domingo, 2 de outubro de 2011

"REUMATISMO" NÃO É O NOME POPULAR DAS "DOENÇAS REUMÁTICAS"

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Tenho visto na internet muitas manifestações de sites que defendem o mito "reumatismo" dizendo que é apenas o "nome popular das doenças reumáticas".
Já tratei desse assunto no artigo CÂNCER E "REUMATISMO" - A DIFERENÇA ENTRE TERMO POPULAR E MITO mas vou apresentar mais algumas considerações a respeito.
O conceito de "reumatismo" é milenar; foi inventado antes de Cristo.
O conceito de "doenças reumáticas" é moderno, data da metade do século passado, quando a especialidade médica Reumatologia foi criada. Os primeiros reumatologistas "inventaram" a expressão "doenças reumáticas" depois de criarem a especialidade médica Reumatologia.

A expressão "doenças reumáticas", obviamente relacionada ao mito "reumatismo", foi escolhida conscientemente, como uma manobra de marketing, porque os seus criadores pensaram que o uso dessa expressão facilitaria o reconhecimento da nova especialidade. Segundo o raciocínio dos pioneiros, qualquer pessoa prontamente saberia que "doenças reumáticas" são a mesma coisa que "reumatismo", que "reumatologia" é a especialidade médica que trata de "reumatismo" e que, portanto, "reumatologia" é a especialidade médica que trata das "doenças reumáticas"...
O problema com essa forma de raciocínio é que, quando as pessoas ficam doentes, elas não sabem - e por isso não pensam - que "têm reumatismo"; é preciso que alguém, em algum momento, diga-lhes isso.

Quem diz que as pessoas têm "reumatismo" geralmente são profissionais que conhecem o mito "reumatismo" mas não conhecem as doenças que as pessoas realmente têm. Ou seja, quando dizem que alguém "tem reumatismo", eles na verdade não sabem o que a pessoa tem, apenas estão repetindo uma declaração sem significado técnico que é comumente usada nesse país para explicar às pessoas doentes a causa de dores nas articulações, nos ossos, nos músculos e na coluna. Entretanto, tal explicação nada explica, pelo contrário, complica.

Atualmente, quem faz o primeiro atendimento dessas pessoas são profissionais tecnicamente despreparados para fazer um diagnóstico correto mas mitologicamente motivados para dizer que as pessoas "têm reumatismo". Depois do primeiro atendimento, entretanto, tais profissionais nem sempre encaminham os doentes aos reumatologistas, mostrando que o raciocínio "quem trata de reumatismo é reumatologista" não corresponde à realidade.
Por isso, o sistema de atendimento estruturado no mito "reumatismo" causa atrasos no diagnóstico correto e na instituição do tratamento eficaz. Além disso, as pessoas que passam por esse tipo de primeiro atendimento enfrentam confusões provocadas por exames solicitados sem necessidade e por informações incorretas transmitidas por profissionais não qualificados a respeito do significado dos exames, sobre as doenças e sobre os tratamentos disponíveis.

Para divulgar uma especialidade médica não é preciso recorrer a mitos, basta apresentar, através de linguagem técnica, os fatos científicos sobre as doenças de que a especialidade trata e mostrar os resultados que podem ser alcançados com o tratamento científico dessas doenças. A população corretamente informada aprende rapidamente a quem deve procurar quando o problema são dores nas articulações.

Atualmente, muitas pessoas que foram beneficiadas pela ciência médica, reunem-se em associações de doentes, que contam com o apoio das sociedades de especialidades.
No caso da Reumatologia, as associações de doentes ignoram a trajetória da maioria das pessoas a elas filiadas. Em geral, essas pessoas precisaram passar por muitos obstáculos até chegarem ao diagnóstico correto e ao tratamento eficaz das suas doenças, dificuldades essas que foram causadas justamente pela crença no mito "reumatismo". Mesmo assim, as associações de doentes esforçam-se para preservar o mito, definindo-se como "associações de doentes reumáticos" ou outra expressão qualquer relacionada a "reumatismo".

Historicamente, a palavra "reumatismo" é muito mais antiga que a expressão "doenças reumáticas"; portanto, "reumatismo", que já existia no folclore, não pode ser, como querem os defensores do mito "reumatismo", o nome popular das "doença reumáticas", que foram descritas depois. É como se os criadores da expressão "doenças reumáticas" tentassem dizer às pessoas:
- Olhem, isso que vocês conhecem há dois mil anos como "reumatismo" são, na verdade, as "doenças reumáticas", que nós inventamos agora, por isso, quando vocês falam em "reumatismo", estão apenas usando o nome popular das "doenças reumáticas".

