sábado, 27 de fevereiro de 2010

FEBRE REUMÁTICA OU "REUMATISMO NO SANGUE"?

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

 Contém os capítulos especiais

ASLO, FEBRE REUMÁTICA E A INVENÇÃO DO "REUMATISMO NO SANGUE"
e
O DIAGNÓSTICO E O TRATAMENTO DA FEBRE REUMÁTICA




A leitora Luli postou a seguinte dúvida no artigo REUMATISMO NO SANGUE, PICARETAGEM E DEBOCHE:

Dr. Como o site da Sociedade de Pediatria de SP fala que reumatismo no sangue é o mesmo que febre reumática??? http://www.spsp.org.br/spsp_2008/materias.asp?Id_Pagina=20&sub_secao=104


No artigo citado por Luli, “Reumatismo no sangue: mito ou realidade?” os autores afirmam inicialmente: “A febre reumática ou reumatismo no sangue, como é conhecida popularmente...”, e passam a discorrer sobre a doença febre reumática, apresentando fatos sobre a doença.

Febre reumática é uma doença e os fatos científicos a respeito dela são bem conhecidos e aceitos pela comunidade científica.
A questão fundamental a ser discutida aqui não é se febre reumática é uma doença autoimune causada por uma infecção de garganta por estreptococo beta-hemolítico do grupo A de Lancefield; ou se febre reumática causa artrite, cardite, coreia, nódulos ou manchas na pele; ou ainda se o tratamento da doença ativa é feito com anti-inflamatórios e a prevenção com injeções de penicilina benzatina a cada 21 dias. Todos esses fatos estão bem estabelecidos pela ciência.
A questão fundamental a ser discutida por quem se interessa pelo problema de comunicação causado pelo uso de mitos em Medicina é se “reumatismo no sangue” é mesmo o nome popular da febre reumática.
A minha resposta para isso é simples: Não é.

Se “reumatismo no sangue” fosse o nome popular da febre reumática, todas as pessoas que eu atendesse e que me dissessem ter “reumatismo no sangue” deveriam apresentar na história as características clínicas da febre reumática e, ao exame físico, algum dos achados característicos da doença.
Mas a maioria não apresenta.
A maioria das pessoas que atendo e que diz ter “reumatismo no sangue” conta apenas uma história de dores no corpo e usa alguma dosagem aumentada de ASLO ou de outro exame como confirmação para o que afirmam, simplesmente repetindo o que algum profissional disse a elas.
Mas ASLO aumentado não causa dor no corpo e, a maioria das pessoas que afirmam ter “reumatismo no sangue” e têm ASLO aumentado, não têm febre reumática.
A verdade sobre elas é que a causa das dores não foi descoberta e a elevação de ASLO foi usada para dizer que é “reumatismo no sangue”, na ausência dos sintomas da febre reumática.
Por isso, “reumatismo no sangue” não é o nome popular da febre reumática.

Se “reumatismo no sangue” fosse o nome popular da febre reumática, todas as pessoas que eu atendesse e que me dissessem ter “reumatismo no sangue” deveriam estar usando as injeções de penicilina na periodicidade recomendada para prevenir novas infecções por estreptococo e, dessa maneira, prevenir os novos surtos de atividade de febre reumática.
Mas a maioria não faz isso.
A maioria das pessoas que atendo e que diz ter “reumatismo no sangue” usa injeções de penicilina para “tratamento” de dores no corpo.
Quando sentem dores, vão à farmácia e pedem uma injeção de penicilina - e fazem isso tantas vezes quantas forem necessárias, de acordo com o que acreditam ser necessário para “tratar” o “reumatismo no sangue”, não para prevenir novas infecções por estreptococo nem febre reumática.
Por isso “reumatismo no sangue” não é o nome popular da febre reumática.

