domingo, 27 de fevereiro de 2011

UMA DOENÇA "REUMÁTICA" AUTOIMUNE?





Nos anos de formação como médico-reumatologista, aceitei sem criticar a noção de "doenças reumáticas", difundida pelas sociedades de reumatologia do mundo todo, porque é a maneira como "oficialmente" a Reumatologia trata do assunto.
Entretanto, nos primeiros anos após obter o título de especialista, observando os problemas de comunicação que surgem por causa do adjetivo "reumáticas", presente na expressão "doenças reumáticas", e pricipalmente devido à crença popular em "reumatismo" como uma doença, que é a causa de todos esses problemas, passei a analisar de maneira crítica a estrutura linguística escolhida pela especialidade para se comunicar com as pessoas.
Quem adotar a postura crítica sobre o tema e deixar de repetir automaticamente as ideias propagadas ao longo de décadas verá prontamente que a estrutura linguística baseada em "reumatismo", construída com palavras relacionadas ao mito, como reumático, reumática, reumatologia e reumatologista, não tem valor na comunicação dos conceitos científicos necessários para que a população entenda o que são essas doenças, qual é a especialidade médica que delas trata e o que faz o médico que é especialista no seu diagnóstico e tratamento.

Veja, por exemplo, a expressão "doença reumática autoimune", usada pela maioria dos reumatologistas para explicar doenças como lupus sistêmico, febre reumática, artrite reumatóide, esclerose sistêmica, dermatomiosite, síndrome de Sjogrën, doença mista do tecido conjuntivo e vasculites sistêmicas, entre outras.

Doenças autoimunes são doenças causadas pelo próprio sistema imunológico da pessoa doente e o sistema imunológico é um sistema de "defesa" do organismo, o que é intrigante.

A estrutura do corpo humano apresenta três "linhas de defesa" contra as doenças:
- a primeira linha é representada pela integridade anatômica do corpo, que significa principalmente a integridade da pele e das mucosas que têm contato com o exterior. A perda de integridade em qualquer ponto dessa linha de defesa abre a porta para que o organismo seja invadido por agentes externos;
- a segunda linha de defesa é representada pelas células brancas do sangue, os leucócitos, que podem englobar substâncias e microorganismos estranhos que consigam passar pela primeira linha de defesa, digeri-los e permitir que sejam eliminados do organismo;
- a terceira linha de defesa, a mais evoluída e eficaz, é representada pelo sistema imunológico, uma complexa rede de células e substâncias químicas que vigia todo o corpo, com a finalidade de reconhecer e eliminar qualquer invasor que tenha passado pelas linhas de defesa anteriores.

Essa representação didática do sistema de defesa do corpo em "linhas de defesa" deve ser entendida apenas como um recurso de ensino porque, na verdade, todas as linhas de defesa agem em conjunto e, uma vez que ocorra alguma agressão, todas são postas em ação.
Que o sistema imunológico, criado para proteger o corpo de agressões externas, seja capaz de, ele próprio, agredir e destruir as células e os órgãos do corpo é um fenômeno fascinante do ponto de vista científico mas assustador do ponto de vista mitológico.
O raciocínio mitológico leva as pessoas a esperar de um sistema de "defesa" que... "defenda"... e não que agrida, mas essa noção, transmitida pelas palavras, não corresponde à realidade científica do fenômeno: o sistema imunológico de "defesa" é capaz de agredir o próprio organismo.

Na expressão "doença reumática autoimune", o substantivo autoimune exerce a função de adjetivo para explicar que a doença caracterizada como "reumática autoimune" tem origem em fenômenos autoimunes.
Qual seria então o significado acrescentado pelo adjetivo "reumática"?

