domingo, 20 de novembro de 2011

QUANDO A DOENÇA NÃO É LEVADA A SÉRIO

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com.br/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

Em outubro, apareceu no Portal da Saúde,
http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=38318
o seguinte texto que, pelo número inacreditável de informações incorretas apresentadas em tão pouco espaço, merece ser contestado imediatamente, para tentar minimizar os estragos que possam ser causados por uma declaração oficial de tão baixa qualidade.
Infelizmente só tomei conhecimento dessa obra de ignorância no dia 15 de novembro mas ainda assim irei apresentar minhas objeções a ela, esperando ajudar a quem possa ter sido confundido pelas informações desencontradas transmitidas pelo Ministério.

Dia Nacional de Luta contra o Reumatismo
Ministério da Saúde lembra a importância de se esclarecer sobre essa doença que afeta 6% da população no Brasil.
No próximo domingo (30) o Ministério da Saúde estará lançando campanha de esclarecimento sobre o reumatismo no Brasil. A doença, que afeta 6% da população brasileira, não faz distinção de sexo ou idade. Pode atingir tanto homens quanto mulheres de qualquer idade. Mas ao contrário de algumas doenças, que chegam silenciosas e sem alarde, o reumatismo é fácil de detectar e o paciente pode identificar em casa.
Os sintomas iniciais do reumatismo são dores nas articulações, principalmente quando for superior a seis semanas e estiver acompanhada de inchaço, calor ou dificuldade para movimentar as juntas, sobretudo ao acordar pela manhã. Se a doença for descoberta nesses primeiros sinais e tiver um tratamento adequado o paciente reumático pode levar uma vida normal, diminuindo assim os riscos da incapacidade física.
Os tratamentos, garantidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para o cuidado e o manejo das doenças reumáticas incluem tratamentos diversos (com a utilização de práticas integrativas e complementares, exercícios, terapia física, entre outros) e farmacológico (com o uso de medicamentos). Por isso é fundamental a combinação da ação da atenção básica com outros especialistas da SUS.
Em alguns países, como a França, 34% dos pacientes com menos de 60 anos diagnosticados com artrite reumatóide (tipo mais comum da doença) tiveram aposentadoria precoce. No Brasil as doenças reumáticas constituem a segunda causa de gastos em benefícios de auxílio-saúde concedidos à população (dados 2008).
Mulheres – Apesar de afetar homens e mulheres, jovens e idosos, o público com maior prevalência da doença são as mulheres entre 30 e 40 anos. Elas chegam a ter reumatismo duas vezes mais que os homens. Por esse motivo elas devem ficar atentas a alguns fatores de risco, como idade avançada, obesidade, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas em excesso e ingestão de fármacos que podem contribuir para o surgimento da doença.
Atento para os danos causados pelas doenças reumáticas o Ministério da Saúde alerta, nesse dia 30 de outubro, para a importância em realizar atividades que reduzam os riscos dessas enfermidades. Para isso vale a prática regular de atividades físicas, que se realizadas de maneira correta, ajudam a prevenir a doença.

1. Ministério da Saúde lembra a importância de se esclarecer sobre essa doença...
Qual doença?
Evidentemente a doença de que trata o artigo é... “o reumatismo”, que não é uma doença, é apenas um mito popular.
Alguns profissionais usam a expressão "o reumatismo" como uma maneira de falar imprecisa e antiquada, apenas porque sabem que a população acredita no mito "reumatismo" como sendo uma doença. Essa forma de comunicação viciada pode funcionar na intimidade do consultório de alguém, falando com uma pessoa em particular, mas quando se fala com a população, os problemas de comunicação aparecem. Quem está doente, procura informações sobre a doença que tem, não sobre um termo que se aplica a diversas doenças diferentes, cada uma com seus sintomas peculiares e com necessidades diferentes de tratamento. Para quem tem uma doença, não importa receber informações sobre outra doenças. Por isso, para falar com clareza sobre uma doença, o mais importante é dizer o nome da doença. "Reumatismo" não é o nome de nehuma doença.
Sobre "maneiras de falar" é bom lembrar que, popularmente, alguém pode explicar uma morte com a expressão "morreu de susto". Cientificamente, entretanto, "morrer de susto" é inaceitável, porque não se refere a um mecanismo específico de morte. Da mesma maneira, popularmente, as pessoas falam sobre "ter reumatismo" mas, cientificamente, tal maneira de falar é inaceitável porque, nos dias de hoje, quem procura atendimento médico está recorrendo à ciência, não ao curandeirismo nem à magia. O agente da medicina científica é o médico, que deveria portar-se como tal, deixando de lado as crendices populares para educar as pessoas a respeito das doenças que elas realmente têm.

