domingo, 30 de maio de 2010

SAF ou SÍNDROME ANTIFOSFOLÍPIDES ou POR QUE CONSULTAR UM REUMATOLOGISTA DEPOIS DE SOFRER UM ABORTO?

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM





As mulheres geralmente ficam surpresas quando são orientadas pelos ginecologistas a consultar um reumatologista depois de sofrerem um aborto.
Raciocinando mitologicamente, as mulheres relacionam imediatamente reumatologista com “reumatismo”, baseando-se apenas na semelhança entre as palavras.
Através da palavra “reumatismo”, chegam a ideias como “juntas tortas”, “doença de velho” e muitas outras crenças que nascem da ignorância popular a respeito do que é a reumatologia e do que faz um médico-reumatologista.
A conclusão alcançada através do raciocínio mitológico não as ajuda em nada a entender porque precisam consultar um reumatologista.

O reumatologista é o especialista nas doenças que causam dor nas articulações, nos ossos, nos músculos e na coluna e a principal razão para consultar um reumatologista é a dor musculo-esquelética. Mas não é a única.
Muitas vezes o reumatologista é chamado quando há suspeita de doenças autoimunes porque muitas das doenças que causam dor musculo-esquelética são autoimunes e porque o reumatologista tem experiência no tratamento de doenças autoimunes que, além de dor musculo-esquelética, causam manifestações em outros órgãos.

Doenças autoimunes são aquelas em que o organismo produz autoanticorpos - substâncias de defesa dirigidas contra as estruturas do próprio organismo (para mais esclarecimentos sobre autoanticorpos e doenças autoimunes leia PARA QUE SERVE O EXAME FATOR REUMATÓIDE).
As manifestações clínicas das doenças autoimunes dependem das substâncias, das células ou dos órgãos contra os quais são dirigidos os autoanticorpos.
Na prática, qualquer tipo de sintoma clínico pode ser produzido pelas doenças autoimunes, indo de alterações visuais leves a cegueira, de lesões de pele pequenas a necrose de membros inteiros, de artrite em uma só articulação a dores no corpo todo, de irregularidades na menstruação a problemas na gravidez e abortos de repetição. Tudo depende de qual substância, qual célula, qual órgão será o alvo dos anticorpos patogênicos.

SAF ou síndrome antifosfolípide é uma doença autoimune em que há produção de anticorpos contra várias substâncias químicas chamadas de fosfolípides.
Os anticorpos mais utilizados no diagnóstico da síndrome antifosfolípide são a anticardiolipina e o anticoagulante lupus.
No nosso meio, a expressão “anticoagulante lúpico” tem sido usada com mais frequência, mas é um erro de tradução pois, na expressão inglesa original - lupus anticoagulant -, a palavra “lupus” é apenas o nome do anticoagulante. Para dar sentido à tradução, não é preciso adjetivar o nome. Portanto, a melhor tradução é simplesmente anticoagulante lupus.
Os anticorpos antifosfolípides, como todos os autoanticorpos, podem ser encontrados em pessoas normais.
O que caracteriza a doença não é a presença do autoanticorpo, é a manifestação clínica que a doença produz.
Quando ocorre a manifestação clínica, a presença do autoanticorpo é usada para o diagnóstico.
Na ausência da manifestação clínica, a presença do autoanticorpo é apenas um fator de risco para o aparecimento da doença autoimune, que pode ou não aparecer, dependendo das circunstâncias; a simples presença do autoanticorpo não significa que a doença está presente.

A principal consequência da síndrome antifosfolípide é a trombose – coagulação do sangue dentro das artérias e veias (em situações normais, o sangue não coagula dentro das artérias e veias).
Quando ocorre uma trombose, o sangue não passa pelo local afetado. Se for uma trombose de veia, haverá acúmulo de sangue atrás do local da trombose; se for uma trombose de artéria, haverá falta de sangue adiante do local da trombose.
A trombose pode ocorrer em qualquer veia ou artéria e as manifestações clínicas dependem do local onde ocorrer, podendo ser tanto trombose venosa superficial leve nas pernas e braços quanto graves necroses de extremidades inteiras, acidentes vasculares cerebrais e infartos do coração e de outros órgãos.

Nas mulheres grávidas, a síndrome antifosfolípide pode causar trombose nos vasos sanguíneos da placenta e, por isso, pode provocar a perda da gravidez.
Quando ocorre trombose na placenta, a circulação do sangue diminui e o oxigênio que é levado para o bebê também diminui. Com pouco oxigênio, o bebê pode morrer.
A forma mais típica de perda da gravidez por SAF é o óbito fetal tardio: A gravidez está indo bem, aproximando-se do momento do parto. Um dia, sem nenhum aviso, a mãe apenas percebe que o bebê para de se mexer. A morte do feto interrompe silenciosamente uma gravidez que, até aquele momento, era considerada normal.

