domingo, 3 de junho de 2012

O QUE É FENÔMENO DE RAYNAUD? ou FENÔMENO DE RAYNAUD NÃO É "REUMATISMO" e FENÔMENO DE RAYNAUD NÃO É "UM TIPO DE REUMATISMO"


LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM




A leitora Stela postou o seguinte comentário ao artigo O FRIO NÃO CAUSA "REUMATISMO"

Bom dia Doutor,
Em março de 2009, fui "diagnosticada" com hipertensão. Naquele inverno comecei a sentir um tipo de "congelamento" nas extremidades... os dedos das mãos chegavam a ficar roxos e gelados, e com muita dor.
Um cardiologista disse, só de "olhar", que era "Síndrome de Renault"...trocou meu remédio de pressão (losartana) por um vasodilatador...quase me matou de tanta dor nas articulações.
Voltei por conta para minha losartana e procuro não expor tanto minhas mãos ao frio, o que é bem difícil morando em São José dos Pinhais.
Só gostaria de saber se essa tal Síndrome realmente existe ou é mais uma "esperteza" da parceria?
Obrigada, Tudo de bom, Stela



Stela:
Você está bem confusa com o uso das aspas...
Como regra básica - além de outras - as aspas são usadas para ressaltar palavras ou expressões populares, gírias, neologismos, estrangeirismos e arcaísmos
(ver http://www.brasilescola.com/gramatica/aspas.htm)

Em primeiro lugar, diagnosticar é o que os médicos fazem.
Diagnosticar é reconhecer uma doença, um sintoma, uma alteração qualquer no organismo e dar o nome científico ao que é diagnosticado. Não é mágica, não é adivinhação; é o resultado do raciocínio lógico aplicado ao conhecimento científico.
"Diagnosticar" (entre aspas), por outro lado, é inventar um nome qualquer, não científico, para uma doença, um sintoma ou uma alteração qualquer no organismo, como é o caso dos profissionais que "diagnosticam" ou "comprovam" ou "confirmam" "reumatismo" ou "reumatismo no sangue", por exemplo.
"Reumatismo" e "reumatismo no sangue" não são doenças, não são nomes científicos de doenças; "reumatismo" é apenas um mito popular e "reumatismo no sangue" não existe.

Para diagnosticar hipertensão basta medir a pressão arterial através do "aparelho de pressão" (o nome do aparelho na verdade é esfigmomanômetro; "aparelho de pressão" é apenas o nome popular do esfigmomanômetro).
A pressão arterial aumentada, medida pelo esfigmomanômetro, é o único dado necessário para diagnosticar hipertensão, portanto, você não foi "diagnosticada" (com aspas), você foi diagnosticada (sem aspas), porque hipertensão é um diagnóstico médico legítimo e científico.

Vou assumir que, quando escreveu "síndome de Renault", você quis dizer na verdade síndrome de Raynaud (Maurice Raynaud foi o médico francês que descreveu o fenômeno pela primeira vez, no século XIX; pronuncia-se "reinô").
Imagino que a revolta que você demonstra ao usar a expressão "esperteza da parceria" deriva do fato de ter entendido o nome da síndrome de Raynaud como o nome da marca de automóveis Renault e por isso achou que era alguma espécie de gozação.

Síndrome de Raynaud é uma maneira aceitável de chamar o fenômeno de Raynaud, nome dado a uma sequência de mudanças de cor das extremidades do corpo expostas ao frio. É mais comum de ser observado nos dedos das mãos, mas também pode ocorrer nos pés, no nariz e nas orelhas.
A descrição clássica do fenômeno de Raynaud corresponde ao que se observa em pessoas de pele clara pois as mudanças de cor que caracterizam o fenômeno não são tão evidentes na raça negra.

Na forma clássica, o fenômeno de Raynaud aparece como resultado do resfriamento das extremidades que, em algumas partes do corpo, provoca a contração exagerada (vasoconstrição) dos vasos sanguíneos (artérias) que levam o sangue para as extremidades.
A vasoconstrição inicial desencadeia uma sucessão de mudanças de cor no local afetado, que passa de esbranquiçado ou pálido para arroxeado e depois para avermelhado, para em seguida voltar ao normal. A duração do ciclo todo é variável, mas em geral é de poucos minutos e o ciclo pode ser repetido várias vezes ao longo do dia.
A primeira fase é reconhecida pela palidez - os locais afetados ficam pálidos, esbranquiçados, contrastando com a coloração rósea normal dos locais não afetados.
A segunda fase é reconhecida pela cianose - os locais afetados ficam roxos.
A terceira fase é reconhecida pela hiperemia - os locais afetados ficam avermelhados.

