domingo, 29 de maio de 2011

PARA QUE SERVE O EXAME HLA B27




As idiotices propagadas por muitos séculos pela medicina humoral - leia O MITO REUMATISMO - PARTE 1 - que, sem conhecer o que quer que fosse sobre vírus e bactérias, infecções e defesas contra infecções, antígenos, anticorpos e sistema imunológico, atribuía o aparecimento das doenças ao desequilíbrio de reumas que não existem, explicando as doenças de maneira mitológica como se fossem o resultado de excesso ou falta de calor e de umidade no corpo, impediram por muito tempo o desenvolvimento do pensamento científico racional na medicina.
Quando a Reumatologia finalmente abandonou a mitologia e voltou-se para o estudo científico das doenças, descobriu que as doenças sistêmicas que estudava nada tinham a ver com calor, frio, seco e úmido, mas eram de origem imunológica e ocorriam em grupos familiares definidos, resultando de alguma interação entre o sistema imunológico e a carga genética das pessoas doentes. O sistema HLA é o principal responsável por essa interação.
HLA é a sigla de "Human Leucocyte Antigen" (antígeno leucocitário humano) e foi descoberto, no primeiro momento, como um sistema de antígenos celulares responsáveis pela rejeição de órgãos transplantados.
Se você imaginar a transfusão de sangue como uma espécie de transplante - na transfusão, uma pessoa doente recebe o sangue doado por alguém, da mesma forma que, no transplante, uma pessoa doente recebe um órgão doado por alguém - fica fácil de entender que, assim como o sangue para ser transfundido precisa ser compatível com o sangue de quem recebe a transfusão, um órgão, para ser transplantado, deve ser do mesmo tipo de tecido do receptor.
Os tipos de sangue, A, B, AB e O e a necessidade de compatibilidade entre o sangue de quem doa e de quem recebe a doação são conhecidos por todas as pessoas que completaram o ensino básico, mas a tipagem de tecidos e órgãos é um conhecimento especializado, ainda inacessível à maioria da população.
Para saber o tipo do sangue, pesquisamos os tipos A, B, AB e O e, em cada um desses tipos, um sub-tipo, o Rh, que pode ser positivo ou negativo.
Para saber o tipo dos tecidos e órgãos, pesquisamos o HLA.
Enquanto há apenas oito tipos de sangue, há centenas de tipos de HLA, que são representados por uma letra (A, B, C, E, F, G representam o HLA de classe I) ou duas letras (DR, DQ, DP representam o HLA de classeII), e por números (B27, por exemplo; cada letra comporta vários números e cada combinação de letras e números é um tipo diferente de HLA).
Na Medicina, cada conhecimento científico novo precisa ser testado de várias maneiras, para que se entenda como repercute na vida das pessoas.
Assim, quando os tipos de sangue foram descobertos, houve um momento em que era comum pesquisar quais tipos de sangue eram mais frequentes em determinadas doenças. Excluindo as doenças causadas pela incompatibilidade entre os tipos de sangue, as pesquisas sobre frequência dos tipos de sangue em outras doenças não levaram a nada porque não há associação entre os tipos de sangue e as outras doenças.
Por outro lado, em 1973, quando alguém resolveu pesquisar quais os tipos de HLA mais frequentes em determinadas doenças, descobriu que 90% das pessoas brancas que apresentam espondilite anquilosante têm o HLA B27, o qual está presente em apenas 8% dos brancos que não têm a doença.
Depois foi descoberto que o HLA B27 está presente em 40% das pessoas da raça negra com espondilite anquilosante e em apenas 2% das pessoas da mesma raça que não têm a doença.
A diferença da frequência do HLA B27 em pessoas com espondilite anquilosante, 90% em brancos e 40% em negros, chamou a atenção para o papel da raça nessa interação.
Além disso, a diferença nas frequências do HLA B27 entre pessoas brancas e negras com e sem espondilite anquilosante abriu um novo campo de estudos sobre a interação entre genética, imunologia e infecções como causa de doenças.
De fato, descobriu-se que o tipo de HLA de uma pessoa é determinado geneticamente e a frequência dos tipos varia entre as diferentes raças.
Posteriormente, descobriu-se que o HLA é uma proteína que exerce papel fundamental no processo de identificação de antígenos pelo sistema imunológico.
Para que um antígeno estranho ao organismo seja identificado como tal é preciso que seja "apresentado" a um linfócito T (o linfócito T é a principal célula do sistema imunológico e comanda a resposta imunológica contra agressões de microorganismos).
