domingo, 26 de setembro de 2010

O QUE É TENDINITE? ou TENDINITE NÃO É “REUMATISMO”, TENDINITE NÃO É “UM TIPO DE REUMATISMO” e TENDINITE NÃO É UM “REUMATISMO DE PARTES MOLES”


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REUMATISMOS NÃO EXISTEM




A palavra tendinite significa inflamação de tendão e foi criada numa época em que o conhecimento sobre os mecanismos das doenças que afetam os tendões era limitado. Quando o conhecimento é limitado, dar nome às doenças é uma maneira eficaz de dar a impressão de que se sabe algo sobre o assunto quando na verdade nada se sabe.

Em qualquer parte do corpo, a ocorrência de inflamação se caracteriza pela presença de células de defesa no local e, quando o local inflamado é examinado ao microscópio, as células de defesa - leucócitos - podem ser vistas facilmente, permitindo o diagnóstico da lesão.
O problema com a palavra tendinite é que, na maioria dos casos em que o diagnóstico de "tendinite" é feito, não existem células de defesa no local lesado, portanto não há inflamação nesses tendões.
Quando tendões lesados são examinados ao microscópio, o que se vê é um tecido anormal em que vasos sanguíneos novos se misturam de maneira desorganizada com fibroblastos (células que formam cicatriz), um processo que foi chamado de displasia angiofibroblástica, em que não há células de defesa.
A presença de dor nos tendões lesados é que levou à criação da palavra tendinite, imaginando-se que, se havia dor, deveria haver inflamação no local dolorido. Mas hoje sabemos que não há, na maioria dos casos (ver adiante). Por isso, atualmente, para representar as lesões nos tendões, prefere-se a palavra tendinose no lugar de tendinite.

Mais importante do que não haver inflamação nos tendões que são diagnosticados como “tendinite” é que a palavra tendinite é usada muitas vezes como “diagnóstico” mesmo quando não há qualquer lesão de tendão, apenas porque uma dor surge em um local onde há um tendão por perto.

Por exemplo, existe uma lesão comum no cotovelo, chamada de epicondilite. Epicondilite é o nome da lesão dos tendões que se originam dos epicôndilos.
Há dois epicôndilos em cada cotovelo e, no cotovelo, os epicôndilos ocupam posições opostas, um medial e outro lateral.
Tomando-se como referência a posição anatômica, em que a pessoa está de pé, com os braços pendentes ao lado do corpo, mantendo as palmas das mãos voltadas para a frente, o lado do cotovelo que está mais próximo do corpo é chamado de medial e o outro, mais afastado do corpo, é o lateral.
Por isso, há duas epicondilites, a medial e a lateral.

A partir desse conhecimento, quando alguém apresenta dor no cotovelo, nos locais próximos dos epicôndilos, um profissional pode dizer, mesmo quando não há evidências clínicas de epicondilite, que a dor é causada por uma “tendinite”, usando a palavra “tendinite” como uma explicação para a dor sem que haja qualquer lesão de tendão, um recurso comum nas situações em que a causa da dor não é identificada.
O processo intelectual usado nessas circunstâncias é totalmente automático e irracional: se dói o cotovelo, é “tendinite”; se dói o ombro, é “tendinite”; se dói o joelho, é “tendinite”; se dói o calcanhar, é “tendinite”, e assim por diante.

Existem realmente lesões de tendão em todos esses locais e qualquer tendão do corpo está sujeito a lesão, mas as lesões dos tendões têm características clínicas - que podem ser identificadas através da história e do exame físico do doente - e são essas características que permitem o diagnóstico de uma lesão de tendão. Cada tendão lesado produz sintomas característicos, de acordo com a parte do corpo em que se encontra e, se as características clínicas das lesões de tendão não estão presentes, a causa da dor no tendão deve ser outra doença e não uma lesão de tendão.
Para o reumatologista isso é importante porque, na fibromialgia, por exemplo, pode haver dor em todos os tendões do corpo e, muitas vezes, pessoas que recebem múltiplos diagnósticos de “tendinites” na verdade têm apenas fibromialgia.

