domingo, 9 de janeiro de 2011

O FRIO NÃO CAUSA "REUMATISMO"


LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM




Muitas pessoas acreditam que o frio causa “reumatismo”.
Muitas pessoas acreditam que a exposição a variações de temperatura, como mexer com água quente e água fria ou sair de ambientes aquecidos para o frio, causa “reumatismo”.
A verdade é que nem o frio nem a exposição a variações de temperatura causam “reumatismo”.

Primeiramente porque “reumatismo” não é uma doença, é apenas um mito popular. A única causa dos mitos é a ignorância tentando explicar fenômenos através da criação de palavras, sem conhecer os fatos.

Em segundo lugar porque, cientificamente, para comprovar que o frio causa "reumatismo", seria preciso montar um estudo de observação em que dois grupos de pessoas com características semelhantes fossem expostos a condições ambientais idênticas, mas apenas um dos grupos enfrentasse o frio e mudanças de temperatura de ambientes aquecidos para ambientes frios.
Se fosse possível criar essas condições - o que não parece muito fácil -, após algum período de observação, poderia ser feita a comparação dos dois grupos para ver se o grupo exposto ao frio e a variações de temperatura desenvolveu "mais reumatismo" do que o grupo não exposto.

Há um problema insolúvel nesse estudo que é definir o que seja “reumatismo” para saber o que pesquisar na verificação de qual grupo desenvolveu "mais reumatismo".

Como "reumatismo" não é uma palavra de origem e de uso científicos, não pode ser definida com exatidão para representar algo específico a ser pesquisado.
Uma solução de má qualidade científica seria usar a definição propagada pelas sociedades de reumatologia de que "reumatismo são mais de 100 doencas" e, pesquisando todas as mais de 100 doencas, verificar se alguma delas surgiu mais vezes no grupo exposto ao frio e às mudanças de temperatura.
Essa solução seria de má qualidade porque várias doenças diferentes estariam sendo pesquisadas ao mesmo tempo, o que contraria a metodologia científica ideal de observar uma doença - ou um fenômeno - de cada vez.

Além disso, no momento em que estivesse sendo observado o aparecimento de artrite reumatóide, por exemplo, nas pessoas expostas ao frio, o que estaria sendo estudado na verdade é se o frio causa artrite reumatóide, não se o frio causa “reumatismo”.
Da mesma forma, quando estivesse sendo observado o aparecimento de lupus sistêmico, esclerose sistêmica, espondilite anquilosante, fibromialgia, artrose, tendinopatias, etc, por exemplo, o que estaria senso pesquisado é se o frio causa lupus sistêmico, esclerose sistêmica, espondilite anquilosante, fibromialgia, artrose, tendinopatias, etc, não se o frio causa “reumatismo”.

Talvez os defensores do mito "reumatismo" estivessem dispostos a realizar tal estudo científico, com a finalidade de afirmar que "sim, o frio causa reumatismo", caso verificassem que algumas das "mais de 100 doenças" ocorressem com mais frequência no grupo de pessoas expostas ao frio.

Entretanto, a má qualidade científica de tal estudo impediria a aceitação dos resultados em qualquer revista médica que prezasse o rigor metodológico, pois o conselho editorial no mínimo sugeriria aos autores de semelhante estudo que modificassem as conclusões e, em vez de afirmarem que "o frio causa reumatismo", afirmassem que o frio causa "tais doencas", citando uma a uma as doencas que foram observadas mais vezes no grupo exposto ao frio e às variações de temperatura.

Estudos científicos geralmente observam poucas pessoas de cada vez, por isso devem ser "controlados".

Cientificamente, controlar um estudo significa escolher pessoas com caracteristicas semelhantes para compor os grupos a serem observados: um grupo para estudar a doença, outro para servir de controle (estudos controlados sempre têm um grupo controle).
Além disso, os dois grupos devem ser expostos a condições semelhantes (condições controladas), mas apenas o grupo de estudo deve ser exposto à característica cujo efeito se quer estudar.
Como o grupo controle não é exposto à característica de interesse - nesse exemplo, o frio - o aparecimento da alguma doença apenas no grupo de estudo deve ser atribuído à característica que foi diferente entre os grupos.
Por outro lado, se as doenças que aparecerem forem as mesmas nos dois grupos, a ocorrência de doenças no grupo controle permite concluir que a característica diferente não tem influência nos resultados observados no estudo, pois se influísse, apenas o grupo de estudo apresentaria a alteração.
Finalmente, é preciso definir com exatidão qual resposta será observada, o que significa definir previamente as variáveis do estudo, ou seja, o que vai mudar quando mudam as condições a que os grupos são expostos.

