domingo, 1 de agosto de 2010

FAN NEGATIVO

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

Contém capítulo especial sobre o FAN




O diagnóstico de lupus eritematoso sistêmico (lupus sistêmico) é sempre clínico.
Diagnóstico clínico significa o diagnóstico feito pela integração dos dados clínicos – dados da história do doente e dos achados do exame físico – com os resultados dos exames laboratoriais.
A história e o exame físico do doente são métodos de investigação tão úteis como os exames de laboratório, mas nem os dados da história isolados, nem os achados do exame físico isolados, nem os resultados dos exames laboratoriais isolados são suficientes para fazer o diagnóstico de lupus sistêmico. Entretanto, quando analisadas em conjunto, as informações obtidas pelos vários métodos de investigação clínica (história, exame físico e exames de laboratório) formam a base científica do diagnóstico clínico.

Portanto não existe nenhum exame de laboratório que isoladamente faça o diagnóstico de lupus sistêmico, ao contrário do que dizem os profissionais que, ao ver um resultado positivo de FAN, afirmam: “É lupus”.
FAN positivo não significa lupus.

E FAN negativo, o que significa?
Já disse em outro local que FAN negativo significa que NÃO É LUPUS (leia NÃO É LUPUS ou PARA QUE SERVE O EXAME FAN). Hoje vou tentar ampliar o significado dessa afirmação.

O resultado do exame FAN pode ser interpretado de duas maneiras: 1) estatisticamente; 2) clinicamente.
Quando analisamos o resultado do exame estatisticamente, analisamos apenas o valor absoluto do resultado - positivo ou negativo.
Sabemos de estudos epidemiológicos que, das pessoas que sabidamente têm o diagnóstico de lupus sistêmico, 1% pode apresentar FAN negativo. Estatisticamente, esse dado significa que a chance de ser lupus sistêmico quando o FAN é negativo é apenas 1%.
É preciso ressaltar que 1% de FAN negativo em pessoas com lupus sistêmico é uma informação obtida de estudos epidemiológicos que pesquisaram o resultado do FAN em pessoas cujo diagnóstico de lupus sistêmico já era conhecido.
Portanto, estatisticamente podemos concluir que existem pessoas com lupus sistêmico que apresentam FAN negativo pois, para 100 pessoas com diagnóstico de lupus sistêmico, é esperado que uma delas tenha o FAN negativo. Clinicamente, contudo, essa informação tem pouca importância.
Observe que a interpretação estatística do resultado do exame só é possível DEPOIS de conhecer o diagnóstico: 1% foi o percentual de pessoas com o diagnóstico de lupus sistêmico que apresentaram FAN negativo, ou seja, um grupo de pessoas com o diagnóstico de lupus sistêmico foi analisado para ver quantas eram positivas e quantas eram negativas para o exame FAN.
A análise de dados epidemiológicos como esse é que fornece o significado estatístico do exame.

Mas quando queremos saber se alguém que ainda não tem nenhum diagnóstico tem lupus sistêmico precisamos interpretar o exame de maneira diferente; precisamos interpretar o exame clinicamente.
Em outras palavras, partindo dos dados clínicos do doente, precisamos interpretar o resultado do exame para saber se a pessoa tem o diagnóstico ou não.

Alguém poderia pensar que, se em 100 pessoas com o diagnóstico de lupus sistêmico 1 apresenta FAN negativo, então a lógica diria que em 100 pessoas com o diagnóstico de lupus sistêmico 99 apresentam FAN positivo, o que é verdade. Esse é o significado estatístico do exame e é simples e direto. Entretanto, o significado clínico desses dados não é tão simples nem direto como parece.

Estatisticamente, quando analisamos o resultado do exame em pessoas com o diagnóstico conhecido, a única informação que podemos obter diretamente é que, se em 100 pessoas com a doença, apenas 1 tem o exame negativo, a chance de TER a doença quando o exame é negativo é de 1%, o que é equivalente a dizer que, se o exame for negativo, a chance de NÃO TER a doença é de 99%.
Mas o que as pessoas querem realmente saber é qual a chance de ter a doença quando o exame é positivo?
Baseando-se nos dados acima, alguém afoito poderia responder prontamente que é de 99%, mas estaria enganado.

