domingo, 17 de janeiro de 2010

O PAPEL DO REUMATOLOGISTA NO SISTEMA DE SAÚDE

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM




A dor musculo-esquelética, ou seja, a dor das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna, como sintoma de apresentação de doenças tão variadas como a depressão, as doenças da tireóide, câncer, doenças degenerativas, doenças infecciosas, doenças metabólicas, doenças inflamatórias e doenças autoimunes, é a causa mais frequente de consultas ambulatoriais de adultos em qualquer sistema de saúde.
Em conjunto, as doenças que se manifestam com dor musculo-esquelética são causas importantes de incapacidade, afetando mais pessoas do que as doenças do coração e o câncer.
O especialista treinado para o diagnóstico e o tratamento clínico da dor musculo-esquelética de origem espontânea (que não foi causada por traumatismo) é o reumatologista.
O papel atual do reumatologista no sistema de saúde é de referência, ou seja, as pessoas somente são encaminhadas para consultar um reumatologista após serem atendidas por outros médicos. Por isso, em geral, quando uma pessoa sente dor musculo-esquelética e procura o sistema de saúde, primeiramente será atendida por um clínico geral.
A estrutura em que os clínicos gerais fazem o primeiro atendimento e os reumatologistas são deixados na retaguarda como referência baseia-se na presunção de que os problemas causados pela dor musculo-esquelética são simples e podem ser resolvidos pelos clínicos gerais e que a finalidade do reumatologista é prestar o atendimento especializado “aos reumatismos”.
Entretanto, como comprovado por estudos feitos em vários países, que mostraram a ineficiência dos médicos em geral para examinar as articulações, a maioria dos clínicos gerais não está preparada para realizar o atendimento à queixa de dor musculo-esquelética. Essa deficiência é resultado da estrutura do ensino médico, que privilegia o estudo das doenças dos órgãos nobres e deixa em segundo plano o estudo do sistema musculo-esquelético e das doenças que o afetam. Como consequência, médicos exaustivamente preparados para realizar o exame físico do coração e do pulmão falham quando precisam examinar detalhadamente o ombro ou o joelho, por exemplo.
Se o exame das articulações for impreciso, qualquer diagnóstico de doença que afete as articulações, os ossos, os músculos e a coluna não será feito em bases sólidas.
Se o diagnóstico for incorreto, o tratamento instituído não será adequado.

A noção existente na saúde pública de que os problemas causados pela dor musculo-esquelética são simples, citada anteriormente, é resultado do senso comum que se desenvolveu como consequência da melhora espontânea de muitos casos. Mas a apresentação dos casos que melhoram espontaneamente e dos que seguem o curso para deformidades e incapacidades geralmente é a mesma, razão pela qual uma abordagem científica do problema não deve ser baseada em tratar todas as pessoas como se fossem melhorar espontaneamente e deixar só as que evoluírem para complicações beneficiarem-se do atendimento com o especialista.
A abordagem científica do problema da dor musculo-esquelética deve ser dirigida para o diagnóstico precoce das doenças incapacitantes. Esse objetivo só será alcançado quando o atendimento inicial à queixa de dor musculo-esquelética for feito por reumatologistas.

Conforme tenho observado, o atendimento inicial prestado pela maioria dos clínicos gerais à queixa de dor musculo-esquelética baseia-se na premissa mitológica de que dor musculo-esquelética é “reumatismo”, portanto a investigação adotada a esse nível resume-se a “fazer exames para ver se é reumatismo” e o tratamento instituído é o “tratamento para reumatismo”.
Se melhorar, caso encerrado; se não melhorar, encaminha-se para o reumatologista.
Os resultados desse modelo de atendimento são o desperdício de recursos com exames desnecessários, a iatrogênese de pessoas com o mito “reumatismo”, perda de tempo, sofrimento e atraso no diagnóstico e tratamento das doenças mais graves.

Como já foi explicado em outros artigos, “reumatismo” não é uma doença, é um mito popular e “reumatismos” não existem. Não existem exames “para ver se é reumatismo” e “tratamento de reumatismo” é picaretagem.
Eliminando-se o mito "reumatismo" da linguagem médica, conclui-se que reumatologia é a especialidade médica que trata das doenças que afetam as articulações, os ossos, os músculos e a coluna, e a dor musculo-esquelética é a apresentação mais comum dessas doenças.
O único papel do reumatologista nesse cenário, portanto, deve ser o atendimento especializado à dor musculo-esquelética e às doenças que a causam. Para isso, é necessário que o reumatologista passe a ser o médico responsável pelo atendimento primário à queixa de dor musculo-esquelética, deixando de ser um profissional de referência.

De minha parte, para tentar realizar alguma mudança nesse sentido, apresentei essa proposição ao Ministério da Saúde. Como foi ignorada, concluí que, para o Ministério da Saúde, o atendimento à dor musculo-esquelética no sistema de saúde deve continuar como está.
Em seguida, apresentei a proposição à Secretaria de Saúde de Curitiba. Como também foi ignorada, concluí que, para a Prefeitura de Curitiba, o atendimento à dor musculo-esquelética no âmbito municipal deve continuar como está.
Há muitos interesses envolvidos nessa questão e os órgãos oficiais esperam que mudanças desse porte sejam apresentadas pelas sociedades de especialistas.
Para a população, é inútil esperar que as sociedades de especialistas, comprometidas com o pensamento antiquado que defende o mito “reumatismo” e esforça-se para manter a organização atual do sistema de saúde, irão tomar a iniciativa de ampliar o mercado de trabalho para o reumatologista e melhorar as condições de atendimento médico à dor musculo-esquelética.
Uma mudança desse porte só pode ser implementada pela própria população, quando se conscientizar do problema da dor musculo-esquelética e da enganação praticada com o mito "reumatismo" e passar a exigir nas conferências e nos conselhos de saúde do SUS que o novo modelo seja adotado pelas autoridades gestoras.
E caberá aos novos reumatologistas, empenhados então apenas no atendimento científico à queixa de dor musculo-esquelética, eliminar definitivamente o mito “reumatismo” da Medicina.

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2 comentários:

Marco disse...

Olá Dr. gostaria de saber se quem toma remedio para reumatismo pode ficar com agua no coraçao? isso pode acontecer? Eu tomo CELEBRA(100mg) e metrexato(2,5mg).
Reumatismo tem cura?
OBS.
*tenho psoriase
*tenho hiportiorordismo.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Marco:
Não existe "remédio para reumatismo". Celebra é um anti-inflamatório e, além da inflamação, serve para aliviar a dor.
Metotrexate é um imunossupressor usado no tratamento do câncer e de doenças autoimunes. Celebra e metotrexate não são "remédios para reumatismo".
"Reumatismo" não é uma doença, é apenas um mito popular, portanto não sei do que você está falando.
Se por "água no coração" você quer se referir a derrame pericárdico (pergunte a quem lhe falou em "água no coração" se quis dizer derrame pericárdico), o hipotiroidismo é uma causa comum de derrame pericárdico.