As três fases ocorrem em sequência - palidez, cianose e hiperemia - mas alguma delas pode faltar, geralmente a de hiperemia. O fenômeno costuma ser acompanhado de dores, formigamentos, choques ou de outros sintomas estranhos.

O fenômeno de Raynaud é desencadeado pela exposição ao frio, é temporário e ocorre somente em crises. É uma alteração na circulação periférica das extremidades em que:
1) primeiramente ocorre a diminuição da circulação do sangue no local afetado como efeito da vasoconstrição das artérias (o nome técnico para a diminuição do sangue nos locais afetados é isquemia). O local fica pálido porque tem menos sangue do que os locais que conservam a cor normal da pele.
2) quando o sangue circula normalmente por uma parte do corpo, retira dali o gás carbônico que é continuamente produzido pelas células. Como na primeira fase do fenômeno de Raynaud a circulação diminui, o gás carbônico aumenta no local afetado, porque a diminuição da circulação impede a sua retirada. O aumento do gás carbônico provoca uma alteração na hemoglobina das hemáceas (células vermelhas do sangue) que ficam retidas no local onde a circulação diminui. A hemoglobina alterada pelo gás carbônico muda de cor, passando da cor vermelha normal para azul ou roxa, causando a cianose. A cor roxa da cianose é a característica da segunda fase do fenômeno de Raynaud.
3) na terceira fase, desaparece o estímulo que provocou a vasoconstrição e o sangue começa a voltar para o local afetado, produzindo uma reação inversa, que é a dilatação dos vasos (vasodilatação) que estavam contraídos. O resultado da vasodilatação é que o sangue volta em quantidade maior do que o normal ao local inicialmente afetado pela vasoconstrição e esse aumento da quantidade de sangue é que produz a cor vermelha característica da fase de hiperemia.

Toda a sequência de alterações observadas nos locais afetados pelo fenômeno de Raynaud é modulada por substâncias químicas que aumentam e diminuem sucessivamente, provocando mudanças na circulação do sangue, as quais são acompanhadas de variações visíveis na cor da pele.

Por isso, o diagnóstico do fenômeno de Raynaud é feito quando se vê as alterações de cor características, ou seja, basta olhar para o fenômeno para fazer o diagnóstico. Portanto, Stela, você foi injusta com o cardiologista ao escrever que ele disse, só de "olhar" (com aspas), que era "síndrome de Renault" (com aspas, imaginando que você quis dizer síndrome de Raynaud).
Você deveria escrever que, só de olhar, o cardiologista disse que era síndrome de Raynaud, o que estaria perfeitamente correto.

Acredite, há profissionais que, ao ver o fenômeno de Raynaud, declaram imediatamente que "é reumatismo"...
Isso seria um "diagnóstico" (com aspas, porque "reumatismo" não é um diagnóstico, não é uma doença; é apenas um mito popular).
Quando as pessoas me contam que alguém fez tal afirmação, ao ver as mudanças de cor nos dedos das mãos provocadas pelo fenômeno de Raynaud, digo simplesmente:
- Não é. É fenômeno de Raynaud.

Fenômeno de Raynaud é o nome que se dá às alterações de cor em si mas, como sabemos que o fenômeno de Raynaud ocorre em diversas doenças e também em pessoas normais, é aceitável dizer que é uma síndrome - síndrome é o nome dado a um conjunto de sintomas que são comuns a várias doenças. Pessoalmente, prefiro chamar o que vejo de fenômeno de Raynaud, mas síndrome de Raynaud também é correto.
Quando se diagnostica uma síndrome, o próximo passo é diagnosticar qual doença a está causando, uma vez que várias doenças podem provocar a síndrome.

