domingo, 7 de novembro de 2010

FIBROMIALGIA - M79.7 (CID 10, VERSÃO 2008) - UM GOLPE DECISIVO CONTRA O MITO "REUMATISMO".





Em 1999, quando o editorial REUMATISMOS NÃO EXISTEM foi publicado na Revista Brasileira de Reumatologia, eu sabia que as ideias contundentes que acabara de apresentar levavam-me a assumir uma posição de conflito contra a classe, a qual, embora já tivesse expressado a inadequação da linguagem baseada em reumatismo, sempre adotou uma tolerância estranha em relação ao assunto, considerando-a inevitável e insubstituível, julgando que nenhuma outra linguagem poderia expressar com clareza as necessidades da especialidade.
Tentando antecipar-me às críticas que esperava receber, pequisei alguns argumentos que poderiam ser usados por quem tentasse apresentar a defesa dos “reumatismos” afirmando que existem sim.

Grande parte da minha lógica contra o uso da linguagem baseada em "reumatismo" fundamenta-se no fato de "reumatismo" não ser um termo científico, mas percebi que alguém poderia argumentar que é científico porque aparece na CID dando nome a várias doenças.

A CID - abreviatura de CLASSIFICAÇÃO ESTATÍSTICA INTERNACIONAL DE DOENÇAS E PROBLEMAS RELACIONADOS À SAÚDE - editada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é o resultado de um esforço internacional para desenvolver um sistema de códigos representativo de doenças que facilite a comunicação entre médicos e administradores de serviços de saúde. Vem sendo desenvolvida desde 1850, tendo sido periodicamente modificada, corrigida e atualizada, o que mostra que a tarefa de classificar doenças não é simples. Encontra-se atualmente na décima edição (CID 10), cuja última revisão foi publicada em 2007 (na língua inglesa) e, em português, em 2008 (CID 10 - versão 2008).

Uma classificação, a rigor, não é conhecimento científico verdadeiro, é apenas uma produção intelectual que procura ordenar o conhecimento científico existente mas, como toda produção intelectual humana, está sujeita a falhas e influências da vontade, pois é elaborada por pessoas reunidas em plenários e escritórios e não por cientistas trabalhando em laboratórios, devendo ser considerada apenas uma representação do entendimento dominante em determinado momento sobre algum assunto.

E o entendimento atual a respeito das doenças que causam dor musculo-esquelética, conforme representado na CID 10, não confirma a propaganda das sociedades de reumatologia, que alegam repetidamente que "reumatismos são mais de cem doenças".
O capítulo XIII, que trata das dores e das doenças musculo-esqueléticas, não é chamado de "REUMATISMOS" nem de "DOENÇAS REUMÁTICAS" nem de "REUMATISMOS E DOENÇAS REUMÁTICAS", diferentemente do que gostariam os defensores do mito; é chamado simplesmente de DOENÇAS DO SISTEMA OSTEOMUSCULAR E DO TECIDO CONJUNTIVO, uma nomenclatura clara e objetiva, mais de acordo com o princípio científico, que não recorre a mitos para expressar conceitos.

O sistema osteomuscular é formado pelos ossos, pelos músculos e pelas articulações, incluindo todas as estruturas necessárias à realização de movimentos, como tendões, ligamentos e bursas.
O tecido conjuntivo, alvo frequente das doenças autoimunes inflamatórias de caráter sistêmico, é encontrado em todo o sistema osteomuscular.
Não há, portanto, no nome do capítulo referente às causas de dor musculo-esquelética, nenhuma referência a "reumas", "reumatismos" ou "doenças reumáticas".

Entretanto, numa concessão aos defensores do mito, a palavra "reumatismo" foi mantida - não em "mais de 100" como desejariam - mas apenas em 2 códigos da classificação:
M 12.3 - reumatismo palindrômico, e
M 79.0 - reumatismo não especificado.

M 12.3 - reumatismo palindrômico - é uma concessão aos defensores do mito porque há autores que chamam essa doença de "artrite palindrômica", um nome mais adequado do que o que aparece atualmente na classificação e, se M 12.3 fosse definido na CID como artrite palindrômica, um dos últimos redutos de defesa do mito "reumatismo" seria eliminado.
Tal modificação seria importante porque a população, que conhece apenas o "reumatismo", que é um mito popular, representado pelo substantivo reumatismo sem a adição de qualquer adjetivo, fica confusa quando se depara com as palavras derivadas do mito usadas na nomenclatura da reumatologia.
Dessa forma, "reumatismo palindrômico", expressão formada pelo substantivo "reumatismo" e pelo adjetivo "palindrômico" - que sugere ao leigo que é um "tipo de reumatismo" - cientificamente é apenas o nome de uma doença expresso através de uma locução substantiva, ou seja, a expressão "reumatismo palindrômico" é, toda ela, o nome de uma doença, ou seja, um substantivo formado por duas palavras, uma das quais infelizmente é a palavra “reumatismo”.
Nessa confusão, o nome "reumatismo palindrômico" não deve ser entendido linguisticamente, apenas pela associação de palavras, como um "tipo de reumatismo", já que a manutenção da palavra "reumatismo" no nome da doença é apenas uma concessão à nomenclatura arcaica, feita por quem não tinha conhecimento dos problemas de comunicação causados pelo mito "reumatismo".
De qualquer forma, quando a população pergunta "é reumatismo, doutor?", ao ouvir algum diagnóstico feito por reumatologista, não é à doença reumatismo palindrômico que se refere; é ao mito "reumatismo" apenas.