Quando um microorganismo agressor invade o corpo, os neutrófilos tentam destruí-lo.
Neutrófilos, assim como os linfócitos, são leucócitos - células brancas do sangue - mas a função dos neutrófilos é fagocitar e digerir microorganismos enquanto os linfócitos fazem a análise química dos antígenos que foram fagocitados pelos neutrófilos.
Quando os neutrófilos conseguem digerir um microorganismo, as partes estranhas do microorganismo são ligadas à molécula do HLA e expostas como antígenos na superfície do neutrófilo, que passa a funcionar como uma "célula apresentadora de antígeno".
Circulando no sangue, as células apresentadoras de antígeno entram em contato com os linfócitos T, ocorrendo interações químicas entre as moléculas de HLA da célula apresentadora de antígeno e alguns receptores químicos que existem na superfície dos linfócitos T.
A informação química sobre a estrutra do antígeno é transmitida para o linfócito T que, após fazer o reconhecimento da substância que lhe foi apresentada como sendo um antígeno, torna-se então capaz de comandar outra célula, o linfócito B, para que comece a produção de anticorpos (os linfócitos T reconhecem os antígenos, mas são os linfócitos B que produzem os anticorpos).
O funcionamento eficaz do sistema imunológico depende dessa troca de informações entre os diferentes tipos de células que dele fazem parte.
A troca de informação entre as células é feita por meio de substâncias químicas. Elas são produzidas em sequência, iniciando no momento em que um antígeno é ligado a uma molécula de HLA e exposto na membrana de uma célula apresentadora de antígeno, e terminando quando os anticorpos são liberados para o sangue pelos linfócitos B.
Quando os anticorpos aparecem na circulação, o destino dos microorganismos invasores está selado - na imensa maioria dos casos, a resposta imunológica irá eliminar os agressores e garantir a nossa sobrevivência como espécie. Sem um sistema imunológico e sem o sistema HLA, o homem já teria sido extinto.
O que vimos até agora de maneira bem simplificada é o conhecimento imunológico básico necessário para entender a função do HLA. Para entender para que serve o exame HLA B27 é preciso outro tipo de conhecimento - o conhecimento clínico.
Já vimos que o HLA B27, como todos os tipos de HLA, é uma molécula que caracteriza os tipos de células e, através das células, caracteriza os indivíduos que as apresentam.
Assim, só há dois resultados possíveis para o HLA B27: ou está presente - e dizemos que a pessoa é HLA B27 positiva - ou está ausente - e dizemos que a pessoa é HLA B27 negativa.
Ser positivo para o HLA B27 não significa ter nenhuma doença.
Ser negativo para o HLA B27 não significa não ter nenhuma doença.
Ser positivo para o HLA B27 significa apenas ter um risco genético maior de vir a ter determinadas doenças que são mais comuns em pessoas que apresentam o HLA B27.
Já vimos que 90% das pessoas da raça branca que têm espondilite anquilosante são HLA B27 positivas, o que equivale a dizer que 10% das pessoas brancas que têm espondilite anquilosante são negativas para o HLA B27.
Portanto, ser positivo para o HLA B27 apenas aumenta o risco de alguém vir a ter espondilite anquilosante mas não significa que a doença esteja presente e, se o exame for negativo, não significa que a pessoa não possa ter a doença.
A espondilite anquilosante faz parte de um grupo de doenças chamadas de espondiloartropatias, que apresentam como principal característica clínica a inflamação das articulações da coluna vertebral (espondilite significa inflamação da coluna).
Todas as espondiloartropatias são doenças sistêmicas que podem causar inflamação em qualquer articulação e em vários órgãos, mas a inflamação da coluna é a característica clínica mais importante para o reconhecimento delas.
As espondiloartropatias são quatro: espondilite anquilosante, artrite enteropática, artrite psoriásica e síndrome de Reiter.
Elas compartilham sintomas tão variados como artrite, dor nas costas, dor no calcanhar e uveíte anterior, entre outros, mas são diferenciadas por características clínicas.