2. ...que afeta 6% da população no Brasil.
6%? De onde saiu tal número?
Artrite reumatóide afeta 1% da população. Lupus eritematoso sistêmico afeta 0,1% da população. Espondilite anquilosante afeta 0,5% da população. Fibromialgia afeta 2% da população. Em algum momento da vida, 80% da população experimentará um episódio de dor nas costas.
Ah! O autor deve querer dizer que 6% da população é afetada pelo... “reumatismo”! Mas "reumatismo" não é uma doença para afetar alguém, é apenas um mito popular do qual as pessoas falam sem conhecimento. E as pessoas que falam de "reumatismo" como se fosse uma doença, como o autor do texto, misturam várias doenças diferentes ao falar do mito.


3. A doença não faz distinção de sexo e idade. Pode atingir tanto homens quanto mulheres de qualquer idade...
Qual doença?
Polimialgia reumática só ocorre após os 50 anos de idade, portanto é uma doença que faz distinção de idade.
Artrite idopática juvenil é uma doença que só ocorre abaixo dos 16 anos, portanto faz distinção de idade.
Ah! A doença que não faz distinção de sexo e idade, atingindo tanto homens quanto mulheres de qualquer idade é... “o reumatismo”! Mas “reumatismo” não é uma doença, é apenas um mito popular.

4. Mas ao contrário de algumas doenças, que chegam silenciosas e sem alarde, o reumatismo é fácil de detectar e o paciente pode identificar em casa.
Essa é para rir...
O autor acha fácil detectar “o reumatismo” porque confunde o mito “reumatismo” com alguma doença e, para ele, essa doença seria fácil de detectar. Na frase, podemos também concluir que o autor está falando de artrite reumatóide porque mais adiante irá citar o critério de 6 semanas, usado para diagnosticar artrite reumatóide, como uma característica inicial do que quer dizer com "o reumatismo é fácil de detectar".
Artrite reumatóide não é fácil de detectar. O diagnóstico de artrite reumatóide tem sido aperfeiçoado ao longo de 2 séculos e ainda hoje representa um desafio formidável no início da doença, mas o autor não sabe disso e, ao afirmar que "o reumatismo é fácil de detectar”, confunde o mito com a doença. Entretanto, “reumatismo” não é uma doença, portanto não pode ser “fácil de detectar”. Só se pode detectar o que é acessível aos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar) ou a instrumentos científicos. Mitos não podem ser “detectados” mas são prontamente reconhecidos por quem acredita neles.
Os médicos que acreditam no mito "reumatismo" podem identificar uma doença e, sem dizer qual é a doença, dizer que "é reumatismo" - é uma questão de consciência individual e nada impede que ajam assim. Por outro lado, os exploradores do mito "reumatismo" dizem "é reumatismo" mesmo sem saber qual é a doença, um ato de pura malandragem e má fé. Seria bom saber com qual desses dois grupos o Ministério da Saúde se alinha ao dizer que "reumatismo é fácil de detectar".

5. Os sintomas iniciais do reumatismo são dores nas articulações, principalmente quando for superior a seis semanas e estiver acompanhada de inchaço, calor ou dificuldade para movimentar as juntas, sobretudo ao acordar pela manhã.
Os sintomas descritos não são “do reumatismo”; são os sintomas da artrite reumatóide, conclusão a que se pode chegar por causa da referência ao critério de seis semanas. Mas os mesmos sintomas também podem ser vistos em muitas outras doenças, como artrite psoriásica, espondilite anquilosante, lupus eritematoso sistêmico, artrite reativa, gota, outras formas de artrite e em algumas formas de artrose, que não precisam causar sintomas por 6 semanas para serem diagnosticadas. Assim, é possível entender que o autor do texto considera "reumatismo" como sendo a mesma coisa que artrite reumatóide. Mas não é.
Artrite reumatóide é uma doença; "reumatismo" é um mito popular. É erro comum, cometido pelos ignorantes, confundir o mito com as doenças que ele representa.

6.Se a doença for descoberta nesses primeiros sinais e tiver um tratamento adequado o paciente reumático pode levar uma vida normal, diminuindo assim os riscos da incapacidade física.
Tenho que concordar com a ideia geral dessa assertiva, se “a doença” a que o autor se refere for artrite reumatóide, mas não concordo com a expressão “o paciente reumático”, porque remete ao mito e, nesse caso, já não se tem certeza de qual doença o autor está falando.
O significado da expressão “o paciente reumático” é “o paciente que tem reumatismo”, mas, uma vez que “reumatismo” não é uma doença, é apenas um mito popular, um paciente não pode “ser reumático” porque na verdade ninguém “tem reumatismo”. Para melhorar a comunicação é preciso dizer com clareza qual é a doença que precisa ser “descoberta aos primeiros sinais”. Da maneira como foi feita a afirmação, ninguém sabe a que doença o autor se refere, nem ele mesmo.