A segunda concessão feita aos defensores do mito "reumatismo" na primeira edição da CID 10, de 2003, foi representada pelo código
M 79.0, que apareceu da seguinte forma:

M 79.0 - REUMATISMO NÃO ESPECIFICADO
- fibromialgia
- fibrosite

O significado de "reumatismo não especificado" é "qualquer reumatismo" e esse código deve ser usado por quem não sabe qual é a doença - por isso "não especificado" (significa uma doença qualquer, não importa qual).
Para mim, a expressão "reumatismo não especificado" revela o desejo dos classificadores de oferecer aos médicos um repositório da ignorância, enviando a seguinte mensagem sutil:
quando não souber o que é, diga que é "reumatismo não especificado".

Além disso, segundo os defensores do mito, "reumatismo" já é não especificado (segundo eles, são mais de 100 doenças...), por isso a expressão "reumatismo não especificado" equivale a "não especificado não especificado", ou seja, é duplamente não especificada.
Entretanto, os codificadores da CID, puseram abaixo da expressão duplamente não especificada "reumatismo não especificado", duas palavras especificadoras, fibromialgia e fibrosite, lançando uma novidade inacreditável no sistema de classificação de doenças - o "não especificado especificado".

Assim, segundo essa criação literária absurda, o código M 79.0 poderia ser usado tanto para codificar o "reumatismo não especificado", que ninguém sabe o que é, quanto para codificar fibromialgia (ou fibrosite, que é o nome mais antigo), dessa forma especificando como sendo fibromialgia o que era para ser não especificado.

Uma das finalidades dos códigos da CID é transmitir informações para fins periciais.
Os peritos da previdência social são médicos e há vários tipos de especialistas entre eles, como oftalmologistas, psiquiatras, neurologistas, etc. A maioria dos médicos de outras especialidades não está familiarizada com as sutilezas da nomenclatura usada em reumatologia e, ao ver o código M 79.0 em um atestado médico e procurar na CID a que se refere, ao ler o nome fibromialgia abaixo da expressão reumatismo não especificado, duvido que algum perito entenda se o atestado assim codificado se refere a "reumatismo não especificado" ou a "fibromialgia".
Para mim, empenhado em combater o mito “reumatismo”, o aparecimento desse código foi motivo de grande desgosto pois fui obrigado a utilizá-lo para codificar fibromialgia mas, para evitar confusão, fazia isso da seguinte maneira:

M 79.0 - fibromialgia

querendo dizer ao perito que, naquele caso em particular estava usando o código M 79.0 para representar o diagnóstico de fibromialgia, uma precaução que não seria necessária se a CID eliminasse a expressão "reumatismo não especificado", conservando apenas o código especificado de fibromialgia.

Quando um código é específico, ele substitui o nome da doença, que não precisa ser informado no atestado. Basta informar o código e, ao ver o código específico e consultá-lo na CID, qualquer um saberá a que doença se refere.
Por outro lado, códigos inespecíficos - ou “não especificados” - precisam ser explicados para que quem leia o código saiba a que está sendo referido.

Entretanto, em 2007, em inglês, e em 2008, em português, para minha satisfação, na última versão da CID foi criado o código M79.7, que apareceu dessa forma:

M 79.7 - Fibromialgia
- fibromiosite
- fibrosite
- miofibrosite

eliminando as dúvidas a respeito do código de fibromialgia (embora ainda conservando alguma confusão ao acrescentar as palavras fibromiosite, fibrosite e miofibrosite, que são nomes obsoletos da fibromialgia mas que podem ser entendidos como sendo outras doenças por quem não domina as sutilezas da nomenclatura utilizada pela reumatologia).

Mas o código M 797 - fibromialgia - só existe na versão 2008 da CID 10. Por isso, ao utilizá-lo, é preciso informar tal fato ao perito, pois os livros da CID utilizados na perícia não são renovados prontamente com o lançamento de novas versões e, embora já tenham saído 5 versões depois da publicação de 2003, provavelmente é com a versão de 2003 que a maioria dos peritos trabalha na previdência social.
A desatualização dos livros da CID na previdência social não é motivo para que um médico, conhecendo o código atual da fibromialgia, não o utilize.
Ao ser informado de que o código M 79.7 é da CID 10, versão 2008, cabe ao perito procurar pela versão adequada para identificar a que se refere o código usado.

A última versão da CID pode ser consultada on line, na página da OMS:
http://apps.who.int/classifications/apps/icd/icd10online/ (em inglês, Diseases of the musculoskeletal system and connective tissue)
ou na página do DATASUS
http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/cid10.htm (em português, Doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo).

