domingo, 20 de janeiro de 2013

PARA QUE SERVE O EXAME ANTI-DNA





Muitos médicos acreditam que anti-DNA positivo significa "lupus", mas essa crença não tem fundamento.
Para o reumatologista, anti-DNA positivo é apenas um dos anticorpos usados para o diagnóstico de lupus sistêmico, mas não é o único, não é essencial para o diagnóstico e, como todos os autoanticorpos encontrados nas doenças autoimunes, pode ser visto em pessoas normais, sem doença nenhuma.
A diferença entre "lupus" e lupus sistêmico é que "lupus" significa vários tipos de doença (lupus sistêmico e lupus cutâneo, principalmente, mas cada um desses tipos de doença que têm a palavra "lupus" no nome, tem sub-tipos - como lupus articular, lupus do sistema nervoso, lupus renal, lupus discóide, lupus cutâneo sub-agudo, etc). Portanto, quando alguém diz "é lupus" não está dizendo qual é a doença.
A diferença entre lupus cutâneo e lupus sistêmico é marcante pois os sintomas e o tratamento são diferentes, por isso o mínimo que se espera de quem recebe um diagnóstico de "lupus" é que saiba dizer se o diagnóstico é lupus cutâneo ou lupus sistêmico porque, quando um profissional diz apenas que o diagnóstico é "lupus", pode não ser (leia TRATANDO FAN).

Muitos médicos acreditam que anti-DNA positivo significa "lupus" porque na faculdade de Medicina é ensinado com veemência que o exame de pesquisa de anticorpos anti-DNA é "específico" para lupus sistêmico.
Teoricamente, um exame específico para determinada doença deveria ser positivo apenas em casos da doença para a qual é específico. Entretanto, o conceito de exame específico é estatístico, ou seja, baseia-se no estudo de populações e por isso é expresso em porcentagem.
Dessa forma, teoricamente, o exame ideal para diagnóstico deveria ser 100% específico, o que significa que todas as pessoas que apresentassem o exame positivo teriam a doença ao mesmo tempo em que nenhum exame positivo seria visto em pessoas com outras doenças ou sem doença alguma.
Mas, na prática, não existe exame 100% específico, ou seja, todos os exames de laboratório que são considerados específicos para o diagnóstico de qualquer doença apresentam percentual acima de 90% - mas abaixo de 100% - e, no caso do anti-DNA, o valor é 98%.
98% específico significa que, em cada grupo de 100 pessoas que apresentam o exame positivo, 98 apresentam lupus sistêmico e 2 não apresentam a doença (podem ter outra doença ou podem não ser doentes).
Lembre-se de que 98% é um dado estatístico, por isso se aplica ao estudo de populações (para a estatística, um grupo de 100 pessoas é uma população - poderia ser 10 ou 1000 ou qualquer outro número, não importa; para a estatística, para que um exame seja considerado específico deve sempre ser estudado em uma determinada população).
Mas o diagnóstico médico não é feito em populações; é feito em apenas um indivíduo de cada vez, não é expresso em percentual e deve ser definitivo, ou seja, deve identificar qual doença a pessoa apresenta.
O resultado de um exame específico auxilia o médico no diagnóstico mas dizer que um exame "é específico para determinada doença" não significa dizer que, sempre que o exame é positivo, a doença está presente.
No caso do anti-DNA, em uma população de 100 pessoas com anti-DNA positivo, 2 não terão lupus sistêmico; se a população for 1000, 20 não terão a doença; 200 em 10000 e assim por diante.
Em princípio, considerando apenas o resultado positivo para determinado exame "específico", quando um indivíduo que apresenta o exame positivo é separado da população, não há como saber se é o indivíduo em que o exame específico é positivo na ausência de doença ou se ele apresenta outra doença que nada tem a ver com o exame específico.

Para identificar qual é a doença, o médico recorre à consulta e a exames de laboratório e usa o resultado dos exames "específicos" para aumentar a sua convicção de que uma determinada doença esteja presente.