A verdade é que "doenças reumáticas" é a expressão pseudocientífica inventada para dar credibilidade ao mito "reumatismo", preservando-o na Medicina unicamente para divulgar a especialidade médica Reumatologia, através do recurso a palavras relacionadas, como reumatologista, reumático, reumatóide, etc. Ou seja, "doenças reumáticas" é o nome pseudocientífico inventado por "sábios" para se referir às doenças que as pessoas sempre conheceram - ainda conhecem e provavelmente sempre conhecerão - como o mito "reumatismo".
Diante dessa situação, cabe às novas gerações de reumatologistas decidir se querem continuar explorando o mito ou se irão finalmente eliminá-lo definitivamente da Medicina.

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4 comentários:

Robson Luiz Dominoni disse...

Olá Dr Luiz. Também penso que cabe aos novos reumatologistas mudar o foco do "reumatismo" para a doença "real" do paciente. Mas é difícil quando nossa população é tão carente de educação em saúde, quando ainda em pleno século XXI a população ainda acredita que vento frio traz "gripe", que andar descalço "dá cistite" e etc. Mas, continuemos tentando. Abraço, Robson.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Dr. Robson:

Concordo com o seu diagnóstico da situação cultural do país, mas vejo nisso um motivo para nos esforçarmos mais no papel de educadores.
Nos dias atuais, somos todos educadores e, para educar, devemos transmitir informação de qualidade, se quisermos que as pessoas deixem de acreditar em bobagens.
Entretanto, educar em saúde é difícil, pois o processo de assimilação das informações pela população depende de fatores que o educador não controla.
Por exemplo, ao fazer um diagnóstico, digo a uma pessoa que tem artrose que ela “não tem reumatismo”, que o que ela tem é artrose. Entretanto, a mesma pessoa pode ouvir outro profissional dizer que artrose “é um tipo de reumatismo” e que, por isso, ela tem “reumatismo” sim.
Esse tipo de conflito nas informações transmitidas por profissionais de saúde, mesmo quando ocorre através da linguagem, expresso no dilema verbal “ser ou não ser reumatismo, eis a questão”, gera uma incerteza que dificulta, para o leigo, a assimilação da informação correta.
Os defensores do mito “reumatismo” diriam prontamente que então eu deveria parar de dizer que “artrose é artrose” e começar a dizer que “artrose é reumatismo”, que o conflito desapareceria, pois todos passariam a dizer que “artrose é reumatismo” e viveríamos felizes para sempre... Entretanto, a unanimidade a respeito de “reumatismo” e “doenças reumáticas” que havia antes não parece ter se traduzido em felicidade para a população nem para a maioria dos reumatologistas.
Como médicos que tratam de doenças crônicas, mesmo sabendo das dificuldades envolvidas, devemos educar as pessoas a respeito das doenças que estamos tratando e, para isso, precisamos transmitir informações simples, claras e objetivas sobre as doenças, não sobre as crenças que as pessoas têm a respeito.
As trevas da ignorância só podem ser iluminadas pela luz da ciência; de outra forma, continuarão trevas para sempre.

Bárbara Rezende disse...

Dr. Luiz estou muito preocupada, meu pai faleceu de câncer e um outro tio dele tb, minha avó teve câncer de mama e de pele... E agora fazendo um exame de sangue, já que tenho sentido muitas dores no corpo, VHS deu na 1ª hora 29mm, anti-estreptolisina O 393,2 UI/ml o que quer disser isso? Meu médico está marcado só no próximo mês e queria uma opinião sua!!!

Obrigada por ter esse blog maravilhoso

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Bárbara:
O ASLO aumentado mostra apenas que, em algum momento nos últimos 6 meses, você teve uma infecção por estreptococo. O significado clínico dessa informação, para saber se o resultado do exame tem algo a ver com o que você sente, só pode ser concluído após conhecer a história e o exame físico da pessoa.
O VHS de 29 está um pouco aumentado, mas esse valor pode ser visto em mulheres jovens, na época da ovulação, por exemplo, e pode ser normal após os 50 anos de idade. Por isso, os valores em si não devem ser considerados indicativos de doença, a menos que dados da história e do exame físico permitam chegar a essa conclusão.
Como você diz que sente dores no corpo, sugiro que consulte um reumatologista, mas por causa das dores no corpo, não pelo resultado dos exames.