domingo, 20 de dezembro de 2009

ACREDITAR EM "REUMATISMO" É PREJUDICIAL À SAÚDE
PARTE 3
O CASO DO "REUMATISMO" QUE "VIROU" CÂNCER

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM





Quatro anos atrás, atendemos no ambulatório de Reumatologia uma moça chamada Michelle que dizia estar sendo tratada de “reumatismo no sangue”.
Pelo estado em que ela se encontrava, imediatamente ficou evidente a todos que participaram do atendimento que algo muito errado estava por trás daquela afirmação.
Ela chegou ao consultório de maca, pois estava muito fraca para andar.
A mãe, que a acompanhava, relatou que há 4 meses Michelle vinha sendo tratada de “reumatismo no sangue” em uma cidade do litoral e, embora já tivesse usado cerca de 40 injeções de penicilina, não estava melhorando.
Ela contou que a doença de Michelle começou com dores no corpo e febre e que, após a realização de um exame de sangue, o profissinal que a atendeu disse que ela tinha “reumatismo no sangue”.
Ela então apresentou o exame de sangue: era um resultado de ASLO igual a 400 U, circulado com caneta vermelha e que trazia ao lado o desenho de várias flechas vermelhas apontadas para cima.
Para os leitores que ainda não estão familiarizados com a picaretagem “reumatismo no sangue” (leia REUMATISMO NO SANGUE, PICARETAGEM E DEBOCHE) é preciso dizer que não existe nenhuma doença cujo nome seja “reumatismo no sangue” e que ASLO de 400 U não é doença e não precisa ser tratado com injeções de penicilina. Sabendo disso, torna-se evidente para qualquer um que Michelle estava sendo enganada e que a doença que ela realmente tinha ainda não havia sido descoberta nem tratada.
A avaliação inicial revelou uma moça emagrecida e com anemia grave, com dor ao toque de qualquer parte do corpo, mas que não tinha artrite. A palpação do abdome descobriu o fígado aumentado 2 vezes de tamanho e o baço, 3 vezes. As mamas estavam cheias de caroços e, por isso, um diagnóstico provisório de câncer de mama em fase disseminada foi feito.
Ela foi internada e, seis horas após a admissão, o resultado do primeiro hemograma mostrou a presença de blastos, um tipo de célula maligna que define o diagnóstico de leucemia aguda.
Estabelecido o diagnóstico, Michelle foi transferida para a Hematologia, que iniciou o tratamento adequado com quimioterapia e, mais tarde, com transplante de medula óssea.
Felizmente, Michelle sobreviveu e o caso dela ainda serve de ensinamento eloquente para quem deseja conhecer os absurdos causados pela crença no mito “reumatismo”.

O desejo de narrar este acontecimento surgiu porque uma mulher, atendida no ambulatório de Reumatologia nesta semana, contou a história da filha que “teve um reumatismo que virou leucemia”.
Ela disse isso com naturalidade e de fato acreditava que fosse possível tal transformação.
Acreditar no impossível é comum na ignorância.
Acreditar que “reumatismo” pode virar leucemia decorre tanto da ignorância quanto da credulidade da população, pois “reumatismo” é apenas um mito popular, mas leucemia é um tipo de câncer (leia CÂNCER E REUMATISMO – A DIFERENÇA ENTRE TERMO POPULAR E MITO).
Os que acreditam no mito, pensam que é real, que de fato existe, e não percebem que é apenas uma palavra à qual se atribuem significados variados, de acordo com as circunstâncias.
A explicação científica simples para o caso do “reumatismo que virou leucemia” é que a leucemia não foi reconhecida no início e foi chamada de “reumatismo” por quem devia dizer simplesmente que não sabia o que a pessoa doente tinha. Depois, quando a doença evoluiu para uma situação incontrolável, em vez de admitir o erro, o sujeito inventou a explicação de que “o reumatismo virou leucemia”.
Os crédulos aceitam a explicação "o reumatismo virou leucemia" porque acreditam no mito “reumatismo” como sendo uma doença.
Acreditar em explicações impossíveis é comum entre os crédulos.

O episódio recente da criança com várias agulhas no interior do corpo lembrou-me de que, há alguns anos, fatos semelhantes eram explicados como ocorrências sobrenaturais por crédulos mal intencionados. No episódio atual, entretanto, a polícia rapidamente mostrou que o sobrenatural nada tem a ver com o aparecimento de agulhas no corpo de uma criança e os responsáveis, que já foram presos, deverão ser adequadamente punidos pelo Judiciário.
Espero que um dia vejamos rigor semelhante da parte dos que deveriam defender a ciência e o conhecimento, deixando de lado o corporativismo sem sentido que tenta proteger a picaretagem “reumatismo no sangue”.

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