Além do óbito fetal tardio, que ocorre no final da gravidez, SAF pode causar aborto a qualquer momento, até mesmo no início da gravidez.
A menos que a causa seja descoberta e tratada, os abortos tendem a se repetir.
SAF tem tratamento e mulheres que já tiveram abortos podem ter uma gravidez normal se forem tratadas.
Na SAF, a gravidez é de alto risco, mas o conhecimento atual geralmente consegue levá-la até o final, permitindo o nascimento de uma criança saudável.

SAF pode ser uma doença isolada (a única doença que a pessoa tem), mas também pode acontecer junto com outras doenças autoimunes, principalmente o lupus eritematoso sistêmico.
O obstetra que descobre que uma gestante tem síndrome antifosfolípide geralmente pedirá a avaliação de um reumatologista para saber se a mulher tem lupus sistêmico ou alguma outra doença autoimune junto com a SAF.
Quem tem o diagnóstico de SAF precisa fazer avaliação com um reumatologista para saber qual é a extensão do fenômeno autoimune e descobrir se, além da SAF, tem outra doença autoimune que precise ser tratada.
Não é para saber se “tem reumatismo” pois “reumatismo” não é uma doença, é apenas um mito popular.

-->

21 comentários:

KARINA disse...

Dr.....parabéns pela maneira fácil com que explica coisas que são tão complexas pra nós (mães)que já perdemos nossos filhos.....
Pq todo médico não é assim...descomplicado?
Li muito sobre esses assuntos.....mas o texto que mais me informou e ao mesmo tempo me deu alívio foi este!!!!!
Deus te abençoe e te de cada vez mais energia e inteligencia pra continuar escrevendo e confortando a todos!
karina

Liliam disse...

Parabens pela linguagem clara e objetiva com a qual tem se expressado,pois tem me ajudado a entender um pouco dos muitos problemas q venho enfrentando e me dando certeza de que devo, urgentemente, procurar um reumatologista!Fico feliz em saber que posso melhorar minha qualidade de vida!! Obrigada! Líliam

kakay disse...

Dr.luiz. gostaria de parabeniza-lo pelo blog, matérias muito bem escritas que esclarecem muito. Minha dúvida é a seguinte, tenho tireoide de hashimoto, fan positivo 1:640 pontilhado fino denso, anticoagulante lupico positivo no teste de veneno de cobra e negativo no silica, depois de um ano refiz e deu o contrário, veneno negativo e silica positivo. Tive um aborto retido há dois anos com 8 semanas, agora estou tentando engravidar novamente. Gostaria de saber se o anticoagulante lupico dando positivo e negativo é indicação de heparina na gravidez e qual seria a dosagem recomendada?. Nunca tive eventos trombóticos. Desde já agradeço. Maria

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Kakay:
O diagnóstico de SAF não pode ser feito com as informações que você escreveu.
Sugiro que consulte um reumatologista para avaliar adequadamente o seu caso.

Nati Brito disse...

Dr.Luiz, anticardiolipina não reagente, e anticoagulante lupico ausente nos dois tipos de teste, excluem a possibilidade de ser SAF?
obrigada!

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Nati Brito:
Não excluem.
Anticardiolipina e anticoagulante lupus não são exames para excluir, são para diagnosticar, o que significa que o único resultado importante é o positivo. Se houver um quadro clínico adequado e o resultado dos exames for positivo, o diagnóstico pode ser feito. Essa é a característica dos exames "específicos".
Exames usados para excluir doenças são chamados de "sensíveis". Exames sensíveis excluem doenças mesmo quando o quadro clínico está presente mas o resultado dos exames é negativo.
Anticardiolipina e anticoagulante lupus são exames específicos, por isso só têm utilidade quando são positivos. O resultado negativo não tem importância.

Rebeca. disse...

Dr. Luiz, obrigada por sua atenção, por estar aberto a nos orientar, e falar sobre esse assunto tão difícil que estamos tendo que enfrentar, parabéns por sua conduta e por suas palavras... eu gostaria de poder compartilhar e também de ter mais uma opinião sobre o meu caso e se o SR. puder me ajudar ficarei eternamente grata. Eu tive TVP seguida de tromboembolismo pulmonar quando eu tinha 25a. fiquei 3a. fazendo vários exames para pesquisar a trombofilia, e realmente deu positivo. Eu tenho SAF, engravidei em junho/12 e perdi o bebê com 8 semanas, foi um aborto espontâneo e retido. estava tomando clexane de 60 uma vez ao dia e durante 3 semanas tomei também o AAs, mas depois parei porque tive sangramento e a dra. achou melhor interromper com ele e ficar por enquanto só com o clexane. Após perder o bebê, uma GO me falou que é muito comum ter perda do feto até o 3o mês e que a princípio não teria haver com a SAF, já que eu estava fazendo o tratamento correto, e para o sr. o que acha disso tudo? Eu já nem sei mas o que pensar... mas também não consigo arrancar do meu peito essa vontade de ter o meu bebe, entende? Agradeço desde ja a sua atenção e que Deus esteja sempre com o sr. e iluminando a sua vida!!! REBECA.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Rebeca:
O óbito fetal causado pela SAF geralmente ocorre no terceiro trimestre, mas abortos no início da gestação também podem ocorrer - nesses casos há outras explicações possíveis, como a GO orientou. Se for o primeiro aborto, a possibilidade de ser devido a SAF é pequena; se houve repetição, é maior.
Se é importante ter um bebê, você pode tentar, ciente de alguns fatos: a gravidez deve ser planejada com um obstetra especializado em gravidez de alto risco. Gravidez em quem tem SAF é sempre de alto risco e embora na maioria dos casos o tratamento possa levar a gravidez a termo, com o nascimento de um bebê saudáve, a possibilidade de aborto no início da gravidez, óbito fetal tardio, outras complicações do parto e do pós-parto existem, mesmo com o tratamento correto. É uma questão de aceitar correr o risco conscientemente por causa do benefício a ser conseguido.
Boa sorte