Entretanto, os defensores do mito "reumatismo", mesmo sabendo que o código atual de fibromialgia é M 79.7, ainda utilizam o código M 79.0, que foi preservado na versão 2008, juntamente com a esdrúxula expressão "reumatismo não especificado", aparecendo da seguinte forma:

M 79.0 REUMATISMO NÃO ESPECIFICADO
Exclui:
- fibromialgia (M79.7)
- reumatismo palindrômico (M12.3)

Resta saber então a que diabos se refere atualmente a expressão "reumatismo não especificado"...

Em que pese o desejo dos defensores do mito "reumatismo" de codificar fibromialgia com o código de "reumatismo não especificado" apenas pelo desejo de preservar o mito a todo custo, a verdade é que o mito "reumatismo" agoniza.
Em breve veremos o desparecimento da expressão "reumatismo não especificado" da CID e, quando isso acontecer, a última resistência à substituição da nomenclatura mitológica usada pela reumatologia será eliminada. Então, sem referência a “reumas” ou a “reumatismo”, uma nova nomenclatura, baseada no conhecimento científico, tornará a dor musculo-esquelética e as doenças que a produzem mais fáceis de entender, o que impedirá que os oportunistas ignorantes façam uso de palavras cujo significado ninguém entende para enganar as pessoas doentes.



7 comentários:

Luciana disse...

Ótimo artigo Doutor!
Com base no meu histórico, se eu fosse paciente de algum dos que cultivam esse mito, certamente ele já teria me encaixado nesse tal de "reumatismo não especificado" e à essa altura talvez eu já estivesse até com problemas mais graves, principalmente nos meus olhos, pois não estaria seguindo nenhum tratamento..

Vivendo pela Palavra de Deus!!! disse...

Bom dia!!
Dr. Luiz conheci seu blog ontem e gostei muito. Parabéns pelo blog

ROSANE F, 44 ANOS disse...

Interessante seu Post,gostei das citações.
Mas não acho que ter um CID reconhecido venha mudar em alguma coisa. A minha doença tem CID (SS) reconhecido e nos exames periciais é como se estivéssemos fingindo, pois se estamos de pé, ou temos todos os membros no lugar, a palavra dor crônica/sofrimento crônico nada significa para a grande maioria dos peritos e continuaremos sofrendo emocionalmente por sermos consideradas pessoas que querem se aproveitar dos benefícios do INSS.
O que tem que mudar é o coração do ser humano.
Abraços!

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Rosane:
A existência de um código específico para uma doença facilita apenas a comunicação entre o médico e o perito, mas não é garantia de concessão de benefícios.
A concessão de benefícios depende da determinação da incapacidade e é uma questão complexa, que gera conflitos que não são relacionados diretamente com a doença em si, mas com os sintomas, as deformidades e as limitações que a doença impõe.
O código específico de uma doença torna mais objetiva apenas a comunicação do diagnóstico ao perito, mas há muita subjetividade envolvida na avaliação de sintomas, deformidades e limitações para fins periciais.
É a subjetividade que produz os conflitos.
Conflitos periciais não são exclusivos desse país; a realidade é a mesma em todos o mundo.

Unknown disse...

Vergonha, passei pela perícia médica dia 08 de janeiro o benefício foi negado,aapresentei atestado de CID 010 F32.2 prontuarios desde 2003 a médica ignorou os prontuarios desde da clínica psiquiatra, não me fez uma pergunta sequer, perguntei se precisava informar os medicamentos que uso, respondeu que não. Nao levei atestado da FBM porque vivo o estigma dentro da própria família, não está escrito na testa, não tem um gesso. O sofrimento é solitário, não consigo trabalhar, sair correndo chorar escondido e desejando sempre que o tempo passe rápido e a vida acabe logo. Ccomo a médica vai conhecer meu histórico se ela não quer conhecer. Ddeve pensar que meu objetivo é lesar o INSS . DMaria anos da minha vida para não ter FBM ?

Joelma Pereira disse...

Dr. Luiz Claudio, quero tirar uma duvida grd. Tenho 50 anos e a 2 foi descoberto um lupus sistemico e discoide, e a fibromialgia seguida de hipertecao e diabetes tipo 2, com osteoporose, enfim venho tentando entrar na caixa pois nao tenho codicoes mais de trabalhar e muita dor, pois os pertos negam meu beneficio mesmo com todos os exames e laudos com cid m32, m81, m17 ,m29 e m797 . Porque sera que e tao dificil,sao doencas cronicas!!?? Me ajude por favor, pois ninguem me responde, e eu preciso saber!!! Obrigado pela atencao... aguardo uma resposta, orientacao.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Joelma:
Não entendi o que você quis dizer com "venho tentando entrar na caixa pois não tenho condições mais de trabalhar"...
Se você está tentando ser admitida em um emprego, somente o empregador pode responder à sua pergunta pois é direito do empregador estabelecer as condições físicas necessárias para a realização do trabalho.
Se a questão for obter um benefício por doença, a decisão cabe ao perito e cada caso é avaliado de acordo com as características que apresenta. Aos médicos que atendem cabe fornecer os diagnósticos que foram feitos e estão sendo tratados mas a decisão sobre o benefício cabe à perícia médica.