domingo, 24 de abril de 2011

À PROCURA DE UM "REUMATISMO" - PARTE 2 - PSIQUIATRIA, DOR E "REUMATISMO"

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Muitas doenças psiquiátricas, principalmente a depressão, causam dor no corpo. Doenças psiquiátricas devem ser tratadas por psiquiatras.
Segundo um artigo publicado na revista Archives of General Psychiatry, de janeiro deste ano (Arch Gen Psychiatry. 2011;68(1):12-20), os psiquiatras não recebem treinamento para lidar com a queixa de dor das pessoas com doenças psiquiátricas.

Porque os psiquiatras não recebem treinamento para lidar com a queixa de dor, costumam pedir avaliação do reumatologista a respeito da dor musculo-esquelética que as pessoas portadoras de doencas psiquiátricas apresentam.
É papel do reumatologista diagnosticar e tratar as causas musculo-esqueléticas de dor musculo-esquelética (nesse caso, a doença que causa a dor é uma doença do sistema musculo-esquelético), mas se a causa da dor musculo-esquelética é a doença psiquiátrica, o responsável pelo tratamento é o psiquiatra.
Não há nenhum exame laboratorial que mostre que a dor musculo-esquelética que sente alguém que tem uma doença psiquiátrica é devida à doença psiquiátrica.
É a experiência do reumatologista no diagnóstico das doenças musculo-esqueléticas que o leva a concluir que nenhuma outra doença está presente e, por exclusão, a atribuir a dor à doença psiquiátrica.

Para as pessoas leigas, a relação entre as especialidades médicas Psiquiatria e Reumatologia é confusa, mas é fácil de entender o porquê, quando o mito "reumatismo" é introduzido na mente do doente.
O problema começa quando o psiquiatra, que atende alguém com uma doença mental que se queixa de dor musculo-esquelética, encaminha a pessoa doente para ser avaliada por um reumatologista, dizendo que é "para ver se é reumatismo".
Já vimos que a maioria das pessoas que acreditam em "reumatismo", acreditam que "o reumatismo" é a dor que sentem (leia COMO EVITAR SER ENGANADO COM “REUMATISMO” - PARTE 3 - NÃO ACREDITE QUE DOR “É REUMATISMO”).
Ora, se o psiquiatra sugerir que a causa da dor "é reumatismo" ou "é um tipo de reumatismo", a pessoa doente passará a desejar que assim seja, aceitando mais facilmente essa explicação.
Tenho atendido muitas pessoas nessa situação e percebi que elas chegam a mim “à procura de um reumatismo”.
Elas parecem querer que, pelo menos a dor que sentem, não seja devida à doença psiquiátrica e anseiam por alguém que lhes diga que elas “têm reumatismo”.
Mas “reumatismo” não é um diagnóstico, portanto ninguém “tem reumatismo”, pois “reumatismo” é apenas um mito popular.

Não estou dizendo que pessoas com lupus sistêmico, artrite reumatóide, artrose ou outra doença que afete o sistema musculo-esquelético não possam ter diagnósticos psiquiátricos em conjunto com suas doenças. Estou dizendo que a maioria das pessoas com diagnósticos psiquiátricos que se queixam de dor musculo-esquelética não apresentam nenhuma outra doença a que se possa atribuir a dor que sentem. A diferença é sutil, mas é importante.

Quando a queixa é dor musculo-esquelética e um diagnóstico psiquiátrico já foi feito, a maioria das pessoas avaliadas por reumatologistas apresenta uma única doenca: a doença psiquiátrica que já havia sido diagnosticada.

Um dos problemas surgidos na inter-relação entre reumatologistas e psiquiatras aconteceu com a descrição da fibromialgia, em 1990, quando ficou evidente que, quase sempre, fibromialgia e depressão estão relacionadas, de maneira que muitos pacientes com depressão eram reconhecidos como tendo também fibromialgia e muitos pacientes com fibromialgia eram reconhecidos como tendo também depressão.
Em 1990, a comunidade científica aceitava que fibromialgia e depressão poderiam coexistir na mesma pessoa, embora essa crença - para a qual nunca foi encontrada uma comprovação biológica - se baseasse apenas na opinião de experts no assunto.
Atualmente a controvérsia a respeito desse tema cresceu, depois da publicação dos novos critérios para o diagnóstico de fibromialgia, que sugerem que o diagnóstico não deve ser feito se houver um diagnóstico alternativo que explique o quadro clínico.
O diagnóstico de depressão é um diagnóstico alternativo que explica todos os sintomas que permitem fazer o diagnóstico de fibromialgia.
O significado clínico dessa informação é que algumas pessoas que recebem o diagnóstico de depressão podem apresentar todos os sintomas do quadro clínico que é atualmente chamado de fibromialgia, mas nesse caso a pessoa não tem fibromialgia; tem depressão.

Outros diagnósticos psiquiátricos associados com dor musculo-esquelética são: transtornos somatoformes, distúrbio de stress pós-traumático, dependências químicas e transtornos da personalidade.

Infelizmente, os próprios psiquiatras acreditam que "reumatismo" é uma explicação válida para a queixa de dor dos seus pacientes e, ao dizer isso, sem perceber, forçam as pessoas a enfrentar o problema de comunicação que venho divulgando.
Ao sugerir que a pessoa procure um reumatologista para investigar se há alguma doença musculo-esquelética causando dor e ao considerar que tal doença "seja um reumatismo", o psiquiatra reforça a crença das pessoas no mito "reumatismo", pois a concepção mitológica de "reumatismo" é a única que a maioria da população tem a respeito da dor musculo-esquelética.
Por isso, além de melhorar o treinamento dos psiquiatras a respeito da dor musculo-esquelética, como sugerido pelos autores do artigo citado no início, é preciso também esclarecê-los para que não recorram ao mito "reumatismo" como explicação para a dor musculo-esquelética.

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2 comentários:

dr Tiago Malucelli disse...

Olá, dr Luiz! É sempre uma satisfação ler suas postagens. Parabenizo pelo incansável esforço no combate ao mito Reumatismo. Um grande abraço, Tiago Malucelli.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Dr. Tiago:

Obrigado pela manifestação de apoio.

Obs: O Dr. Tiago é reumatologista em Pato Branco, PR.