Rebeca. disse...

Boa noite, dr.
Obrigada por suas palavras, estou ciente dos riscos, mas como falei, também não consigo parar de pensar no meu filho, então estarei sendo acompanhada por médicas maravilhosas, e como o sr. disse eu posso ter perdido o bb por um outro motivo e não pela SAF, entao eu vou tentar, e obrigada por estar sempre nos respondendo e nos conduzindo a pensar em tudo antes de fazer algo tão importante... obrigada!!!!

Janaina Silmara disse...

Olá, tive uma parto prematuro por diminuição de líquido amniótico, na biópsia de minha placenta apareceram trombos, estou sendo acompanhada por uma hematologista, e um dos exames para anticoagulante lúpico deu positivo. Você acha que o acompanhamento com hematologista é suficiente? Ou devo procurar um hematologista?

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Janaína:
Presumo que você pretendia perguntar se precisa consultar um reumatologista.
Placenta com sinais de trombose e anticoagulante lupus positivo, embora não permitam fazer nenhum diagnóstico, são sugestivos de SAF, por isso é preciso também fazer avaliação com um reumatologista.

Catia Coelho disse...

Boa tarde.
Tive um aborto tardio ás 28 semanas foi me diagnosticado SAF.
Quero muito ser mãe mas tenho medo.
Quais são os riscos que corro em tentar de novo? O meu GO falou me que tenho de tomar heparina+aspirina durante toda a gravidez e vigiar a parte renal.
Não percebi o porquê de vigiar o funcionamento dos rins, pode me explicar?

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Catia:
Sugiro que faça a pergunta ao seu GO,
Se o diagnóstico for apenas SAF, não vejo razão para considerar o cuidado com os rins como parte do tratamento da SAF, embora seja parte do tratamento de rotina de qualquer gravidez, mesmo em quem não tem SAF.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Paula:
Se foi a primeira perda gestacional, não é possível diagnosticar SAF com esses dados e pode ter sido apenas uma complicação da gravidez (eclâmpsia é uma doença própria da gravidez que pode causar óbito fetal e é diferente de SAF). Sugiro que aguarde as consultas com os especialistas.

Francisco disse...

Dr. Luiz Cláudio.
Gostei muito dessa sua explicação e tomei a liberdade de trancrevê-la (com o devido crédito e link) em nosso grupo no Facebook.
Aproveitando, sempre surgem dúvidas a respeito da SAF e , lá no grupo, temos algumas perguntas/dúvidas. Gostaria de saber se posso enviá-las , via email, ao senhor para tentar elucidar essas dúvidas que são de todos nós lá.
Obrigado.
Francisco Jardim.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Francisco:
Agradeço pela divulgação e estou disponível para avaliar as dúvidas. Embora não possa garantir que responderei a todas, tentarei ajudar da melhor forma possível através dessa forma moderna de trocar informações.

cidinha virgilio disse...

Boa tarde Dr. Luiz
Gostaria de saber , por gentileza, a diferença entre Presença ou Ausência de Anticoagulante Lupico.
Grata

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Cidinha:
A "presença" significa que o resultado é positivo, a "ausência" significa que é negativo.
A presença do anticoagulante lupus é um dos itens necessários para o disgnóstico de SAF, mas o exame positivo não significa SAF - é preciso também que haja sintomas de SAF para o diagnóstico ser feito. É possível ter SAF com o exame negativo e também é possível não ter mesmo com o exame positivo.

Blog Antonio Secundo disse...

Pessoas normais podem apresentar anticorpos fosfolipides? Não entendi essa parte.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Antonio:
Ter anticorpo antifosfolípides não significa ter a síndrome antifosfolípide.
A síndrome antifosfolípides são os sintomas que ocorrem quando a presença do anticorpo está causando doença, mas há pessoas que têm o anticorpo e não apresentam a síndrome. Ou seja, é possível ter o anticorpo e não ter a doença. Por isso, o anticorpo pode ser encontrado em pessoas normais.

Blog Antonio Secundo disse...

Obrigado pela resposta. Estou fazendo testes complementares para saber se há trombofilia ou não. A Anticardiolipina igg apareceu nos meus exames de sangue.Estou sendo avaliado por um hematologista. Mais uma fez obrigado!