domingo, 7 de março de 2010

"REUMATISMO": CONSAGRADO... PELO USO OU PELA OMISSÃO?





“Repetida com frequência suficiente,
até mesmo uma mentira acaba sendo aceita como verdade”.
Lenin


Na semana passada, no artigo FEBRE REUMÁTICA OU "REUMATISMO NO SANGUE"?, citei a página da Sociedade Brasileira de Reumatologia que trata de mitos em Reumatologia para mostrar que a sociedade dos especialistas já repete muitas das afirmações que tenho feito no blog a respeito do mito “reumatismo no sangue”.
Entretanto, na página citada, a Sociedade Brasileira de Reumatologia também afirma que “reumatismo” é um termo popular consagrado para se referir a alguma das muitas doenças que podem ter manifestações no sistema musculo esquelético.

Para os leitores do blog, gostaria de chamar a atenção para as conclusões que podem ser tiradas da leitura dessa afirmação:

Em primeiro lugar, a própria Sociedade Brasileira de Reumatologia reconhece “reumatismo” como um “termo popular”, logo não é um termo científico que dê nome a doenças ou a processos biológicos causadores de doenças, como tenho dito aqui no blog.
Em segundo lugar, a Sociedade Brasileira de Reumatologia considera que o “termo popular” “reumatismo” está “consagrado para se referir a alguma das muitas doenças que podem ter manifestações no sistema musculo esquelético”.
A expressão “consagrado para se referir a alguma coisa” significa que alguém consagrou o termo popular para tal finalidade, razão pela qual é importante tentar descobrir quem foi o autor de tal proeza e também se havia razão para isso. Além disso, se o termo foi consagrado, significa que antes da consagração já era usado com a mesma finalidade.

Para mim, os mitos só estão consagrados no folclore, nunca na ciência. Da ciência, de fato, devem ser eliminados.

Na história da humanidade, a ciência foi desenvolvida justamente como uma maneira de explicar os fenômenos naturais sem recorrer ao sobrenatural (aos mitos). Por isso, quem defende a preservação de mitos na ciência, vai contra o princípio fundamental do pensamento científico.
Todos os fenômenos naturais são resultados das ações de forças físicas, químicas e biológicas que podem ser verificadas laboratorialmente. Por isso, qualquer explicação que não possa ser comprovada laboratorialmente é mitológica e deve ser abandonada.
Medicina é uma ciência e a linguagem que nela é usada deve ser fundamentada em fatos científicos, não em mitos.
A prática da Medicina, contudo, na verdade existe apenas na intimidade do relacionamento entre duas pessoas – o médico e o doente – e, por isso, admite soluções e explicações de momento, que muitas vezes não têm base científica, mas que, mesmo quando dão certo, não devem servir de justificativa para a prática sem base científica e, principalmente, não devem ser usadas para transmitir explicações mitológicas para a população, apenas porque os mitos usados na explicação são considerados consagrados pelo uso ou pelo tempo.
Mitos consagrados pelo uso ou pelo tempo nunca foram reconhecidos como mitos e só por isso foram consagrados. Se tivessem sido reconhecidos, não teriam sido consagrados.
Se foram reconhecidos e ainda assim foram consagrados, é porque seduziram os que os reconheceram a ponto de levá-los a omitir-se da obrigação científica de eliminar os mitos da prática da ciência.
A Medicina é uma ciência a serviço do doente e é o interesse do doente que deve prevalecer na escolha do que deve ser feito em seu benefício.
Para o doente interessa saber apenas qual doença ele tem e só aceita “reumatismo” como explicação para as doenças quando tal explicação é dada por médicos ou por entidades formadas por médicos.
Portanto, a consagração de “reumatismo” como termo popular usado para se referir a diversas doenças foi feita justamente pelos médicos, não pelo povo.
Por isso, cabe aos médicos e às suas sociedades de especialistas ter a humildade de reconhecer e desfazer esse equívoco, eliminando definitivamente o mito da linguagem científica.
Quando isso acontecer, os oportunistas que dizem “isso é reumatismo”, solicitam exames para “ver qual o tipo de reumatismo”, receitam “fórmulas para reumatismo” juntamente com injeções de penicilina para “tratar” a dor musculo-esquelética, como ainda se vê em muitas cidades do interior do país e até mesmo nas capitais, não serão mais confundidos com os verdadeiros especialistas, os reumatologistas, que diagnosticam e tratam baseados no conhecimento científico, embora a palavra que os defina - reumatologistas - também sugira à população que são especialistas em “reumatismo”, razão pela qual precisa ser abandonada.



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