7.Os tratamentos, garantidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para o cuidado e o manejo das doenças reumáticas...
Opa! Agora já está falando de várias doenças... No começo era “o reumatismo”, agora são “as doenças reumáticas”....
O autor muda de conceitos à vontade, como se estivesse falando de algo claro e cristalino, que para ele é uma coisa só. Entretanto, “as doenças reumáticas” são “mais de cem doenças” (para usar o bordão antiquado da Sociedade Brasileira de Reumatologia) e cada uma delas precisa ser corretamente diagnosticada para que o tratamento adequado seja instituído. “O reumatismo” é apenas um mito popular sobre essas doenças.
É erro comum entre os ignorantes pensar que todas as doenças a que eles se referem como "reumatismo" são tratadas da mesma maneira e por isso acreditam que não há necessidade de fazer o diagnóstico exato de qual doença é, para instituir o tratamento adequado.
A respeito dos “tratamentos garantidos pelo Sistema Único de Saúde” (SUS) digo que, para artrite reumatóide, doença que afeta 1% da população e cuja principal manifestação clínica é artrite, o SUS coloca à disposição todos os medicamentos novos e de alto custo disponíveis em qualquer parte do planeta mas, em Curitiba, por exemplo, não existe alopurinol nem colchicina disponível no SUS, medicamentos antigos, de baixo custo e essenciais para o tratamento da gota, doença que também afeta 1% da população e cuja principal manifestação clínica também é artrite. Será que o Ministério da Saúde não considera a gota uma “doença reumática”?...

8.Por isso é fundamental a combinação da ação da atenção básica com outros especialistas da SUS.
… “da” SUS?
A ideia de que a atenção básica pode dar atendimento adequado às doenças musculo-esqueléticas é fantasiosa. Para que seja eficaz, o atendimento básico da dor musculo-esquelética deve ser feito por reumatologistas. Enquanto não for implementada essa mudança, continuaremos a ver pessoas fazendo exames "para ver se é reumatismo", usando injeções de penicilina para "tratar o reumatismo", sendo encaminhadas para os reumatologistas porque o FAN, o fator reumatóide, o ASLO, o VHS ou a proteína C reativa deram positivos ou aumentados e os pacientes com artrite reumatóide continuarão chegando ao reumatologista após um ou dois anos de doença, muito tempo depois do início dos sintomas. O mesmo raciocínio se aplica para qualquer outra doença que se manifeste com dor nas articulações, nos ossos, nos músculos e na coluna.

9. Em alguns países, como a França, 34% dos pacientes com menos de 60 anos diagnosticados com artrite reumatóide (tipo mais comum da doença) tiveram aposentadoria precoce.
Agora artrite reumatóide passou a ser o “tipo mais comum da doença”...
Qual doença? Artrite reumatóide? Artrite reumatóide é o tipo mais comum da doença artrite reumatóide?
Ah! O autor quer dizer que artrite reumatóide é o tipo mais comum de “reumatismo”.... Bem, “reumatismo” não é uma doença, é apenas um mito popular, portanto “artrite reumatóide”, que é uma doença, não pode ser o tipo mais comum de um mito.

10. No Brasil as doenças reumáticas constituem a segunda causa de gastos em benefícios de auxílio-saúde concedidos à população (dados 2008).
Não vejo qual a utilidade de reconhecer "as doenças reumáticas" como a segunda causa de gastos em benefícios de auxílio-saúde pois na expressão "as doenças reumáticas" estão incluídas diversas doenças que afetam a população de maneiras diferentes.

11. Mulheres – Apesar de afetar homens e mulheres, jovens e idosos, o público com maior prevalência da doença são as mulheres entre 30 e 40 anos.
Maior prevalência de qual doença?
Artrite reumatóide é mais comum nas mulheres mas espondilite anquilosante é mais comum nos homens.
Fibromialgia é mais comum nas mulheres, mas gota é mais comum nos homens.
Febre reumática, por outro lado, é muito mais comum na infância e adolescência e rara na faixa dos 30 a 40 anos.
Sem dizer de qual doença alguém está falando, não dá para entender o que está sendo dito.

