domingo, 31 de janeiro de 2010

"REUMATISMO" É UM CASO SÉRIO

 LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Em que pese a existência de uma campanha oficial tentando convencer a população de que “reumatismo é coisa séria”, penso que a melhor maneira de expressar a ideia exata a respeito do mito “reumatismo” é afirmar que “reumatismo é um caso sério”.

Em primeiro lugar, “reumatismo”, como mito popular, não pode ser “coisa”. É apenas uma palavra com significados variados que as pessoas usam para várias finalidades: falar de alguma doença que não conhecem, debochar de pessoas com dificuldades de movimentos, debochar da idade de alguém, etc. Na internet há vários exemplos, como “clubes do reumatismo”, “craque reumatismo”, “larga meu pé, reumatismo”, etc, para ilustrar essa abordagem popular satírica da questão.

Mas também há na internet inúmeras ofertas de cura, através de paus, folhas e raízes “milagrosas”, vendidas para “tratamento de reumatismo”, exemplos claros da exploração econômica do mito popular ou, para dizer de maneira mais clara, exploração da ignorância dos que acreditam que “reumatismo” é a doença que têm.

Por outro lado, os senhores antiquados e pomposos que alardeiam a campanha “reumatismo é coisa séria”, insistindo nas afirmações retóricas “reumatismo são mais de cem doenças”, tantam ensinar a população a pensar que diversas doenças podem ser o que ela (a população) chama de “reumatismo” (e eles também).

Essas contradições entre a realidade popular satírica de um lado e picareta do outro, tendo no meio o desejo irracional de uma sociedade de especialistas de impor uma retórica antiquada, pseudo-científica pois desvinculada da realidade física das doenças musculo-esqueléticas (elas não são “reumatismo”: cada doença tem um nome e é por esse nome que ela deve ser conhecida, estudada e combatida), favorecem os interesses dos espertalhões que exploram a noção popular de “reumatismo”, usando essa palavra como um diagnóstico, como se houvesse uma doença cujo nome é “reumatismo” - mas tal doença não existe.

Nessa confusão de conceitos, a exploração econômica de “reumatismo” como diagnóstico pelos espertalhões (infelizmente há médicos que se incluem nesse grupo) é que caracteriza o “caso sério”, e expressa melhor a ideia de caso de polícia que deveria definir o assunto do que a campanha “reumatismo é coisa séria” pretende.

O objetivo de uma campanha de divulgação deve ser esclarecer as pessoas que ignoram determinado assunto.

Dez anos atrás, esses mesmos senhores que agora afirmam que “reumatismo é coisa séria” haviam lançado outra campanha, cujas ideias eram as mesmas - “reumatismos são mais de cem doenças”, “reumatismo se trata com reumatologistas”, etc – embora o patrocínio fosse diferente.

A retórica imposta pelo patrocinador daquela campanha era celebrar as descobertas “espetaculares” que iriam revolucionar a prática da reumatologia as quais, diga-se, eram apenas a descoberta dos inibidores seletivos de COX 2, que prometiam menos úlceras gástricas para as pessoas que precisassem usar anti-inflamatórios de maneira contínua, como a maioria das pessoas com doenças crônicas musculo-esqueléticas precisa.

Bem, o tempo mostrou que as descobertas “espetaculares” não sobreviveram 10 anos ao teste do mercado e os inibidores de COX 2, ou foram retirados do mercado porque estavam associados com risco de morte elevado ou continuaram sendo comercializados de maneira limitada, sujeitos a rígido controle de receituário.

Naquela época, já sabendo que a retórica “reumatismos são mais de cem doenças” e “reumatismo se trata com reumatologistas” era antiquada, inexata, mitológica e não científica, escrevi o editorial REUMATISMOS NÃO EXISTEM, que foi publicado pela Revista Brasileira de Reumatologia graças ao liberalismo do editor de então.

O artigo gerou uma resposta, REUMATISMOS EXISTEM, SIM, escrita por um dos defensores do mito, que afirmou ser a campanha produtiva e que resultaria em “maior número de pessoas procurando o consultório dos reumatologistas”. Bem, se isso tivesse acontecido, não acredito que eles precisariam continuar com as campanhas de esclarecimento. Nos últimos 10 anos, a atual já é a terceira.

Não são necessárias campanhas para divulgar uma especialidade médica.

Cada especialidade médica é única no que faz, mas todas mostram superposição de cuidados. Assim, embora a Reumatologia seja a especialidade cuja ação principal é diagnosticar e tratar as doenças das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna, algumas doenças da pele, dos olhos, dos ouvidos, da boca, do esôfago, do coração, dos pulmões, do cérebro, do fígado, do estômago, dos intestinos, dos rins, da bexiga, da tiróide, das paratiróides, das glândulas suprarenais, da hipófise, enfim, de qualquer órgão, podem se manifestar como dor musculo-esquelética e, por isso, precisarem de avaliação com um reumatologista.

Como uma das sub-especialidades da CLÍNICA MÉDICA, a Reumatologia pode cuidar de doenças de qualquer órgão do corpo. Isso a diferencia bem da especialidade correlata - a Ortopedia - , que trata dos traumatismos e das lesões musculo-esqueléticas, fazendo o tratamento cirúrgico das lesões das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna, mas não das doenças que, afetando outros órgãos, podem causar dor ou lesões musculo-esqueléticas.

Para divulgar uma especialidade médica, é preciso que a linguagem usada no dia a dia – não apenas nas campanhas de divulgação - pelos praticantes dessa especialidade fale de coisas que qualquer pessoa entenda.

Por isso, em vez de tentar ensinar que “reumatismo é coisa séria”, afirmação que é pura retórica e não ensina absolutamente nada, seria mais produtivo alardear que “reumatismo é um caso sério” - um caso de polícia, para ser mais exato – e deixar com os representantes da lei a responsabilidade de acabar com a picaretagem e a exploração econômica do mito “reumatismo”.

Por outro lado, desvinculados do mito, aos reumatologistas caberia realizar o diagnóstico e o tratamento clínico da dor e das doenças das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna, ensinando à população a maneira como fazem isso e porque as pessoas devem sempre procurar um reumatologista quando sentirem dor musculo-esquelética de aparecimento espontâneo, ou, em outras palavras, dor que não seja o resultado de qualquer machucado sofrido no local dolorido.

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