domingo, 3 de abril de 2011

À PROCURA DE UM "REUMATISMO"...

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Josefa, 47 anos, obesa, dona de casa, sedentária, com hipotiroidismo há 5anos, reclama de sono ruim, cansaço permanente e irritabilidade.
Há 2 anos, apresentou um episódio de dor nas costas e procurou um "especialista de coluna" que, depois de solicitar uma radiografia e uma ressonância magnética da coluna lombar, diagnosticou desgaste no disco entre a quarta (L4) e a quinta (L5) vértebras lombares e indicou cirurgia para resolver o problema. Ela não quis se submeter à operação e preferiu fazer fisioterapia, que melhorou a dor.
Há 1 ano, começou a sentir dor nos joelhos, principalmente ao subir e descer escadas e ao levantar da posição sentada, momento em que precisa apoiar as mãos sobre os joelhos para dar os primeiros passos, até que a articulação "solte" e possa andar normalmente. Procurou um "especialista do joelho", que, após solicitar uma radiografia, diagnosticou artrose e disse que não havia o que fazer, além de tomar anti-inflamatórios e fazer fisioterapia e que, com o tempo, precisaria colocar uma prótese no joelho.
Há 6 meses começou a sentir dor na articulação na base do dedão do pé direito, principalmente ao caminhar, que tornava difícil andar mais do que uma quadra. Procurou um "especialista do pé" que, após solicitar uma radiografia, diagnosticou artrose e indicou cirurgia para resolver o problema. Ela preferiu não se submeter à operação e tem apenas tomado anti-inflamatórios para controlar a dor.
Há 3 meses começou a sentir dor na articulação da ponta do indicador direito (articulação interfalangeana distal) e notou o aparecimento de um caroço no local.
Há 1 mês, o mesmo aconteceu na articulação da ponta do quarto dedo da mão esquerda.
Foi então que Josefa se deu conta da sucessão de dores que vinha experimentando e resolveu procurar um reumatologista para, segundo suas palavras, "ver se não era um reumatismo que estava por trás de todas as dores".

Quando ouço dúvidas como essa, respondo prontamente:
-"Reumatismo" não é porque "reumatismo" não é uma doença, é apenas um mito popular. As pessoas acreditam que as afirmações "é um reumatismo" ou "é um tipo de reumatismo" ou "é por causa do reumatismo" explicam as dores que sentem, mas essas explicações, que não são um diagnóstico, não explicam coisa nenhuma. Quem acredita em explicações como essas nunca sabe o que tem, não entende o que está causando as dores, e não sabe o que deve fazer para lidar com as dores.

Quando a examinei, encontrei uma deformidade nos joelhos, chamada de joelho valgo, que impede a pessoa de fazer o que os militares chamam de "posição de sentido": ficar em pé, com os joelhos e os tornozelos bem juntos.
Se os joelhos são valgos e a pessoa está em pé, os tornozelos permanecem afastados quando os joelhos estão juntos. Nesse caso, a pessoa só consegue juntar os tornozelos se passar um dos joelhos um pouco à frente do outro.
Joelho valgo é uma deformidade comum em pessoas obesas e uma causa frequente de dor nessa articulação.
Encontrei também alterações características nas articulações das pontas do indicador direito e do quarto dedo esquerdo (articulações interfalangeanas distais). Essas alterações, identificáveis facilmente ao exame físico, são chamadas de nódulos de Heberden, cuja presença permite fazer o diagnóstico de artrose primária.

Artrose primária é artrose hereditária, ou seja, a pessoa nasce com a característica genética que leva à formação dos nódulos de Heberden, mas os nódulos só começam a aparecer lá pelos 40 anos. Além disso, em quem tem nódulos de Heberden, é possível que também apareça artrose na coluna, nos joelhos e em outras articulações, caracterizando uma forma particular de artrose primária, a artrose generalizada primária.

Artrose generalizada primária é o nome que se dá à concomitância de nódulos de Heberden com artrose de coluna, joelho e outras articulações.

Além da própria obesidade e das alterações já descritas, Josefa apresentava também muitos pontos dolorosos que podiam ser palpados sobre os músculos do pescoço, dos ombros, dos antebraços, das costas, dos quadris e dos joelhos, caracterizando o quadro clínico de fibromialgia.

Josefa, obesa, portadora de hipotiroidismo, fibromialgia e artrose generalizada primária, sentindo dores pelo corpo procurou especialistas dos locais doloridos (coluna, joelho, pé) e, quando não conseguiu uma resposta aceitável para o que sentia, resolveu procurar um reumatologista apenas "para ver se é reumatismo".

