domingo, 28 de março de 2010

SINCRETISMO PSEUDO-CIENTÍFICO - UMA CONTRIBUIÇÃO DA REUMATOLOGIA PARA O ENRIQUECIMENTO CULTURAL DA HUMANIDADE

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISEM

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Sincretismo é o nome que se dá ao fenômeno que mistura aspectos diferentes de diversas manifestações culturais para criar uma nova forma de expressão religiosa, filosófica ou artística.
No Brasil, o sincretismo religioso é especialmente comum na Bahia, onde crenças do candomblé e de outras religiões africanas estão misturadas com as crenças tradicionais da religião católica.
Exemplos de sincretismo podem ser encontrados em qualquer manifestação cultural e em geral são motivados pela necessidade de acomodar interpretações diversas da realidade (no caso das religiões) ou pelo desejo de produzir novas formas de expressão, como na literatura ou na música, casos em que geralmente há enriquecimento cultural com o aparecimento do sincretismo.
Na ciência, contudo, não há lugar para sincretismo ou, pelo menos, não deveria haver.
Como fenômeno cultural, o sincretismo surge da fusão de conceitos e crenças que, por serem expressos através de palavras, estão sujeitos a serem modificados segundo a vontade de cada um.
A verdadeira ciência não tem lugar para sincretismo porque a linguagem científica expressa fatos que podem ser comprovados experimentalmente e uma linguagem que descreve fatos não deveria ser modificada segundo a vontade de cada um.
Não deveria, mas algumas vezes é...

Sincretismo pseudo-científico é o nome que dou à fusão de conceitos científicos para formular um conceito mitológico destinado a enganar as pessoas.
O formulador do sincretismo pseudo-científico é um profissional que não sabe do que está falando, mas que quer dar a impressão de que sabe alguma coisa.
A Reumatologia brasileira tem contribuído com o enriquecimento da cultura nacional ao tolerar o sincretismo pseudo-científico que resulta da mistura de fatos sobre amigdalite estreptocócica e febre reumática, catalisada pela ignorância a respeito do exame ASLO, pela crença nos mitos “reumatismo” e “reumatismo no sangue”, e pelo oportunismo de alguns profissionais que querem explorar a boa fé da população.

“Se ficar com o ASLO aumentado muito tempo você terá problemas no coração”; “ASLO aumentado é “reumatismo no sangue”; “reumatismo no sangue” causa problemas no coração” são exemplos de sincretismo pseudo-científico.

Os conceitos científicos existentes nessas afirmações são ASLO (sigla para o exame de pesquisa de anti-estreptolisina O no sangue - leia PARA QUE SERVE O EXAME ASLO) e problemas no coração.
Apresentados em conjunto, ASLO e problemas no coração imediatamente trazem à mente esclarecida as ideias de amigdalite estreptocócica e febre reumática, mas a distância que existe entre o sincretismo pseudo-científico (se ficar com o ASLO aumentado muito tempo você terá problemas no coração) e a realidade científica (febre reumática, que é desencadeada por uma amigadalite estreptocócica, pode causar problemas no coração) é enorme.

Em primeiro lugar, aumento do ASLO é uma consequência da amigdalite estreptocócica (ou de qualquer outra infecção por estreptococo produtor de estreptolisina) e, em quem teve amigdalite, a elevação do ASLO mostra que a amigdalite foi causada por estreptococo.
Em segundo lugar, ASLO aumentado não significa febre reumática, pois a maioria das pessoas que tem ASLO aumentado não tem febre reumática. É preciso ter predisposição genética para ter febre reumática e a maioria das pessoas não tem. Por isso, apenas poucas pessoas que tiverem amigdalite por estreptococo desenvolverão febre reumática, enquanto todas as pessoas que tiverem amigdalite por estreptococo poderão apresentar aumento de ASLO.
Em terceiro lugar, amigdalite por estreptococo, que aumenta o ASLO, não causa problemas no coração. O que causa problemas no coração é a febre reumática, que é outra doença.
Em quarto lugar, ASLO aumentado não causa problemas no coração, qualquer que seja o aumento e qualquer que seja o tempo pelo qual o ASLO permaneça aumentado. De fato, ASLO aumentado não é um problema de saúde e, em quem não tem sintomas, deve ser ignorado.

Então, o conceito científico correto é “ASLO aumentado muito tempo não causa problemas no coração”.

Mas o sincretismo pseudo-científico atribui à elevação do ASLO, causada por uma infecção de garganta por estreptococo, a capacidade de causar problemas no coração - que é uma característica da febre reumática -, mesmo quando a pessoa não tem febre reumática.
Em quem não tem febre reumática, qualquer valor de ASLO não causa nenhum problema no coração e, em quem tem febre reumática, os problemas no coração podem acontecer até com ASLO normal (isso porque apenas 80% das pessoas com febre reumática apresentam ASLO aumentado).

O sincretismo pseudo-científico, mesmo quando absurdo, por ser dito por um profissional médico, que supostamente tem autoridade para falar de doenças, faz as pessoas de boa fé acreditarem em uma afirmação não comprovada pela ciência, ou pior, acreditarem em uma afirmação que a ciência já mostrou ser falsa, sujeitando-as a serem enganadas.

Da mesma forma, todas as afirmações contendo as palavras “reumatismo” e “reumatismo no sangue”, baseadas nos resultados dos exames ASLO, VHS, FAN, fator reumatóide e proteína C reativa, são exemplos de sincretismo pseudo-científico e têm sido toleradas culturalmente, juntamente com o mito "reumatismo", que dá origem a todas essas crenças e sincretismos.

A crença popular no mito “reumatismo” é o terreno em que prolifera a ignorância sobre as doenças que causam dor musculo-esquelética, por isso serve de meio propício para os oportunistas e charlatães explorarem o medo das pessoas vendendo “exames para reumatismo”, “remédios para reumatismo”, “fórmulas para reumatismo”, etc.

O lugar dos mitos é no folclore, por isso a palavra “reumatismo” deveria ser banida da ciência, juntamente com todas as palavras que dela são derivadas, como “reumática”, “reumatóide”, “reumatologia” e “reumatologista”.

Artrologia é um nome melhor para a especialidade que trata da dor e das doenças das articulações, dos ossos, dos músculos e da coluna. Na Artrologia, não há lugar para o mito “reumatismo” nem para “doenças reumáticas”.

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