sábado, 9 de janeiro de 2010

HISTÓRIA DE "REUMATISMO" NA FAMÍLIA?

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Para entender as queixas que os doentes apresentam e auxiliar na investigação diagnóstica, os médicos costumam perguntar sobre as doenças da família.
A história de doenças da família fornece informações importantes e algumas vezes decisivas para o diagnóstico de uma doença que esteja começando em alguém da família em questão. Mas as informações são úteis apenas quando dizem respeito a doenças. Mitos e crenças não ajudam o médico; pelo contrário, atrapalham-no.

Tenho observado com frequência médicos recém-formados perguntarem aos doentes se há história de “reumatismo” na família.
Quando a resposta é afirmativa, precisam fazer outra pergunta - Sabe que “tipo de reumatismo” era? - e a resposta que recebem é sempre negativa – Não, não sei!
Pela frequência com que a combinação dessa resposta não esclarecedora ocorre, é de se perguntar porque os médicos insistem em perguntar se há história de "reumatismo" na família.

Os estudantes de medicina aprendem a perguntar sobre a história de doenças da família no terceiro ano da faculdade, momento em que a quantidade de informações que possuem sobre as doenças é muito restrita. Por isso, são ensinados a fazer perguntas “abertas”, que não necessitam de conhecimento especializado, para somente depois procurarem obter mais informações à medida que aumentarem o conhecimento técnico das doenças.
Um exemplo de pergunta “aberta” é : alguém teve ou tem doença do coração? A resposta afirmativa precisa então ser esclarecida pela identificação da doença (insuficiência cardíaca, infarto, miocardite, etc).
Outro exemplo de pergunta aberta é: alguém teve câncer na família? E, se a resposta for afirmativa, qual tipo de câncer ou de qual órgão (linfoma, leucemia, câncer de mama, de próstata, etc)?

À medida que progridem na faculdade e adquirem mais informações sobre as doenças, a necessidade dos estudantes de fazer perguntas “abertas” deveria diminuir, sendo substituída por perguntas dirigidas pelo raciocínio diagnóstico que a queixa apresentada pelo doente em questão suscita. Para os médicos recém-formados, essa mudança é mesmo obrigatória.
Médicos recém-formados estão legalmente aptos para exercer a profissão, mesmo quando não se sentem seguros e procuram na residência médica uma oportunidade para suprir as deficiências de formação que tiveram. Mas os que quiserem - ou os que não tiverem acesso a algum programa de residência médica - poderão entrar diretamente no mercado de trabalho e, para muitos, a porta de entrada é o sistema de saúde.
Os médicos recém-formados em geral acreditam que “reumatismo” é um termo genérico para as doenças das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna e quando perguntam se há história de “reumatismo” na família é isso que querem saber. Mas para a população, “reumatismo” é uma doença que pode nada ter a ver com articulações, ossos, músculos e coluna.
Então, quando um médico pergunta se alguém tem “reumatismo” na família, está criando um problema de comunicação com a pessoa doente porque o significado da palavra “reumatismo” é diferente para o médico e para o doente.

Tenho observado pessoas que, em uma tentativa inocente de facilitar o trabalho do médico, se apressam a informar que o avô, a mãe ou algum outro parente tem ou tinha “reumatismo”, esperando, dessa maneira, fornecer informações úteis para o diagnóstico do que os aflige. Mas quem diz que o avô, a mãe e algum irmão ou irmã “tem ou teve reumatismo” está apenas declarando que é descendente de gerações que desconhecem as doenças que tiveram e que provavelmente foram vítimas de enganação por tanto tempo.

De minha parte, nunca pergunto se há história de “reumatismo” na família. Seja a resposta sim ou não, a informação obtida é sempre inútil. “Reumatismo” não é uma doença, é apenas um mito popular e para mim de nada adianta saber se a pessoa doente acredita ou descende de uma família que acredita em “reumatismo”. Ao contrário de câncer, que é um termo genérico para várias doenças, "reumatismo" não é um termo genérico para as doenças das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna (leia CÂNCER E REUMATISMO - A DIFERENÇA ENTRE TERMO POPULAR E MITO)

O problema de comunicação causado pela crença em “reumatismo” faz com que médicos perguntem se há história de “reumatismo” na família e pessoas que não sabem qual doença o familiar tinha ou tem respondem que sim, para depois acrescentarem que não sabem qual é a doença.
Há algo de idiota em diálogos assim, que servem apenas para reforçar na população a crença em “reumatismo”, cultivando a ignorância e lançando as bases para a exploração por parte dos oportunistas que diagnosticam como “reumatismo” e tratam com injeções de penicilina qualquer queixa de dor musculo-esquelética ou resultado alterado em VHS, proteína C reativa, FAN, fator reumatóide ou ASLO.

Quando estou diante de uma suspeita de gota, pergunto ao doente se há história de gota na família.
Quando estou diante de uma suspeita de artrose, pergunto ao doente se há história de artrose na família.
Quando estou diante de uma suspeita de artrite reumatóide, pergunto ao doente se há história de artrite reumatóide na família.
E assim por diante...
E quando não há suspeita de uma doença em particular, a pergunta aberta que faço é se alguém na família tinha ou tem alguma doença das articulações, dos ossos, dos músculos ou da coluna.
Ao referir-me exclusivamente a doenças em particular, estou procurando transmitir conhecimento científico e, dessa forma, acredito estar combatendo a ignorância, enfraquecendo os mitos que dela vivem.

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Um comentário:

Ana Paula Oliveira disse...

nossa muito boa sua explicação.... hoje fui a um medico e o mesmo me disse que tenho REUMATISMO... fiquei preocupada.. agora ledo esse post ... vou procurar algum que realmente entenda do assunto.