Para as sociedades de Reumatologia do mundo todo, as lesões de tendão são classificadas entre as doenças “reumáticas” como sendo “reumatismos de partes moles”, uma expressão tão pomposa quanto inútil, que foi escolhida com o único propósito de relacionar as dores músculo-esqueléticas com o mito “reumatismo”, sem a intenção de explicar coisa alguma.

A grande maioria dos estudos existentes sobre lesões de tendões e a maior parte do conhecimento científico atual sobre o assunto foram produzidas por ortopedistas. Entretanto, não se deve concluir por isso que lesões de tendões devem ser sempre diagnosticadas e tratadas por ortopedistas.
As pessoas descobrem ter alguma lesão de tendão quando procuram atendimento médico por sentir dor ou dificuldade de movimento em alguma articulação. Todos os tendões do corpo passam nas proximidades das articulações e a dor que causam é sentida sempre numa articulação ou perto delas. Ninguém sente “tendinite”; as pessoas sentem dor e um médico é que diz que o problema é “tendinite”.

Entretanto, é preciso saber também que dor nas articulações ou perto delas é o sintoma de apresentação:
1. das doenças que causam inflamação nas articulações (artrite), como artrite reumatóide, por exemplo;
2. das doenças que causam dor nas articulações mesmo sem causar artrite (como fibromialgia, por exemplo);
3. de muitas doenças de outros órgãos que também causam dor no corpo, nos tendões, nos músculos e nas articulações (como o hipotiroidismo, por exemplo).

Além dessas dores produzidas na ausência de lesões de tendões que podem ser confundidas com “tendinites”, há alguns tendões que são revestidos por bainhas, as quais são revestidas internamente por uma membrana sinovial idêntica à que reveste as articulações sinoviais.
A membrana sinovial dessas bainhas pode se inflamar da mesma maneira que se inflamam as membranas sinoviais das articulações e a inflamação desses tendões providos de bainha e de membrana sinovial é conhecida como tenossinovite.
A tenossinovite é a única forma de lesão de tendões em que há verdadeiramente uma inflamação no local e pode ser uma manifestação das doenças que causam artrite, como a artrite reumatóide, por exemplo.

O diagnóstico diferencial de todas essas situações que causam dor nas articulações ou perto delas é o campo de trabalho do reumatologista e, por isso, dor nas articulações ou perto delas, nos ossos, nos músculos ou nos tendões, que aparece sem ter havido traumatismo no local, deve ser sempre consultada em primeiro lugar com um reumatologista porque, se a doença for artrite, o diagnóstico e o tramento precoces são fundamentais.

A pretensão das sociedades de Reumatologia do mundo todo, que afirmam que lesões de tendões são “reumatismo de partes moles” é, no meu modo de ver, uma afronta ao conhecimento científico atual sobre essas lesões.
“Reumatismo de partes moles” é apenas mais uma das múltiplas expressões usadas para defender o mito “reumatismo” e a nomenclatura arcaica derivado do mito, que inclui as palavras reumática, reumático, reumatologia, reumatologista, reumatóide, etc.

Lesões de tendões são apenas isso - lesões de tendões - e se essas lesões mostram displasia angiofibroblástica
- não são “tendinites”, porque não há inflamação nesses locais;
- não são “reumatismo”, porque “reumatismo” é um mito e as lesões de tendão são reais;
- não são “um tipo de reumatismo”, porque não existem “tipos de reumatismo” e
- não são “reumatismo de partes moles”, porque a expressão “reumatismo de partes moles” foi inventada pelas sociedades de Reumatologia apenas para defender o mito “reumatismo” e não tem nenhum propósito educativo.

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2 comentários:

Robson Luiz Dominoni disse...

As "tendinites" e muitos outros "ites" são usados por médicos com preguiça, ou falta de tempo, para explicar o diagnóstico do paciente. Infelizmente todo mundo perde com isso. O paciente que fica sem saber seu diagnóstico, o médico que perde uma oportunidade de estabelecer uma boa relação com o paciente; e a medicina, que sempre vai perdendo espaço para crendices e misticismo.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

O Dr. Robson é reumatologista em Santa Catarina.