A maioria das pessoas que apresentam fenômeno de Raynaud, não apresentam nenhuma doença além do fenômeno em si e começam a apresentá-lo já na infância ou na adolescência. Essa situação é conhecida atualmente como fenômeno de Raynaud primário ("primário" significa que não há nenhuma doença causando o fenômeno).
Nas pessoas que apresentam o fenômeno de Raynaud primário, considera-se que seja apenas a expressão da reatividade natural ao frio aumentada, mas a expressão "reatividade natural ao frio aumentada" é apenas uma explicação verbal para o fato de o fenômento ser desencadeado pela exposição ao frio. A causa verdadeira é desconhecida.

O fenômeno de Raynaud primário afeta de 3 a 5% da população e também é chamado de doença de Raynaud, o que causa certa confusão. Na maioria das pessoas que apresentam fenômeno de Raynaud primário não há outros sintomas e apenas se observam as curiosas variações de cor nos locais afetados, sem nenhuma consequência física, por isso alguns médicos preferem excluir a palavra "doença" da nomenclatura, dando preferência à expressão fenômeno de Raynaud primário.

Por outro lado, algumas pessoas que apresentam o fenômeno de Raynaud, apresentam também alguma outra doença associada ao fenômeno. Nesses casos dizemos que o fenômeno de Raynaud é secundário.
Fenômeno de Raynaud secundário geralmente começa na idade adulta e, por definicão, está sempre associado com outra doença.
O fenômeno de Raynaud secundário tende a ser mais grave do que o primário e pode causar complicações como úlceras digitais (feridas nas pontas dos dedos) e até mesmo levar à perda de parte de um dedo (geralmente a ponta), do dedo todo ou de vários dedos.
O fenômeno raramente afeta todos os dedos ao mesmo tempo, geralmente atinge um ou alguns dedos de cada vez, por isso, quando ocorrem complicações, tendem a ser em um ou apenas em alguns dedos.

Qualquer médico pode diagnosticar e tratar o fenômeno de Raynaud, seja este primário ou secundário. Os angiologistas e cirurgiões vasculares, especialistas no diagnóstico e no tratamento das doenças da circulação, têm lidado com esse problema há muito tempo, muito mais tempo do que os reumatologistas, e devem sempre ser consultados para uma avaliação.

O papel atual do reumatologista na investigação e no tratamento do fenômeno de Raynaud baseia-se no fato de que as formas mais graves do fenômeno secundário geralmente são vistas em pessoas que apresentam alguma doença inflamatória autoimune de caráter sistêmico, como esclerose sistêmica, lupus sistêmico, artrite reumatóide, síndrome de Sjogrën, doença mista do tecido conjuntivo, etc. Essas doenças devem ser diagnosticadas e tratadas por um reumatologista.
O problema é que, embora muitas vezes o fenômeno de Raynaud secundário que acompanha essas doenças geralmente comece ao mesmo tempo em que os outros sintomas (artrite, lesões de pele, etc) da doença inflamatória, algumas vezes o fenômeno de Raynaud é apenas o precursor, ou seja, começa antes dos outros sintomas da doença inflamatória. Essa situação, que a princípio aparenta ser um caso de fenômeno de Raynaud primário (aparentemente não há outra doença associada), com o passar do tempo mostra ser realmente fenômeno de Raynaud secundário, quando surgem os outros sintomas que permitem fazer o diagnóstico da doença inflamatória autoimune de caráter sistêmico.

Por isso, quando um adulto apresenta pela primeira vez um episódio de fenômeno de Raynaud, geralmente é orientado a procurar um reumatologista, não porque o fenômeno de Raynaud "seja reumatismo" ou "seja algum tipo de reumatismo" mas apenas porque é o reumatologista quem tem o treinamento necessário para investigar as doenças inflamatórias autoimunes de caráter sistêmico que podem acompanhar ou aparecer algum tempo depois do início do fenômeno de Raynaud. Deixar de diagnosticar uma dessas doenças pode ter consequências graves para quem começa a apresentar as curiosas alterações de coloração que caracterizam o fenômeno de Raynaud.
Felizmente, entretanto, a maioria das pessoas que apresentam fenômeno de Raynaud que começa na vida adulta, não apresentam nenhuma doença inflamatória autoimune de caráter sistêmico e correm pouco risco de complicações. Independentemente disso, é sempre prudente fazer a avaliação com um reumatologista para não deixar passar sem diagnóstico outra doença que poderia ser tratada já no início.

