado e que às vezes é preciso aguardar o momento certo para fazer o diagnóstico (leia QUANDO O CONHECIMENTO CIENTÍFICO É LIMITADO).
Quando uma artrite indiferenciada permanece indiferenciada, é tratada da mesma maneira que as doenças crônicas que causam artrite.

Resumindo, quando atende uma pessoa com dor musculo-esquelética, o reumatologista precisa examinar as articulações para saber se a pessoa tem alguma articulação com artrite. Se tiver, é preciso saber quantas articulações estão afetadas e há quanto tempo a articulação está inflamada (ou as articulações estão inflamadas, se forem várias). Os passos seguintes dependerão dessas informações simples que, em conjunto com as características presentes no local da inflamação (calor, vermelhidão, inchaço, dor, dificuldade de movimento) guiarão o reumatologista na solicitação e interpretação dos exames necessários para o diagnóstico.

Tentei descrever neste artigo a maneira científica de abordar uma pessoa que se deixa de dor musculo-esquelética e que, ao ser examinada, apresenta uma ou mais articulações inflamadas (uma ou mais artrites).
Embora algumas vezes a apresentação da artrite seja tão característica que basta ao reumatologista ver a articulação afetada para fazer o diagnóstico da doença que a está causando (como é o caso da gota, por exemplo) muitas vezes isso não é tão simples e nos casos complicados, para obter o melhor resultado, é necessário abordar o problema de maneira ordenada e sistemática, praticando a Medicina como ciência.
Entretanto, para os praticantes da MEDICINA BASEADA EM REUMATISMO, nada do que foi dito se aplica.
Esses profissionais, ao ouvir a queixa de dor musculo-esquelética, sempre solicitam os mesmo exames e sempre fazem o mesmo “diagnóstico”: “reumatismo”. Para isso, não precisam pensar.
Para os praticantes da MEDICINA BASEADA EM REUMATISMO, se a pessoa tem dor, sempre tem reumatismo; os exames solicitados são sempre os mesmos e o tratamento também.
Essa prática é uma vergonha para a Medicina científica, mas ela se mantém porque a crença popular no mito “reumatismo” faz com que as pessoas acreditem em bobagens como “diagnóstico de reumatismo”, “tratamento para reumatismo”, exames “para ver se é reumatismo”, “médico de reumatismo”, etc.
Os problemas de comunicação oriundos dessa prática muitas vezes escondem a má fé de alguns profissionais, mas algumas vezes, infelizmente, apenas expõem a indiferença com que os especialistas lidam com os problemas relacionados com o mito "reumatismo".

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8 comentários:

Retazos de Amor disse...

Boa Tarde Doutor, fiz alguns exames de sangue por exemplo Rosse Ragan-negativo, proteina c reativa-negativo,
fan- negativo, latex para artrite reumatoidea positivo com um valor de 63.4 ui/ml, anti ccp-2 unidades -leucocitos 11.700.
Tenho muitas dores articulares, pes,pernas, maos e cotovelo.tambem estao inflamadas , isso faz mais ou menos 5 meses, que pode ser?
Muito obrigado,
Neusa

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Retazos de Amor:

O que pode ser, depende principalmente de haver artrite nas articulações doloridas.
O diagnóstico de artrite em uma articulação sempre deve ser feito por um médico - não é correto considerar que a dor em uma articulação significa a presença de inflamação no local. As articulações podem doer sem que haja artrite no local.
Se houver artrite, a presença do látex positivo sugere que o diagnóstico é artrite reumatóide. Mas você precisa de um reumatologista que avalie as articulações doloridas para dizer se tem artrite em alguma delas.
Se não houver artrite, somente uma avaliação física completa poderá esclarecer a causa das dores.

Retazos de Amor disse...

Muito obrigado Doutor Claudio pela informacao queria uma segunda opiniao, principalmente porque depois de ler seu blog vi que o senhor tem muito conecimentos sobre o assunto...Eu sou paranaense, sou de Ponta Grossa, mas vivo a 18 anos em Argentina...
Agradeco de novo sua atencao...
Neusa

Patricia disse...