Os defensores do mito "reumatismo" prontamente apresentariam várias características biológicas para caracterizar uma doença como sendo "reumática", as principais delas sendo a produção de inflamação no sistema musculo-esquelético, causando dores nos músculos, ossos e articulações e artrite. Mas...
- uma doença que causa inflamação é uma doença inflamatória, não é uma doença "reumática";
- uma doença que causa dor é uma doença dolorosa, não é uma doença "reumática";
- uma doença que causa artrite é uma doença artrítica (palavra estranha mas lógica), não é uma doença "reumática",
- uma doença da articulação é uma doença articular, não é uma donça "reumática".
Portanto, não há uma característica que permita reconhecer uma doença autoimune como sendo "reumática", exceto o desejo de alguém que também queira usar o adjetivo "reumática" para caracterizar uma doença que é apenas autoimune.

Além disso, as doenças autoimunes têm sido divididas em doenças de um só órgão (doenças órgão-específicas, como por exemplo a tiroidite de Hashimoto, que é uma doença autoimune da tiróide) e doenças "sistêmicas" ou doenças que afetam vários órgãos ao mesmo tempo (como o lupus sistêmico e a artrite reumatóide, por exemplo).

Mas a tiroidite de Hashimoto, que é uma doença autoimune órgão-específica, também é uma doença inflamatória, porque existe um processo inflamatório na tiróide que leva à destruição das células produtoras do hormônio da glândula, causando hipotiroidismo.
Por isso, se uma doença inflamatória autoimune fosse uma doença "reumática", como querem os defensores do mito "reumatismo", então a tiroidite de Hashimoto seria uma doença "reumática" e deveria ser estudada pela Reumatologia e tratada por reumatologistas, mas tenho certeza de que a Endocrinologia não concorda com essa visão, pois a tiroidite de Hashimoto é uma doença da glândula tiróide, que é uma glândula endócrina, e as doenças das glândulas endócrinas são estudadas pela Endocrinologia e tratadas pelos endocrinologistas.
Além disso, a tiroidite de Hashimoto também causa dor nos músculos, nos ossos e nas articulações e também pode causar artrite. Portanto, se uma doença dolorosa fosse uma doença "reumática", como querem os defensores do mito "reumatismo", e se uma doença articular fosse uma doença "reumática", a tiroidite de Hashimoto deveria ser uma doença "reumática"... duplamente... ou triplamente...

A presença do adjetivo "reumáticas" na expressão "doenças reumáticas autoimunes" não tem nenhuma finalidade de esclarecimento. Está ali apenas para dar ênfase à classificação das "doenças reumáticas", uma classificação sem base científica, que mistura doenças com características diferentes apenas para preservar a crença no mito "reumatismo" (leia REUMATISMO NO BRASIL -UM PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO).

Quem defende a estrutura de comunicação baseada em "reumatismo" ou em "doenças reumáticas" defende as práticas comerciais que exploram a "cura do reumatismo", que proliferam na internet oferecendo paus, folhas, raízes, pedras, pedaços de pano, metais e produtos orgânicos diversos, explorando a crença popular em "reumatismo" e a fé das pessoas na palavra "cura" (leia TEM CURA, DOUTOR?).

Quem defende a estrutura de comunicação baseada em "reumatismo" ou em "doenças reumáticas" defende os oportunistas e espertalhões que, sem saber o que são essas doenças e sem serem especialistas no assunto, sabem apenas pedir exames "para ver se é reumatismo", dizer que "é reumatismo" e passar algum "tratamento para reumatismo", composto de injeções de penicilina, associadas ou não a anti-inflamatórios e corticóides.

A simples eliminação do adjetivo "reumática" simplifica e melhora a comunicação médica, pois uma "doença reumática autoimune" é apenas uma doença autoimune e qualquer doença autoimune é capaz de causar inflamação e dores no corpo e de causar também FAN e fator reumatóide positivos.
Como FAN positivo, fator reumatóide positivo e dores no corpo não "são reumatismo" não há porque insistir em dizer que alguma doença autoimune "é" uma doença "reumática" autoimune.
"Reumatismo" é um mito popular; "reumatismos" não existem e doenças "reumáticas" também não.



Nenhum comentário: