domingo, 7 de outubro de 2012

POR QUE SINTO DOR QUANDO PEGO AR FRIO APÓS UM BANHO QUENTE?

LEIA O EBOOK REUMATISMOS NÃO EXISTEM

http://drluizclaudio.blogspot.com/2015/09/reumatismos-nao-existem-ebook.html

A leitora Maria Regina postou o seguinte comentário ao artigo PARA QUE SERVE O EXAME PROTEÍNA C REATIVA:

Gostaria de parabeniza-lo pelo blog, e agradecer por ele, que comigo já cumpriu um objetivo: me deixar claro que reumatismo não existe rs. Primeira duvida, quase infantil, então, se reumatismo não é a palavra correta, como devemos chamar aquela rigidez dolorosa que temos nos musculos quando saímos do banho quente e pegamos vento frio, e os antigos dizem,"se pegar vento depois do banho vai ter reumatismoo"?
Aquela dor existe, varias vezes senti ela, o que é aquilo, qual a maneira correta de nomearmos aquela dor de musculos duros após o banho?
Tenho uma pasta de uns 10kg só de laudos de exames, e uma lista de diagnósticos: há quem diga que tenho esclerose multipla, e há quem diga que tenho vasculite, há quem diga que tenho lúpus;Tudo isso questionado por outros que dizem qeu não.Tenho doença celíaca, intolerancias alimentares como à lactose, mas os medicos parecem perdidos e soterrados no meio dos exames qeu eles mesmos solicitam, sendo que, fora a rm que para alguns medicos sugere dedos de dawson, o que é questionado por outros, a maior parte dos meus exames é absolutamente normal, e em nada sugerem as anestesias, parestesias, dormencias e inchaços nas pernas. Lentidão, fadiga dor embaixo dos pés que parece qeu a musculatura está sem consistencia para sustentar o esqueleto, parece que os ossos cravam direto na carne, principalmente quando saio da posição de descanso, os primeiros passos sao sofridos demais.
Tenho basicamente apenas esses exames alterados e queria ver se talvez o senhor, na distancia, intuísse algum caminho mais iluminado para ser trilhado enfim, pois os exames andam cansativos.
VSG: 96 (valor de referencia 5)
Proteína C Reativa: + ou - 4vzs o valor de referencia
IGE total 271
Complemento C3 levemente aumentado em relação ao normal
Aminoácidos na urina.
Creatinina quando não dá normal, dá abaixo o que é bom né?
Já tive um fator rematoide positivo, mas poucos dias depois estava normalizado. Imensamente agradecida por sua atenção e despreendimento em manter esse canal de comunicação,
Uma boa noite.
Maria Regina


O entendimento do fenômeno da dor provocada pela variação de temperatura não é apenas uma questão de usar a palavra correta; a questão é saber o que é o fenômeno.
Você poderia chamar de "sopro do diabo", "carinho do capeta", "humores do inferno" ou usar qualquer outra palavra que conseguiria o mesmo resultado conseguido pelos antigos que criaram a palavra "reumatismo". Criando uma palavra para explicar um fenômeno natural, cria-se um mito, se a palavra não for criada a partir de observações científicas. Depois de criado, o mito passa a ser a explicação para o fenômeno, mesmo quando ninguém sabe o que é aquilo que está sendo chamado de "reumatismo".

Uma maneira mais adequada de explicar o fenômeno da dor provocada pela variação de temperatura seria dizer que é o resultado da sensibilidade individual. Algumas pessoas apresentam isso, outras não; as que apresentam são mais sensíveis às variações da temperatura ambiente. Mas ainda seria apenas uma explicação verbal, pois não diz exatamente o que é o fenômeno.

Entretanto, ao contrário da explicação baseada na palavra mitológica, a explicação que se refere à sensibilidade individual pode ser medida, pode ser quantificada, pode ser testada em laboratório. Essas ações científicas, se fossem realizadas com método, poderiam levar à descoberta da explicação biológica para o fato de algumas pessoas perceberem o fenômeno e outras não. Infelizmente há pouquíssimas pesquisas a respeito do assunto, talvez porque o motivo que financia a maioria das pesquisas médicas atuais é apenas o desenvolvimento de tratamentos cada vez mais caros em detrimento do entendimento científico de fenômenos que ainda são misteriosos.

A existência desse fenômeno é conhecida pela humanidade há milênios mas as suas causas continuam desconhecidas. Dizer que é "reumatismo" apenas transfere a ignorância a respeito do fenômeno para a palavra "reumatismo" - quem usa a palavra "reumatismo" para explicar o fenômeno é tão ignorante quanto quem diz que não sabe o que é, embora este pelo menos seja mais honesto a respeito do assunto do que aquele.

Por isso, "aquela rigidez dolorosa que temos nos músculos quando saímos do banho quente e pegamos vento frio", como você escreveu, não deve ser chamada de nada, apenas de dor - no máximo de dor percebida pela variação da temperatura -, para não atribuir nenhum significado a algo que realmente não se sabe o que é. E que não é uma doença, pois não produz nenhuma consequência física - o sintoma é de curta duração e desaparece tão rapidamente como começou.

Sobre o que "os antigos" diziam a respeito, não vale a pena dizer palavra, exceto que era apenas a imaginação de pessoas ignorantes e orgulhosas que queriam mostrar que sabiam de algo a respeito do que ninguém sabia nada e apenas usavam da autoridade familiar para forçar os mais jovens a agir da maneira que era considerada adequada, ou seja, da maneira que traria menos problemas para "os antigos".

Embora baseado em palavras, esse processo de convencimento dos ingênuos se mostrou bastante eficaz e foi também usado pelos antigos senhores de escravos para desestimular o consumo de alimentos à noite, hora em que os negros, protegidos pela escuridão, podiam atacar os pomares e hortas das fazendas sem serem percebidos. Fazendo-os acreditar que "comer melancia de noite causava congestão", por exemplo, os senhores diminuíam, pelo poder do mito, o número de escravos com ousadia suficiente para se aventurar a comer melancia de noite.

Modernamente, o cineasta indiano M. Night Shyamalan mostrou no filme A VILA como o uso de mitos serve para submeter as pessoas à vontade da minoria que detém o poder e a informação. O filme não fez muito sucesso, talvez porque as pessoas prefiram o comodismo, ou seja, continuar acreditando nos mitos para não serem forçadas a realizar as cansativas ações necessárias para dar fim à enganação e não consideraram verossímel, ou simplesmente não entenderam, a mensagem transmitida pelo autor através das "coisas das quais nós não falamos".

No século XVII, Molière, um autor francês, escreveu, criticando a invenção de nomes para doenças cujos mecanismos são desconhecidos, um diálogo que expôs de maneira contundente as fraquezas da medicina da época - a medicina humoral (leia O MITO "REUMATISMO" PARTE 1 e 2) -, uma prática baseada na imaginação e em superstições impostas pelas autoridades intelectuais.

O fragmento a seguir está nas páginas 120 e 121 do livro O DOENTE IMAGINÁRIO, da editora Martin Claret, de 2005 (tradução do original Le Malade Imaginaire, de Molière, 1673).

ARGAN: Mas raciocinemos um pouco, meu irmão. O senhor não acredita na medicina?
BÈRALDE: Não, meu irmão, e não creio que pela sua salvação seja necessário acreditar.
ARGAN: Como! Não acha verdadeiro algo reconhecido por todo o mundo e que todos os séculos reverenciaram?
BÈRALDE: Além de não considerá-la verdadeira, acho, cá entre nós, que é uma das maiores loucuras que há entre os homens e, a ver as coisas como filósofo, não vejo farsa mais ridícula do que um homem que quer meter-se a curar outro.
ARGAN: Por que não crês, meu irmão, que um homem possa curar outro?
BÈRALDE: Pela razão, meu irmão, de que os mecanismos da nossa máquina são mistérios até hoje em que os homens nada enxergam e que a natureza colocou frente a nossos olhos véus por demais espessos para entendermos alguma coisa.
ARGAN: Os médicos então não sabem nada, na sua opinião?
BÈRALDE: Sabem, meu irmão. Eles sabem, em sua maioria, línguas antigas, sabem falar belo latim, sabem nomear em grego todas as doenças, defini-las e dividi-las; mas no que tange a curá-las, isso é que não sabem.


Se presenciasse as conquistas da medicina atual, Molière teria a obrigação de corrigir o diálogo e reconhecer o tratamento médico científico como eficaz no alívio do sofrimento físico e mental e no restabelecimento da saúde. Mas, com a perspicácia que lhe era peculiar, prontamente perceberia que, ao lado dos conceitos científicos modernos ainda sobrevivem muitas das superstições a respeito da saúde e da doença que levaram ao desenvolvimento da medicina humoral e ainda perpetuam a crença em "reumatismo".

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4 comentários:

Tiago disse...

bom dia Dr, minha dúvida é a seguinte. Ultimamente tenho sentido dores nas juntas dos dedos da mão direita. Junto com as dores apareceu o inchaço. Mas somente na mão direita, mão a qual uso o mouse do computador o dia todo! Comprei uma bolinha para exercitar os dedos, como uma tala pra usar pra deixar o pulso reto. Tenho feito pausas a cada 2 horas para alongamento dos braços e mãos. bem, isso faz dois dias que começei a fazer, mas não notei nenhuma mudança. O que poderia ser? Obrigado e parabens pelo blog

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Tiago:
Inchaço e dor na mão são motivos para consultar um reumatologista.
As possibilidades de diagnóstico de casos assim dependem principalmente do exame físico, tanto da mão inchada quanto das outras articulações.
O reumatologista é o especialista indicado para essa avaliação.

Ricardo Sena disse...

Parabéns, Dr. Luiz, Leio muito o seu Blog. Tenho muitos pacientes que relatam o "tal sintoma", isto também ocorre nas mudanças climáticas, quando vai chover principalmente, ou ambientes frios.De uma forma geral explico aos meus pacientes relativo a sensibilidade individual. Esta sensibilidade está relacionado a Física do elementos corpóreos. A Pressão atmosférica (baromètrica) quando alterada pela queda pode ser sentindo por algumas pessoas, com dor, coceira dentre outros, inclusive, velhas lesões também parecem apresentar sintomas dolorosos nesta mudanças climáticas.Outro dia ví que na Alemanha a wetherwoman, no momento de ler o Clima para os teleespecadores comentava sobre a possbilidade de paciente sensíveis sentir algum tipo de dor. (interessante hein!!!)Abraço.

Dr. Luiz Claudio da Silva disse...

Dr. Ricardo:
Agradeço por enriquecer o artigo com sua opinião.
O comentário é pertinente e mostra a melhor maneira de falar sobre o assunto: diante de variações climáticas, pessoas sensíveis podem sentir dor.
O que não deve ser dito é que alguém que sente dor quando ocorrem variações climáticas "tem reumatismo" - essa crença não tem fundamento pois "reumatismo" não é uma doença.
Também não deve ser dito que quem sente dor com variações climáticas tem alguma doença "reumática" ou alguma doenca "reumatológica" pois não é preciso estar doente para perceber essas alterações