Quem procurar pelo fenômeno de Raynaud no Código Internacional de Doenças (CID 10) atual, não o encontrará sob a classificação de "reumatismo" nem de "doenças reumáticas" porque não existe uma classificação de "reumatismo" nem de "doenças reumáticas" no CID 10.
O fenômeno de Raynaud é classificado no CID 10 como uma doença do aparelho circulatório, mais especificamente como uma das doenças vasculares periféricas (a expressão "doenças vasculares periféricas" significa a mesma coisa que doenças da circulação periférica). Por isso fenômeno de Raynaud não é "reumatismo" e não é "um tipo de reumatismo" pois "reumatismo" não é uma doença, é apenas um mito popular e "tipos de reumatismo" não existem.

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4 comentários:

Granja Po'A Porã disse...

Bom dia, Dr. Luiz Claudio.

Em termos acho que fui um pouco grosseira em minha postagem...e como em todo cesto sempre há boas maças, peço desculpa aos bons profissionais que ainda existem. Entretanto, peço que encare como um desabafo de alguém que sente dor, muita dor!
Faz mais de ano que sinto muita dor nas articulações...acabo de completar 40 anos e me sinto como minha avó, que aos 80 anos vivia reclamando do Reumatismos...que graças ao seu Blog já está bem esclarecido.
Durante esse tempo, estive em vários médicos...e as vezes eles "me fazem parecer louca"...dizendo que os exames laboratoriais estão normais e eu vejo os resultados fora das faixas de referência...sei que tudo isso é muito relativo, os organismos reagem de forma diferente, etc. Enfim, como sou hipertensa, não posso ficar tomando anti-inflamatório.
Estou tentando marcar uma consulta com um reumatologista...não sou de Curitiba e não conheço médicos aqui...poderias, por favor, me indicar um reumatologista que atenda pela UNIMED?

Obrigada. Tudo de bom. Stela

yam mello disse...

Boa noite Dr. Luiz Claudio da Silva, tudo bem?
Meu nome é Yolanda, pesquisando na Net sobre sintomas que estou sentindo, encontrei seu Blog (aproveitando, parabéns pelas informções em seu Blog). A mais ou menos 4 anos comecei a sentir um desconforto no dedo indicador da mão direita, era casos esporádicos de dor e rapido. Na mesma epoca recebi o diagnostico de linfoma não-hodgkin, fiz tratamento quimioterapico, manutenção, ha 1 ano estou sem quimioterapia,e nesse momento faço estadiamento de 3 em 3 meses para controle. Nesse periodo as dores foram aumentando gradativamente. a 1 ano comecei a sentir fortes dores no dedo, choques, nada pode se quer encostar no dedo que tenho a sensação de receber uma descarga elétrica. Fui encaminhada a um cirurgião de mão e recebi o diagnostico de tumor glomico, ha 04 meses fui operada, porém a biópsia não confirmou o tumor glomico e as dores pioraram. Hoje tudo que encosta no dedo causa uma dor aguda, e pulsante, dói durante a maior parte do dia, aumenta a intensidade da dor com exposição ao frio, mergulho a mão na agua bem quente, que é a unica coisa que alivia a dor, faço isso mais ou menos 5 vezes por dia, e estou usando luva de lã 24 horas, mas as vezes mesmo assim a dor é intensa e hoje duram cerca de 10 a 30 minutos e comecei a sentir dores no outro dedo também, mas eles ficam levementes pálidos e nunca ficaram roxos. Foi receitado um remédio chamdo PACO 3x ao dia, porém não surte efeito na dor. Hoje estou trabalhando, porém não consigo exercer minhas funções, não consigo dormir e nem comer direito, não dirijo mais e já não saio de casa, pois tenho medo de ter uma crise de dor e não ter agua quente ao meu alcance. O medico pediu pra eu ter paciencia que as dores vão passar. Estou sem rumo e sem saber o que fazer ... já estou cansada. Se puder me ajudar e dar sua opinião ou alguma sugestão eu agradeço. Obrigada.
Yolanda

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Stela:
Agradeço o seu comentário e sinto muito pelo que você vem passando.
Lamento mas não faço indicações de nomes pelo blog. Sugiro que você verifique junto ao seu convênio quem está atendendo.
Boa sorte.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Yolanda:
A dor que você descreve tem algumas das características da dor neuropática, um tipo de dor que deve ser avaliada por um neurologista. Sugiro que consulte um.