Por exemplo, se um médico suspeita de lupus sistêmico, ele pode solicitar o anti-DNA, entre outros exames, para fazer o diagnóstico.
A maneira correta de fazer isso é, em primeiro lugar, suspeitar da doença baseado na história e no exame físico do doente e depois solicitar os exames para confirmar o diagnóstico. Dessa maneira, se agisse corretamente, um médico não solicitaria anti-DNA para só DEPOIS de ver o exame positivo suspeitar de lupus sistêmico.
Para suspeitar de lupus sistêmico, um médico deveria primeiramente confirmar, através da história e do exame físico, que os sintomas da doença estão presentes. Se o quadro clínico é sugestivo de lupus sistêmico, ou seja, as manifestações clínicas da doença estão presentes, um exame específico como anti-DNA positivo dá convicção ao médico de que o diagnóstico é esse mesmo.

No caso do anti-DNA no lupus sistêmico, o exame positivo tem sido associado com o envolvimento renal (nefrite, o mesmo que inflamação nos rins).
A nefrite do lupus sistêmico ē o resultado de uma glomerulonefrite (inflamação dos glomérulos).
Glomérulos são as partes dos rins onde o sangue é filtrado - cada rim tem milhões de glomérulos e cada glomérulo recebe um pouco de sangue para filtrar. Quando os glomérulos estão inflamados (glomerulonefrite), o sangue não é filtrado adequadamente e a pessoa adoece.
Os principais sintomas das glomerulonefrites são a urina escura, causada pela presença de sangue (hematúria), e a urina espumante, causada pela presença de proteína (proteinúria). Além disso, muitos outros sintomas podem ser observados, alguns bem evidentes e outros mais sutis.
Se você é médico e quer saber quais são esses sintomas, sugiro que estude mais o quadro clínico das glomerulonefrites; se não é, para saber se tem glomerulonefrite consulte sempre um nefrologista ou, se você sente dor nas articulações, nos ossos, nos músculos ou na coluna e se a suspeita for lupus sistêmico, consulte sempre um reumatologista. Não cometa o erro de ler na internet os sintomas das doenças para tentar descobrir por si mesmo o que está acontecendo.

Muitas doenças causam glomerulonefrite.
A principal utilidade do exame anti-DNA positivo é dizer que um quadro de glomerulonefrite é causado por lupus sistêmico e não por outra doença mas, para que isso seja verdade, é preciso primeiro diagnosticar a glomerulonefrite.
O diagnóstico de glomerulonefrite é feito através dos sintomas, do exame físico e de alguns exames simples de laboratório, dos quais o mais importante é o exame da urina.

Se há glomerulonefrite e a causa não é evidente, o anti-DNA positivo serve para diagnosticar lupus sistêmico como a causa da glomerulonefrite.

Se não há glomerulonefrite, a utilidade do anti-DNA positivo diminui muito e só servirá para diagnosticar lupus sistêmico na presença de outras manifestações clínicas da doença, como lesões de pele, artrite, derrame pleural, derrame pericárdico, convulsões, anemia hemolítica, etc.

Se não há glomerulonefrite nem sintomas, anti-DNA positivo não serve para diagnosticar nenhuma doença.

Por isso, para entender para que serve o exame anti-DNA, é importante notar que anti-DNA positivo NÃO É e também NÃO SIGNIFICA lupus sistêmico (nem "lupus"). Anti-DNA positivo serve para diagnosticar lupus sistêmico APENAS se os sintomas e as manifestações da doença estiverem presentes.

Alguns profissionais gostam de dizer que anti-DNA positivo "é reumatismo" ou "é reumatismo no sangue", da mesma forma como dizem isso para FAN positivo, fator reumatóide positivo, ASLO positivo, VHS e proteína C reativa aumentados.
Nenhuma das afirmações "é reumatismo" e "é reumatismo no sangue" é verdadeira porque "reumatismo" não é uma doença, é apenas um mito popular e "reumatismo no sangue" não existe (leia REUMATISMO NO SANGUE, PICARETAGEM E DEBOCHE).



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