Se “reumatismo no sangue” fosse o nome popular da febre reumática, todos os profissionais que dizem às pessoas que elas têm “reumatismo no sangue” deveriam dizer isso apenas quando fizessem o diagnóstico de febre reumática e deveriam recomendar o uso das injeções de penicilina na frequência necessária para a prevenção da doença.
Mas isso não acontece.
A maioria dos profissionais que usa a expressão “reumatismo no sangue” faz isso quando se depara com resultados alterados de ASLO, FAN, fator reumatóide, VHS ou proteína C reativa, em pessoas com queixa de dor musculo-esquelética, sem levar em consideração que essas pessoas não apresentam as manifestações clínicas da febre reumática.
Esses profissionais fazem as pessoas acreditar que o ASLO aumentado é o “reumatismo no sangue”, que o FAN positivo é o “reumatismo no sangue”, que o fator reumatóide positivo é o “reumatismo no sangue”, que o VHS aumentado é o “reumatismo no sangue”, que a proteína C reativa aumentada é o “reumatismo no sangue”, o que é absurdo.
Mas a maioria das pessoas que sente dor musculo-esquelética e apresenta ASLO aumentado, FAN positivo, fator reumatóide positivo, VHS aumentado ou proteína C reativa aumentada apresenta alguma outra explicação para as dores, não febre reumática, e o que se vê é que a verdadeira explicação não foi descoberta pelos profissionais que disseram ser “reumatismo no sangue”.
Além disso, esses profissionais receitam injeções de penicilina das mais variadas maneiras - diárias, a cada 2, a cada 3, a cada 5,7 ou 15 dias, etc - sem levar em consideração que o tratamento da infecção por estreptococo se faz com uma única injeção e a prevenção da febre reumática com injeções a cada 21 dias.
Por isso, ao contrário do que diz o artigo no site da Sociedade de Pediatria de SP, “reumatismo no sangue” não é como a febre reumática é popularmente conhecida.

“Reumatismo no sangue” é um mito a respeito da dor musculo-esquelética e, como em todo mito sobre doenças, alguns fatos sobre doenças são modificados pelos aspectos culturais das pessoas envolvidas para criar uma explicação imaginária para determinado aspecto da realidade.

No caso do mito “reumatismo no sangue”:
- a realidade a ser explicada é a dor musculo-esquelética que as pessoas sentem;
- os fatos sobre doenças são os resultados dos exames usados para fundamentar a explicação a ser criada;
- os aspectos culturais das pessoas envolvidas são a ignorância dos profissionais que as atendem e, por parte das pessoas que sentem dor, a crença no mito como explicação;
- e a explicação imaginária é o próprio mito - “reumatismo no sangue”.

Assim, em vez de perguntar para mim “como o site da Sociedade de Pediatria de SP fala que “reumatismo no sangue” é o mesmo que febre reumática”, você deveria perguntar para a Sociedade de Pediatria de SP porque eles dizem isso, já que a maioria dos profissionais diz “reumatismo no sangue” para pessoas que não têm febre reumática.

É para evitar confusões assim que o médico não deve misturar ciência – febre reumática – com mito - “reumatismo no sangue”.
Se fizer o diagnóstico de febre reumática, o médico deve dizer simplesmente que a pessoa tem febre reumática e explicar que doença é essa. Sempre. Sem recorrer a mitos.

Qualquer profissional, incluindo aí balconistas de farmácia e atendentes de enfermagem de postos de saúde, pode dizer a alguém com dor musculo-esquelética que apresente ASLO aumentado que a pessoa tem “reumatismo no sangue”. Não é preciso ser médico para dizer isso mas, infelizmente, alguns médicos também fazem isso.
Mas dizer a alguém que sente dor musculo-esquelética e tem ASLO aumentado que o ASLO aumentado nada tem a ver com a dor, que a dor na verdade é causada por fibromialgia ou hipermobilidade ou leucemia ou artrite reativa ou hepatite viral ou depressão ou obesidade, enfim, por qualquer doença que seja identificada ao exame físico de quem apresenta o ASLO aumentado, é conhecimento científico especializado que quem possui é o reumatologista.

Se você consultar a página da Sociedade Brasileira de Reumatologia http://reumatologia.com.br/index.asp?Pagina=noticias/noticia.asp&IDNoticia=49, que trata de mitos e fatos em Reumatologia, verá que a Sociedade Brasileira de Reumatologia já repete muitas das afirmações que faço no blog, inclusive a de que “reumatismo no sangue” é um mito.
Por isso, gostaria de um dia ver também o site da Sociedade de Pediatria de SP ser atualizado para corrigir a afirmação “reumatismo no sangue é como a febre reumática é conhecida popularmente”, porque tal afirmação não é verdadeira.

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