A chance de ter a doença quando o exame é positivo só pode ser avaliada conhecendo o número de pessoas sem a doença que também tem o exame positivo e, no próximo artigo, apresentarei os dados estatísticos que regem a interpretação do resultado positivo.
Veja que, para saber o significado do exame positivo precisamos conhecer quantas pessoas sem a doença têm o exame positivo mas, para saber o significado do exame negativo, precisamos saber apenas quantas pessoas com a doença têm o exame negativo, dado estatístico que já é conhecido. Ao contrário do exame positivo, para saber o significado do exame negativo não precisamos conhecer o número de pessoas sem a doença que também tem o exame negativo, pois essa informação é inútil, já que queremos usar o exame para diagnosticar uma doença (identificar quem tem a doença) e não para identificar quem não tem.

Reconheço que há necessidade de algum conhecimento matemático para entender perfeitamente esses dados e, considerando o número de pessoas a quem foi dito “é lupus” apenas porque o FAN foi positivo, parece que, atualmente, muitos profissionais de saúde não possuem esse conhecimento.
“FAN positivo é lupus” não é uma afirmação com base científica.
A afirmação científica para o resultado positivo é: “FAN positivo pode ser lupus”, mas são necessários outros dados da história e do exame físico do doente para o diagnóstico.

Por isso, na interpretação do FAN, a única informação que deveria ser lembrada pela população e pelos profissionais de saúde é:
“FAN negativo NÃO É lupus”...
E essa afirmação é válida mesmo quando sabemos que 1% dos casos de lupus sistêmico podem ser FAN negativo, porque a raridade dos casos de lupus sistêmico com FAN negativo diz respeito apenas aos médicos-reumatologistas. A população e os médicos em geral devem raciocinar com a afirmação que realmente tem importância clínica:
FAN negativo NÃO É lupus!

Se a afirmação “FAN positivo é lupus” é falsa, o que dizer de “FAN positivo é reumatismo”?
Nesse caso absurdo, a mistura de um dado científico (FAN positivo) com uma crença popular (“reumatismo”) pode ser encarada positivamente como exemplo de sincretismo pseudocientífico (leia SICRETISMO PSEUDO-CIENTÍFICO – UMA CONTRIBUIÇÃO DA REUMATOLOGIA PARA O ENRIQUECIMENTO CULTURAL DA HUMANIDADE) ou, para quem quiser encarar o problema negativamente, como uma definição de picaretagem:

“Usar a crença de alguém para fazer com que acredite no que se afirma sem base científica”.

“FAN positivo é reumatismo” só faz sentido para quem acredita que “reumatismo” é uma doença ou um mecanismo de doença.
Para quem sabe que “reumatismo” não é uma doença, não é um mecanismo de doença, é apenas um mito popular, “FAN positivo é reumatismo” é apenas uma declaração de picaretagem.

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7 comentários:

Tony Madureira disse...

Muito bem...

kate disse...

Olá, Dr. Luiz Claudio.

Chamo-me Raquel e, assim como outros, gostaria de começar parabenizando-o pela iniciativa deste seu blog. Para os que se encontram às voltas com dúvidas (e aflições...) de ordem reumatológica, o blog assume não só seu papel instrumental, mas também função de 'afago' em dias de dores, de medo diante de um futuro que se apresenta sombrio, e de sede por mais informações.

Apenas lamentei não encontrar um post versando sobre a artrite psoriática (bom, como frequentadora novata, posso não ter procurado com o devido cuidado...).

Tenho 32 anos e sou psoriática há mais de 10. Atualmente, meu reumatologista está investigando a possibilidade de eu estar sendo acometida pela artrite psoriática. Clinicamente, há coisas que levam a tal, embora exista (por ora?) a ausência de sintomas típicos. Acho que porque (por ora...?) minhas mãos estão em perfeita condição, ele me parece intrigado... Porém, em última consulta, ele não gostou nada do estado do meu pé esquerdo, sobretudo do 2o dedo, que está bem inchado. E usei o 'parece' para me referir ao comportamento do meu médico porque sinto que ele, neste momento, me preserva de suas especulações. Há momentos que acho isso bem prudente, já que ele me acalma bastante, mas, às vezes, me sinto aflita com apenas informações de sites na Internet que não sei se podem ser referendadas.

Uma dúvida que eu tenho, inclusive, é a seguinte: se você é psoriático/a, e se for desenvolver alguma artrite, grandíssimas são as chances de ela ser a artrite psoriática?

Outra: em muitas sites, li que os medicamentos para tratar essa enfermidade não foram comprovados como sendo capazes de impedir a evolução da doença. Procede?