Quando comparados aos controlados, o valor dos estudos "nao controlados" é menor.

De fato, a maioria dos estudiosos reage com desdém a observações oriundas de estudos não controlados porque a falta do grupo controle invalida qualquer resultado em estudos com amostras (grupo de pessoas estudadas) pequenas. Entretanto, quando a amostra é grande o suficiente, a necessidade de controle é menor e pode mesmo não ser necessária.

Albert Einstein escreveu que boa observação é boa ciência e, para quem quiser aprender, há uma experiência gigantesca acontecendo há cerca de 40 anos, em Toronto, no Canadá, que comprova que nem o frio nem a mudança de ambiente aquecido para o frio causa “reumatismo”.

O inverno em Toronto é rigoroso. Temperaturas de -10°C são comuns e já foram observadas quedas até -20 e -30°C, com neve e ventos fortes.
Para enfrentar o rigor do frio, a cidade foi adaptada de maneira que todos os ambientes públicos (estações de trem e metrô, ônibus, edifícios comerciais e sede de órgãos públicos, etc) são aquecidos artificialmente.
Além disso, um sistema de túneis e galerias interligando diversos edifícios comerciais e públicos com algumas estações de trem e de metrô estende-se por mais de 20 km lineares sob o centro de Toronto. Esse sistema, chamado de PATH, tem temperatura ambiente agradável, pois também é aquecido artificialmente, contrastando acentuadamente com o frio intenso do exterior.
O PATH parece um gigantesco shopping center, cheio de lojas, restaurantes, lanchonetes, bancos, clínicas e consultórios médicos e odontológicos, repartições públicas, etc. Graças à existência dessa estrutura, os habitantes de Toronto podem manter no inverno, com conforto, as mesmas atividades comerciais que realizam nas épocas mais quentes do ano.
Mas ninguém mora no PATH; o sistema só funciona no horário especificado para o comércio.
Para sair de casa e chegar até o sistema de transporte público, a maioria dos habitantes de Toronto precisa se expor ao frio rigoroso.
Para andar nas ruas, é preciso expor-se ao frio.
Ao sair da rua e entrar no PATH, é preciso enfrentar a mudança brusca de temperatura do frio intenso para o ambiente aquecido e, na volta, do ambiente aquecido para o frio intenso.

Com população de aproximadamente 7 milhões e pelo grande número de imigrantes da China, da Índia, de países da Europa, do Oriente Médio e da América do Sul que vivem em Toronto e são submetidos às mesmas condições climáticas, os 40 anos de existência do PATH podem ser vistos como um estudo gigantesco, em escala planetária, cujas observações fornecem dados de valor científico e, se o frio e a exposição alternada a ambientes quentes e frios fossem capazes de causar “reumatismo”, isso teria sido observado em Toronto.

Mas em Toronto não tem “reumatismo”.

Até mesmo quando algum defensor do mito usa a definição de “reumatismo” adotada pelas sociedades de reumatologia
- “reumatismos são mais de 100 doenças” -
a incidência de artrite reumatóide, lupus sistêmico, artrose, fibromialgia, tendinopatias e outras lesões de partes moles, assim como de qualquer uma das mais de 100 doenças citadas na classificação do American College of Rheumatology
(leia REUMATISMO NO BRASIL - UM PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO),
é igual ao que se observa em outras partes do mundo, inclusive em países tropicais.

O frio, assim como o calor, não causa “reumatismo”.

Mas, apesar de o frio não causar “reumatismo”, as pessoas continuam acreditando nessa bobagem porque as sociedades de reumatologia, que deveriam esclarecer a população, preferem defender a linguagem chula dos curiosos e picaretas, afirmando que “reumatismos são mais de 100 doenças", prestando um serviço que não ajuda os reumatologistas a divulgarem a ciência, mas ajuda os oportunistas e espertalhões a explorarem a crença popular em "reumatismo".

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4 comentários:

Luciana disse...