Olá Dr. Luiz, por coincidência encontrei seu blog, com muitos esclarecimentos sobre a area da reumatologia. Eu tb sou de Curitiba, mas vivo em Portugal. Gostaria de saber sua opinião pois tenho sofrido de dores nas mãos desde de Junho deste ano. Sou professora de Pilates e no inicio as dores começaram no dedo médio da mão direita e um pouco no polegar, achei que era pelo esforço mas continuaram, agora tenho dores em ambas as mãos e em outras partes osseas e articualares. Já fui no ortopedista, fiz RX e fator reumatóide e todos negativos, só falta um chamado antinucleares e anticopro ADN nativo. Alguns tem a opinião que seja reumatismo, outros dizem qeu já é artrite reumatóide em fase embrionária por isso nao sai nada no exame. E acham qeu pode ter ligação comuma vacina qeu comecei tomar me fevereiro contra alergia (tenho asma). Outros falam do fator emocional qeu diminui a imunidade. Enfim, tneho dores e rigidez matinal e outro sinais.
Tenho 29 anos, sem história na familia, e gostaria de saber sua opinião, com os pouco dados qeu relatei o Dr. acredita que seja mesmo isso?
Agradeço desde já a atenção

Cumprimentos

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Patrícia:

"Reumatismo" não é, com certeza, pois "reumatismo" não é uma doença, é apenas um mito popular.
Os profissionais que usam o artifício de dizer que "é reumatismo" sem dizer o nome da doença a que querem se referir, não estão esclarecendo nada sobre a doença. Estão apenas omitindo informações, usando para esconder o diagnóstico uma expressão popular que não tem significado científico e que não deveria ser usada por médicos.
"Fase embrionária" de artrite reumatóide não existe. Enquanto não houver artrite não é artrite reumatóide. Discute-se ainda se existe uma fase dolorosa de artrite reumatóide em que não é possível detectar clinicamente a sinovite, que é a lesão característica dessa doença. Mas essa fase pré-clínica, digamos assim, se existir, é passageira e dura apenas algumas semanas. Após um mês de dor, sem artrite ao exame físico, não é artrite reumatóide.
Vacinas podem causar dores articulares, mas o que você está usando para tratamento de alergia não é verdadeiramente uma vacina, embora alguns profissionais chamem dessa forma. Sugiro que você pergunte ao alergista responsável se o tratamento da alergia pode causar dores articulares.
O fator emocional (stress) pode causar dores articulares, mas só se deve atribuir dores ao estresse após excluir outras causas orgânicas (que não são causadas pelo estresse).
A questão fundamental no seu caso é saber se há alguma artrite nas articulações doloridas.
Pergunte ao reumatologista se há alguma artrite ao exame físico, antes de perguntar qual é a doença. Se houver artrite, a linha de investigação a ser seguida é diferente das situações em que não há artrite. E o tratamento também.

Patricia disse...

Olá Dr. Luiz, agradeço desde já a explicação, esclareceu muita coisa.
Falei com a pneumologista que prescreveu a vacina e diz ela que pode ter este efeito, é raro mas pode acontecer. O restante dos exames sairam todos negativos. E a Reumatologista que fui esta semana disse que tenho mesmo artrite nestas articulações, e me prescreveu medicamento Rosila (6mg) 1 xdia manhã, durante duas semanas para ver como vou reagir, e depois irá me ver novamente. tenho me sentido um pouco melhor mas não muito, mas acho que a conduta dela vai ser parar com a vacina.
Qual sua opinião em relação a este medicamento (efeitos colaterais) e esta conduta?

Obrigada mais uma vez

Cumprimentos

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Patrícia:

Se você tem artrite e está sob os cuidados de uma reumatologista, está tudo bem. Não existe Rosila no Brasil, mas pela internet descobri que é deflazacort, um corticóide indicado no tratamento de artrite. Como tratamento inicial, está correto e a resposta ao tratamento é que dirá o que fazer a seguir, se serão necessários outros medicamentos ou não.

Patricia disse...

Olá Dr. Luiz, é isso mesmo o medicamento é este que falou. Estou me sentindo com menos dores e na proxima semana vou ate a reumatologista para ela ver o que vai se em seguida. Ela diz que ate agora que se trata de uma artrite aguda, mas nao acredita que seja artrite reumatóide, e continua achando que isso pode ser efeito da vacina contra alergia que tomo. Vamos ver o que dá!!

Obrigada pela atenção at´agora.
Cumprimentos