12. Elas chegam a ter reumatismo duas vezes mais que os homens.
Não é possível que uma (“des”) informação como essa, de tão má qualidade, seja veiculada como informação oficial do sistema de saúde.

13. Por esse motivo elas devem ficar atentas a alguns fatores de risco, como idade avançada, obesidade, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas em excesso e ingestão de fármacos que podem contribuir para o surgimento da doença.
Para o surgimento de qual doença? Da artrite reumatóide? Se for, a informação está quase completamente errada.
Por ser mais comum dos 30 aos 40 anos, idade avançada não é um fator de risco para artrite reumatóide, mas é para artrose e polimialgia reumática, por exemplo.
Obesidade nada tem a ver com risco para artrite reumatóide, mas é um fator de risco para artrose dos joelhos e da coluna.
Consumo de bebidas alcoólicas em excesso é um fator de risco para gota e osteonecrose, não para artrite reumatóide nem artrose.
"Fármacos que podem contribuir para o surgimento da doença" podem ser relacionados com lupus eritematoso induzido por drogas, osteonecrose ou osteoporose, mas nada têm a ver com artrite reumatóide ou artrose.
Dos fatores de risco citados, o único que se aplica à artrite reumatóide é o tabagismo, porque artrite reumatóide é mais comum nos fumantes.
Portanto, a afirmação do texto é obscura e não há como saber a que se refere.
Por outro lado, se a doença a que o autor se refere for "o reumatismo", que não é uma doença, é um mito popular, faltou dizer que o principal fator de risco para ela é a ignorância, tanto de quem fala quanto de quem ouve.

14.Atento para os danos causados pelas doenças reumáticas o Ministério da Saúde alerta, nesse dia 30 de outubro, para a importância em realizar atividades que reduzam os riscos dessas enfermidades.
A prática de atividade física não reduz o risco de nenhuma doença musculo-esquelética mas dá ao doente melhores condições de enfrentar qualquer doença. Dentro do limite físico de cada um, é importante para todas as pessoas que querem ter boa saúde praticarem exercícios físicos regularmente.
Ao fazer exercícios, as pessoas que não estão doentes devem focar-se nos benefícios para a saúde, não para "reduzir os riscos dessas enfermidades", porque isso não é possível.
As que estão doentes, devem pensar no exercício como complementar ao tratamento medicamentoso, para manterem-se ativas e independentes.

15. Para isso vale a prática regular de atividades físicas, que se realizadas de maneira correta, ajudam a prevenir a doença.
Prevenir a doença...
Artrite reumatóide não pode ser prevenida por exercícios, gota também não, artrose muito menos, lupus eritematoso sistêmico não é prevenido com exercícios; enfim, pelo texto, é impossível saber qual doença será prevenida com a prática regular de atividades físicas.
A explicação para a afirmação feita no texto está na confusão que os ignorantes fazem entre a dor musculo-esquelética e as doenças que a causam.
Popularmente, as pessoas falam das dores musculo-esqueléticas que surgem após os 40 anos de idade como sendo "reumatismo", mesmo quando nenhum diagnóstico de doença pode ser feito nas pessoas que sentem essas dores. O que fica claro nessa situação, quando nenhum diagnóstico é feito, é que, para quem fala, as dores é que são "o reumatismo".
As dores musculo-esqueléticas que surgem após os 40 anos podem ser relacionadas tanto com a falta quanto com o excesso de exercícios (a virtude realmente está no meio termo). Acredita-se que a prática regular de exercícios durante toda a vida é a maneira mais adequada de prevenir o aparecimento dessas dores, que as pessoas popularmente chamam de "reumatismo", mesmo quando nenhuma doença as está causando, Por isso, ao afirmar que "ajudam a prevenir a doença", o autor está considerando "o reumatismo" como "a doença", mesmo quando não há doença alguma, a não ser as dores causadas pela falta ou excesso de exercícios.


É inacreditável como, enquanto outros assuntos recebem tratamento técnico e cultural de alto nível, a saúde e a doença são tratadas de forma tão amadorística pelos governantes.
Sinto vergonha quando leio textos como esse, do DIA NACIONAL DE LUTA CONTRA O REUMATISMO.

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2 comentários:

Robson Luiz Dominoni disse...

Nossa...
Texto do site do Ministério da Saúde! Tem tanta informação errada e apresentada de forma confusa que fica difícil até mesmo para um médico entender.
Imagine a confusão na cabeça dos pacientes!
Mais uma demonstração do descaso com a saúde. Infelizmente...

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

O Dr. Robson é reumatologista em Santa Catarina.