domingo, 22 de novembro de 2009

QUANDO O CONHECIMENTO CIENTÍFICO É LIMITADO

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

O que sabemos é uma gota;
o que desconhecemos, um oceano.

Isaac Newton

Dois anos atrás, uma mulher que havia sido diagnosticada com lupus eritematoso sistêmico e vinha sendo tratada dessa doença em outro local foi atendida no ambulatório de Reumatologia do Hospital de Clínicas.
A doença que ela apresentava caracterizava-se pelo crescimento de pelos sobre uma mancha escura que cobria a maior parte do rosto, desfigurando-a quase completamente.
Lembro-me de que na época, ao discutir o caso com os médicos-residentes que atuavam no ambulatório, achei oportuno considerar que, fosse o que fosse que ela tivesse, não era lupus eritematoso sistêmico.
Ela certamente tinha uma doença de pele que causava uma lesão grotesca, mas não apresentava nenhuma das outras manifestações necessárias para caracterizar a doença como lupus eritematoso sistêmico. Por isso, foi reencaminhada para o ambulatório de Dermatologia, onde esperávamos que um diagnóstico científico pudesse ser feito, já que o anterior, feito no outro local, baseara-se exclusivamente na presença de FAN positivo em uma pessoa com uma lesão de pele difícil de definir.

Não é incomum ver esse tipo de raciocínio: quando não sabem o que é, se o FAN é positivo, dizem que é lupus.

Mas pelos motivos explicados em NÃO É LUPUS ou PARA QUE SERVE O EXAME FAN, FAN positivo não significa lupus, mesmo na presença de uma lesão na face, principalmente uma lesão que não tenha as características das lesões causadas por lupus.
Assim, após ver desfeito o diagnóstico de lupus eritematoso sistêmico no ambulatório de Reumatologia, a paciente seguiu desanimada para o ambulatório de Dermatologia.

Cerca de um ano depois, ela voltou ao ambulatório de Reumatologia para reavaliação de novos exames, ainda com a mesma lesão na face e ainda sem nenhuma outra manifestação de doença que justificasse o diagnóstico de lupus eritematoso sistêmico.
Naquele momento, ela informou que a Dermatologia estava investigando, mas ainda não havia chegado a nenhum diagnóstico.
Depois disso não tive mais notícias dela, até esta semana, quando ela foi ao meu consultório por causa de uma dor no ombro de início recente.
Quando a vi, quase não a reconheci, pois a mancha da face e os pelos haviam desaparecido.
Perguntei então qual fora o diagnóstico e o que havia acontecido. Ela disse simplesmente que não se chegou a nenhum diagnóstico.
Contou que, após ter terminado a avaliação do caso e não tendo sido possível chegar a nenhum diagnóstico, o dermatologista responsável levou-a a um congresso da especialidade, onde cerca de 80 dermatologistas de vários locais a examinaram e reconheceram que não sabiam o que era aquilo.
Após o congresso e diante da falta de conhecimento sobre a lesão admitida por diversos especialistas, o dermatologista responsável pelo caso comunicou-lhe que a doença que causava aquela lesão na face era desconhecida para a medicina e que, portanto, não iria recomendar qualquer tratamento, chegando inclusive a recomendar-lhe que procurasse recursos na fé e em tratamentos alternativos.
Ela então decidiu parar o tratamento que vinha fazendo e, depois disso, viu a lesão regredir lentamente, até desaparecer.
Mas o que ela mesma reconheceu foi que a melhora da lesão não aconteceu porque ela parou de se tratar, mas porque um fator de estresse que a afligia foi eliminado e, por isso, concluiu que tanto o surgimento quanto a melhora da lesão eram exclusivamente resultados do estresse.

Quando o conhecimento médico é insuficiente, muitos médicos acham mais fácil inventar um diagnóstico do que admitir que não sabem.
Mas não saber é natural na ciência, pois o que sabemos é muito menor do que o que não sabemos. Entretanto, em situações onde o conhecimento é limitado, a chance de obter respostas úteis é maior com a aplicação do método científico do que com qualquer outro processo intelectual de abordagem do desconhecido.
Não é vergonhoso não saber; vergonhoso é inventar o que não existe.
Vergonhoso é um profissional inventar lupus para diagnosticar uma lesão desconhecida.
E, da mesma forma, vergonhoso é um profissional inventar “reumatismo” para explicar a dor musculo-esquelética causada por uma doença que ele não sabe qual é.
Vergonhoso é um profissional inventar “reumatismo no sangue” para explicar o resultado de um exame que ele não sabe interpretar.
Vergonhoso é não dizer a verdade e recorrer a mitos para enganar as pessoas.

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Um comentário:

Victor disse...

Excelente post! A humildade na ciência é absolutamente indispensável; a ciência, como método de abordar a realidade, é uma criaçã humana, e não saber é a mais humana das qualidades.