Todas as espondiloartropatias, em maior ou menor grau, mostram associação com o HLA B27. A associação é maior na espondilite anquilosante (90%) e síndrome de Reiter (80%) do que na artrite psoriásica (30%) e artrite enteropática (20%), mas o verdadeiro papel do HLA B27 no aparecimento dessas doenças ainda é desconhecido.
Existem teorias que tentam explicar de que maneira uma doença inflamatória sistêmica poderia ser desencadeada em uma pessoa positiva para o HLA B27. Presume-se que algum agente infeccioso, ao ter seus antígenos expostos no HLA B27, desencadeie um processo inflamatório que, sem eliminar o agente agressor, cause inflamação em outros órgãos da pessoa doente. Mas essa teoria não explica o aparecimento da mesma doença em pessoas que são negativas para o HLA B27.
Algumas vezes, encontramos pessoas que apresentam sintomas comuns às espondiloartropatias mas não apresentam as características clínicas que permitam identificar uma delas. Para esses casos, usa-se o nome espondiloartropatia indiferenciada. Uma espondiloartropatia indiferenciada pode permanecer indiferenciada ou pode evoluir para uma das formas diferenciadas, mas atualmente não há como prever a evolução de cada caso.
Na prática, quando um reumatologista atende pela primeira vez alguém que apresente algum dos sintomas típicos das espondiloartropatias, ele pode solicitar a pesquisa do HLA B27 para avaliar o risco de espondiloartropatia, embora na maioria das vezes o diagnóstico seja feito apenas em bases clínicas, sem o recurso a esse exame.
Se o HLA B27 for positivo, na presença de um sintoma típico de espondiloartropatias, muitas vezes o diagnóstico da doença pode ser feito. Mas nem sempre. É a análise dos dados clínicos do doente que levará o reumatologista a fazer - ou não fazer - o diagnóstico pois o diagnóstico não se baseia apenas no exame positivo, mas no quadro clínico do doente.
É possível ter um sintoma típico de espondiloartropatia - como dor nas costas, por exemplo -, ser positivo para o HLA B27 e ainda assim não ter nenhuma espondiloartropatia.
O conhecimento sobre o assunto ainda é incompleto, mas a relação existente entre HLA e determinadas doenças permitiu entender melhor o funcionamento do sistema imunológico e do processo inflamatório e tem direcionado pesquisas que levaram a avanços importantes no diagnóstico e no tratamento dessas doenças.
Hoje sabemos que, se você não sente nada e tem HLA B27 positivo, você não está doente - o exame positivo significa apenas que as suas células são do tipo HLA B27 positivo.
Se você sente dor nas costas e tem HLA B27 positivo, é preciso conhecer outras características clínicas para que a dor nas costas seja considerada como sintoma de uma espondiloartropatia - para isso, consulte um reumatologista.
Se você tem artrite e HLA B27 positivo, são as características clínicas da artrite que dirão se é causada por uma espondiloartropatia - para isso, consulte um reumatologista.
Se você tem uveíte anterior e HLA B27 positivo, você pode esperar que a uveíte seja como a que se vê nas espondiloartropatias - unilateral e de repetição - mas para dizer que você tem espondiloartropatia é preciso conhecer outras características clínicas da doença - para isso, consulte um reumatologista.
Se você tem dor no calcanhar e tem HLA B27 positivo, é preciso ter outras características clínicas para dizer que a dor no calcanhar é causada por uma espondiloartropatia - para isso, consulte um reumatologista.
Diante desses fatos, é possível entender em primeiro lugar que o exame HLA B27 não serve para dizer que alguém está doente.
Para o reumatologista, a utilidade do exame é identificar uma característica biológica das pessoas e, sabendo que essa característica aumenta o risco de algumas doenças, analisar o quadro clínico para descobrir se alguma das doenças associadas ao HLA B27 está presente.
Diante dos fatos, para que um profissional atual diga que HLA B27 positivo significa "reumatismo", precisa ignorar todo o conhecimento científico sobre o exame e ser muito apegado aos mitos, revelando o desejo irracional de preservar a crença popular em "reumatismo" a todo custo.
HLA B27 é um exame de tipagem tecidual que, quando presente, revela um risco genético maior para o desenvolvimento de algumas doenças, mas não significa que nenhuma delas esteja presente.
Para entender o significado do exame é preciso, antes de tudo, entender que HLA B27 positivo não significa "reumatismo" porque "reumatismo" não é uma doença, é apenas um mito popular.