Desde já agradeço a atenção e reitero os elogios à sua bela iniciativa, enquanto médico, de interlocução com aqueles de que precisam das informações de sua área de atuação.

ROSANE F, 43 ANOS, PORTADORA DA SÍNDROME DE SJÖRGREN, MAS NÃO DESTRUÍDA! disse...

Olá Dr. Luiz,
Achei seu blog hoje e fiquei muito impressionada por um médico ter um blog..explico...os médicos nunca tem tempo pra nada, na maioria das vezes nem nos olham direito e achei interessante que um da classe tenha e consiga manter um blog e ainda consiga responder as dúvidas.
Confesso que é surpreendente!
Seu blog tem coisas que me interessam... e espero poder ler sempre que possível.Tenho um apelo a fazer: Lutem por mais pesquisas sobre a Sindrome de sjorgren. Nós portadores parecemos ET's. Quando vou a uma emergência nenhum médico me administra medicamento..eles tem medo...tentam ligar para o médico que me acompanha e na maioria das vezes é só uma injeção de corticóide, mas até isso eles tem medo.
Essa Sindrome precisa de mais divulgação..nós portadores da SS estamos tentando, mas é muito difícil. NINGÚEM NUNCA OUVIU FALAR...Se eu disser que é parecido com Lúpus ou Artrite Reumatóide aí as pessoas falam - Ahhh, sim, sei...
Que loucura não??
Se possível gostaria de sua opinião sobre as tendinites e bursites recorrentes, se podem de fato estar relacionda a doença auto imune, como a SS.Alguns reumatologistas discordam dessa teoria e não fazem co-relação.
Obrigada,
Abraços!

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Rosane:

Estou preparando um artigo spbre a sĩndrome de Sjogren para ser publicado ainda este mês.
Aguarde.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Raquel:

Apenas 5% das pessoas que têm psoríase desenvolvem artrite psoriásica.
A maioria das pessoas com psoríase nunca desenvolve artrite, mas metade delas podem ter dor musculo-esquelética sem artrite, cuja explicação mais comum é fibromialgia.
Se for para surgir artrite, é mais provável que seja artrite psoriásica, mas artrite reumatóide e gota também podem ocorrer.
Sobre a capacidade do tratamento de "impedir a evolução da doença", também é um problema de comunicação e tratarei disso em um artigo especial no futuro.

Alice disse...

Dr.Luíz,tenho 35 anos e estou com suspeita de lupus.tenho erimatomas nas pernas desde os 19 anos sempre acompanhados de muita febre e dor
e também infecção urinária.Tenho muitas dores nas costas do lado esquerdo abaixo dos ombros,tenho várias crise de dor na coluna,dor no quadril,nos joelhos,fisgadas fortíssimas na ponta do polegar e pulso.Tenho muitas dores nas pernas,principalmente nas panturrilhas,tenho dores na nuca,como se algum líquido escorrece em meu cérebro, tenho irritabilidade fácil,falta de ar,fraqueza,sudorese,ás vezes,quase que frequente ,tenho erupções em minha barriga e um nódulo nas axílas que desaparece e volta frequentemente.tem dias que acho que vou morrer por tamanha indisposição...não tenho motivação para o meu trabalho, tampouco pra realizar os trabalhos domésticos em minha casa.Tabalho como auxiliar de serviços da educação básica,onde tenho que ficar 8 hrs de pé por dia,o que me deixa bastante debilitada.Já fui a vários médicos e nenhum descobriu o que eu tinha,até que na semana passada um Dr. enviado por DEUS suspeitou de LUPUS.E u já fiz o FAN em outras épocas e deu negativo,acho que por esse[ motivo]os outros médicos que já me consultaram,inclusive um reumatologista descartaram que eu talvez não tivesse nada no sangue.esta semana refiz o FAN e deu negativo novamente,mas o clínico que consultou me disse que mesmo que o FAN tenha dado negativo é provável que eu tenha LUPUS.Gostaria de saber sua opinião.estou tomando o medicamento prednisona e aguardando uma consulta com um reumatologista.Sou casada,tenho três filhos e nunca sofrí nenhum aborto.Agradeço e espero sua resposta.Sou mineira,moro no município de Laranjal,onde não se tem um Dr. em reumatologia.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Alice:
FAN negativo torna muito improvável o diagnóstico de lupus sistêmico, por isso o que se deve pensar quando o resultado do FAN é negativo é que "não é lupus".
Sugiro que aguarde a avaliação do reumatologista para as dores que sente.