A crença em "reumatismo" é o que faz pessoas como Josefa, que tem quatro causas bem conhecidas de dor musculo-esquelética - obesidade, hipotiroidismo, fibromialgia e artrose generalizada primária - quererem descobrir também "um reumatismo" para explicar as dores que sentem.

A concomitância dessas quatro causas de dor musculo-esquelética - obesidade, hipotiroidismo, fibromialgia e artrose generalizada primária - é comum (todos os dias atendo pelo menos uma pessoa com esse quadro clínico) e as dores que essas pessoas sentem podem afetar, por uma razão ou outra, qualquer parte do corpo, várias partes ao mesmo tempo ou o corpo todo. O tratamento é complexo e requer:
- controle do hipotiroidismo - é a parte relativamente mais fácil.
- perda de peso - é difícil e demorado.
- tratamento da fibromialgia - requer atividade física diária e uso contínuo de medicamentos a longo prazo
- tratamento dos sintomas causados pela artrose (ou osteoartrite, como preferem os adeptos da nomenclatura americana): o reumatologista é o especialista indicado para reconhecer as dores próprias da artrose e separar esse tipo de dor das dores causadas pela obesidade, hipotiroidismo e fibromialgia.
Depois de dentificar as articulações afetadas pela artrose, deve-se determinar o grau de comprometimento funcional causado pela doença, para definir se o tratamento será apenas medicamentoso ou necessitará de intervenção cirúrgica. Quando outras doenças estão presentes, sem a identificação e controle das dores causadas pela obesidade, hipotiroidismo e fibromialgia, o tratamento da artrose, seja medicamentoso ou cirúrgico, geralmente não dá bons resultados.

Todo esse processo de tratamento é lento, dá muito trabalho e requer a participação ativa da pessoa doente, juntamente com uma equipe multidisciplinar que envolve os médicos reumatologista e endocrinologista, além de um fisioterapeuta e um nutricionista.
Aos olhos dos doentes, a crença em "reumatismo" oferece uma alternativa mais atrativa: após alguém dizer que "é reumatismo", basta a pessoa deixar tudo como está e apenas seguir o "tratamento para reumatismo".
Quem acredita em "reumatismo" e está "à procura de um reumatismo" pode ser facilmente enganado pelos praticantes da medicina baseada em reumatismo e, procurando uma solução fácil e rápida que não existe, fazer uso de qualquer coisa que seja vendida como "tratamento para reumatismo".
"Tratamento para reumatismo" é uma linguagem de propaganda que apenas explora a crença popular no mito "reumatismo".

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4 comentários:

Robson Luiz Dominoni disse...

Olá Dr Luiz. Fazia tempo que não lia seu blog. Gostei muito desse último. Sempre comento com meus amigos que falta para a população brasileira, de um modo geral, "educação em saúde". Talvez com um pouco mais de educação em saúde o tal do "reumatismo" e muitos outros mitos seriam desacreditados. Abraço, Robson.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Concordo plenamente, Robson.
Além de fazermos diagnósticos e instituirmos tratamentos, devemos também ser educadores da saúde, o que pressupõe educar sobre as doenças que diagnosticamos e tratamos.
Para educar em saúde, devemos usar fatos científicos, sem recorrer a mitos para explicar conceitos. Cabe a cada um de nós cumprir esse papel.

Obs. O Dr. Robson é reumatologista em Santa Catarina.

Ana Paula disse...

Doutor, eu tenho 23 anos e há pelo menos 3 sinto dores horríveis nas costas, pescoço, ombros e que às vezes se alastra para os braços e pernas. O primeiro especialista que procurei foi um reumatologista, que simplesmente me olhou e disse que não tenho nada. De lá pra cá tenho mudado de médico constantemente e feito muuuitos exames, que nunca deram nada. Ou seja, não tenho problema na coluna e em nenhum outro lugar. Recentemente o novo médico que me acompanha solicitou exame de sangue e o VHS deu 51 e a PCR estava 2.5. Será que isso explica alguma coisa? Tudo o que eu queria era descobrir a causa dessas dores e tratá-las.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Ana Paula:
Sem o exame físico, não há como interpretar os exames.
Isoladamente, VHS de 51 e PCR 2,5 não explicam a causa das dores.
Em quem sente dores musculo-esqueléticas, "você não tem nada" não é uma explicação válida. Essa afirmação significa apenas "não sei o que você tem".
Sugiro que você consulte outro reumatologista que dê mais atenção para o seu caso.