16 comentários:

Yorgut disse...

Voce quer me convencer que a Artrite Rematóide de cerca de 1,5% da população brasileira e maior causa de afastamento do trabalho pelo INSS é uma mera fantasia ??

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Yorgut:
Eu não e gostaria de saber como você chegou a essa conclusão lendo os artigos do blog pois em nenhum lugar afirmo ou insinuo que artrite reumatóide "é uma mera fantasia". Pelo contrário, em muitos artigos afirmo que artrite reumatóide é uma doença mas "reumatismo" é um mito.
Talvez você seja uma pessoa que quando lê "artrite reumatóide" entende "reumatismo" e quando lê "reumatismo" entende "artrite reumatóide". Há muitas pessoas assim nesse país, enganadas permanentemente pelo mito "reumatismo".
Se esse for o caso, acredito que deva se dedicar mais ao estudo da interpretação de textos antes de alardear conclusões absurdas.

paulo disse...

Bom dia! Dr Luiz, foi solicitado o exame HLA B27 para dar um diagnostico espondiloartropatia, apos o diagnostico existe algum tratamento e que venha a cura. Muito grato pela atenção.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Paulo:
Tem tratamento sim e deve ser feito por um reumatologista.
A respeito da "cura", leia TEM CURA, DOUTOR?

Paulo Costa disse...

Boa noite Doutor!

Achei bem pertinente seu artigo, por isto mesmo gostaria de que o senhor pudesse me auxiliar num momento muito difícil para mim. Tenho estado muito confuso e frustrado, pois, tendo os sintomas de uma espondilite, como dor acentuada pela manhã na região lombar irradiando para a bacia, com a característica rigidez matinal, que melhora ao longo do dia, todavia os exames que fiz até agora não mostram nada que comprove a espondilite. Já fiz ressonancia e rx sacroiliaca, HLA-B27, e tudo normal. Tenho os sintomas, mas os exames não os confirma, e fico sem saber o que tenho afinal. Isto tem me trazido muita inquietação, pois no meu trabalho, sou militar, estão achando que estou "enrrolando", mas não consigo fazer uma simples caminhada de 05 minutos sem sentir dor lombar, e isto há mais de 1 ano ininterrupto.Estou para retornar ao reumatologista que me pediu o HLA, que deu ausente. É possível que eu esteja com espondilite mesmo na ausencia de confirmação dos exames? Haveria outras patologias com sintomas parecidos?

julio cesar disse...

fui solicitado a fazer este exame hla e busquei informações encontrando este site, muito esclarecedoras as explicações, parabens!

lu esquerdo disse...

Olá, boa noite!
estou com dores lombares, com as características colocadas há mais de 3 anos. Tenho RM e Tomografia com alterações no disco e cistos na bacia, mas tudo fica inconclusivo. Fiz o exame hla e aguardo o reusltado, mas pelo que li, pode continuar sem condição diagnóstica? Se puder me esclarecer agradeço muito.
Até lá, um abraço.
Luciana

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Lu:
HLAB27 negativo não exclui nenhuma doença e não faz nenhum diagnóstico.
HLAB27 positivo isolado não faz nenhum diagnóstico.
O diagnóstico é feito baseado no quadro clínico e, se o quadro clínico permite suspeitar de espondilite anquilosante, o HLAB27 positivo pode confirmar o diagnóstico clínico.

Karen disse...

Excelente artigo. Dirimiu, de uma vez por todas, as minhas dúvidas.
Obrigada!

José disse...

Dr. Luiz Claudio, boa noite.Por favor me esclareça; Espondiloartrose cervical e lombar é diferente de Espondiloartrose Anquilosante? Pois sinto os sintomas desta última e nas RMs o laudo diz ser cervical e lombar.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

José:
Não existe "espondiloartrose anquilosante"; existe ESPONDILITE anquilosante.
Espondiloartrose significa artrose da coluna vertebral, podendo afetar uma ou mais das partes cervical, torácica, lombar e sacra da coluna.
Espondilite anquilosante é uma doença diferente e os achados de raios-X ou ressonância são bem diferentes na espondiloartrose e na espondilite.
Sugiro que consulte um reumatologista para revisar seus exames e esclarecer qual é o diagnóstico.

Arthur disse...

Oi Dr Luiz
fui diagnosticada com espondilite anquilosante, HLA B27 negativo, sacroileite... fui avaliada a junta militar de serviço, e como meu exame HLA B27 é negativo, eles disseram que é necessario ser positivo para aposentar. É possivel isso? Pode ser analizado desta forma, mesmo os exames de imagem e relatorio medico idicando a doença??
aguardo resposta, Obrigada!!

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Arthur:
O diagnóstico clínico de uma doença e a concessão de aposentadoria para a mesma doença são cenários diferentes, avaliados de maneiras diferentes.
O diagnóstico e o tratamento de uma doença depende da relação médico-paciente e do conhecimento científico a respeito da doença mas a concessão de aposentadoria depende da lei que regula o assunto e da maneira como os peritos analisam um caso individual em relação ao que a lei determina.
Ter um diagnóstico não é garantia de aposentadoria, por isso as interpretações no cenário clínico (do tratamento da doença) e legal (da concessão de aposentadoria) podem ser diferentes.

Catherine Smart disse...

ADOREI COLEGA

Catherine Smart disse...

adorei colega

Adriana disse...

Obrigado pelo artigo, dr. Luiz, muito bem explicado e de forma que nos leigos consiguimos compreender.