Olá Doutor,
Muito bom o seu post!
O frio pra mim sempre foi uma incógnita.. lógico que acredito que o frio não cause nenhum tipo de doença "reumatológica", mas acredito tbm que, de certa forma, ele intensifique nossa sensação de dor.. porém tenho uma dúvida.. no verão as dores são muito mais amenas e suportáveis do que no inverno.. digo isso por experiência própria.. no frio minhas articulações ficam mais enrijecidas, estalam muito mais e as dores aumentam.. me sinto uma dobradiça de porta no inverno.. fazendo rec-rec.. rs fora o Reynaud q é batata aperecer qdo sinto frio..
Isso que acontece comigo tem algum fundamento científico ou o frio apenas intensifica a minha percepção de dor?
Agora mesmo no Reveillon fui pra Campos do Jordão e lá tava um pouco mais frio do que aqui em SP, principalmente dentro do chalé, daí não demorou muito e comecei logo a sentir as diferenças no meu corpo.. mas qdo cheguei aqui voltei ao normal novamente.. isso é normal?
Ótimo ano pra vc Doutor!
Abç
Luciana

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Luciana:
leia DOR, FRIO E O MITO "REUMATISMO PIORA COM O FRIO" e você verá que existem doenças causadas pelo frio - são chamadas de criopatias.
As criopatias são pérnio, livedo reticular, fenômeno de Raynaud e as manifestações vasculares das crioglobulinemias.
Criopatias não são "doenças reumatológicas": Pérnio pode ser tratado por dermatologistas, livedo reticular e fenômeno de Raynaud por angiologistas e crioglobulinemia por hematologistas.
O reumatologista também trata dessas doenças porque pérnio pode causar artrite; livedo reticular e fenômeno de Raynaud podem ser manifestações de doenças autoimunes (embora na maioria das vezes sejam apenas fenômenos desencadeados pelo frio, sem relação alguma com autoimunidade) e as manifestações vasculares das crioglobulinemias se confundem com as vasculites autoimunes, que são tratadas por reumatologistas.
A sensibilidade ao frio é um fenômeno individual e não tem relação com uma doença em especial, exceto no caso do hipotiroidismo. No hipotiroidismo as pessoas sentem mais frio e também sentem dores desencadeadas pelo frio.
A sensibilidade ao frio é um conceito teórico que descreve o aumento ou aparecimento de dores como resultado da exposição ao frio. Não se sabe exatamente como e porque ocorre (dizer que a pessoa é sensível ao frio é um pleonasmo - explica linguisticamente, mas não explica biologicamente o aparecimento das dores; o mesmo vale para "o frio intensifica a percepção das dores" - é apenas uma explicação verbal).
As tentativas de explicar cientificamente o problema chegaram apenas a explicações parciais, como variações da pressão atmosférica e da umidade, que não explicam a totalidade do fenômeno.
Por outro lado, tendo as mesmas doenças, há pessoas que pioram com o frio - são a maioria - mas há outras que pioram com o calor, mostrando que o que está envolvido no processo é uma característica individual e não uma característica de alguma doença em especial.
No seu caso, sentir dor em Campos do Jordão e melhorar ao voltar para São Paulo é normal - se nada mais aparecer enquanto estiver sentindo mais dor - mas pode haver pessoas com a mesma doença que, se forem para Campos do Jordão, irão melhorar, piorando ao voltar para São Paulo.
Ao lidar com doenças crônicas, é importante conhecer as características do organismo doente e evitar os estímulos que sabidamente pioram os sintomas.

Granja Po'A Porã disse...

Bom dia Doutor,
Em março de 2009, fui "diagnosticada" com hipertensão. Naquele inverno comecei a sentir um tipo de "congelamento" nas extremidades... os dedos das mãos chegavam a ficar roxos e gelados, e com muita dor.
Um cardiologista disse, só de "olhar", que era "Síndrome de Renault"...trocou meu remédio de pressão (losartana) por um vasodilatador...quase me matou de tanta dor nas articulações.
Voltei por conta para minha losartana e procuro não expor tanto minhas mãos ao frio, o que é bem difícil morando em São José dos Pinhais.
Só gostaria de saber se essa tal Síndrome realmente existe ou é mais uma "esperteza" da parceria?
Obrigada, Tudo de bom, Stela

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Stela:

Respondi seu comentário através do artigo O QUE É FENÔMENO DE RAYNAUD? ou FENÔMENTO DE RAYNAUD NÃO É "REUMATISMO" e FENÔMENO DE RAYNAUD NÃO É "UM TIPO DE REUMATISMO", que você pode ler na página principal do blog.